“O fim é um princípio qualquer”
Já o diziam os Paus e com razão – “O fim é um princípio qualquer”. Quando algo termina é porque, normalmente, outra coisa está para começar. Esse não é o caso da cultura e do formato físico.
Com o boom da internet e de toda a tecnologia que a suporta, bem como dos gadjets de armazenamento e reprodução digital, foram muitos os que prenunciaram o fim do formato físico da música e do DVD. Já o haviam feito com a rádio aquando do aparecimento da televisão e fazem-no com os jornais em função dos instrumentos e ferramentas que a internet proporciona. Fizeram-no outrora ao teatro por causa do cinema e posteriormente ao cinema por causa da televisão. Ah! E fizeram-no à televisão por causa da internet. Ou seja, pelos vistos a internet é a resposta para tudo. Com a vantagem de podermos armazenar essa resposta num qualquer equipamento digital ou então numa nuvem perdida no meio de milhões.
Uma amiga minha, profissional na área do teatro, tem ido a algumas das manifestações que se fazem pelo país fora, para batalhar por um futuro, sob o mote “Não como palmas ao jantar”. Chego à conclusão que ela tem razão – porque as palmas são poucos nutritivas. A internet teve a grande virtude de tornar a cultura acessível a todas as pessoas (ou pelo menos àquelas que têm acesso à tal nuvem – convém nunca esquecermos isto, até porque muitos são aqueles que, com a crise, deixaram de poder ter internet nos seus domícilios), mas teve o grande defeito de impor uma dieta rigorosa a muitas pessoas que trabalham nas áreas que fazem com que o ser humano não seja uma máquina, naquelas que nos constroem como seres sociais.
Ora, se é a cultura que nos alimenta socialmente, porque é que a devemos guardar numa nuvem em vez de lhe tocar e de a sentir “bem juntinho de nós”? Porque é que não pagamos o preço justo por ela? Sei bem que esta questão é fraturante e que as opiniões se dividem – cada um puxa a brasa à sua sardinha. Tendo em conta que vivemos socialmente e não individualmente, devíamos (todos!) ter atenção à sardinha do vizinho para que ela não se queime. E julgo que é isso que nos falta e que falta ao advento da internet – ter atenção à sardinha do vizinho para que ela não se queime.
Assim, não devemos prenunciar o fim de nada e devemos dar a mão a quem está caído no chão. É o que acontece com os formatos físicos da cultura – estão caídos no chão, não chegaram ao fim, foram relegados para um plano ínfimo. Precisam de ajuda para se levantar porque o ser humano, enquanto ser “biologicamente físico”, gosta deles. Pode não ter dinheiro para pagar por todos mas gosta deles e, se eles forem reabilitados, fará um esforço para pagar por alguns.
Consequentemente, a internet não é a resposta para tudo. A internet é uma biblioteca interativa que podemos usar para procurar e saber o que, para cada um de nós, é bom ou mau. Ajuda-nos a comparar conteúdo e a perceber aquilo a que queremos ter acesso. Esse acesso, numa perspetiva de convergência e cooperação, deve ser feito manualmente e deve ser observado in loco, uma vez que só assim conseguimos ter noção da real dimensão do conteúdo.
Este acesso é benéfico para nós enquanto consumidores e é benéfico para os artistas enquanto produtores e trabalhadores – uma vez que veem o seu trabalho reconhecido. A Mariana, como actriz ou produtora de conteúdos, continua a não comer palmas ao jantar e os possíveis likes que este redator possa averbar, a par dos outros que contribuem para este jornal académico, não lhe pagam as propinas.
Se as várias áreas estruturais à sobrevivência e à inovação e crescimento do homem são remuneradas porque é que a cultura não o deve ser? Se as mesmas áreas são subsidiadas porque é que a cultura não o é? Se a importância da cultura fosse reconhecida pelas autoridades competentes, facilmente se poderia chegar a um bom porto para que os custos dos consumidores não fossem elevados – e desta forma o acesso à cultura era garantido à generalidade das populações.
«Tenho dificuldade em imaginar que as tablets eletrónicas, idênticas, anódinas, intermutáveis, funcionais ao máximo, possam despertas esse prazer tátil prenhe de sensualidade que os livros de papel despertam em certos leitores. Mas não estranho que numa época que tem entre as suas proezas ter acabado com o erotismo [«corpo trabalhado e manuseado» no caso dos livros] se esfume também esse hedonismo refinado que enriquecia o prazer espiritual da leitura com o físico de tocar e acariciar» (Maria Vargas Llosa in A Civilização do Espetáculo).
“O fim é um princípio qualquer”?


