Não basta dar voz ao povo, é preciso escutá-lo
“O povo é quem mais ordena”, assim cantava José Afonso dos Santos, mais conhecido por Zeca Afonso. Em Abril de 1974, terá sido este o lema que levou o povo a sair à rua para participar na ‘Revolução dos Cravos’. O mesmo que, provavelmente, tem levado muitos dos portugueses a estarem presentes nas manifestações das últimas semanas.
Protestos e greves. Tem sido desta forma que muitos dos portugueses têm reagido às medidas de austeridade aplicadas em Portugal e à proposta de Orçamento de Estado para 2014. Entre o dia 25 de outubro e o dia 9 de novembro, somaram-se à greve da Função Pública as paralisações dos CTT – Correios de Portugal e de várias empresas públicas de transporte. O protesto em frente à Assembleia da República, organizado pela Confederação Nacional de Trabalhadores Portugueses (CGTP) e as várias manifestações realizadas por todo o país, promovidas pelo movimento “Que se Lixe a Troika” foram outros dos pontos altos desta onda de reivindicações.
Pegando na expressão de Zeca Afonso, parece que os números também são quem mais ordena. Note-se que, quase sempre, a adesão apontada pelas entidades sindicais e pelos organismos do governo, em relação às manifestações e greves, diferem significativamente. Se os sindicatos falam em adesões elevadas, o governo avança habitualmente com percentagens de participação mais reduzidas. Desta forma, parece que os participantes das manifestações são reduzidos a meros números, situação que pode condicionar o modo como são entendidos e compreendidos todos estes protestos: se a adesão não for suficientemente elevada, há o risco de não ser levada em consideração.
Mas se as pessoas decidem estar presentes nas manifestações, sendo muitas ou poucas, é porque, de um modo geral, têm algo a dizer e querem, necessitam de uma resposta. Neste sentido, não basta dar voz às pessoas. É preciso também que as suas reivindicações tenham um resultado prático. É preciso que sejam escutadas, e não apenas ouvidas. Sim, escutadas! Porque, da mesma forma que ver é diferente de olhar, escutar não é a mesma coisa que ouvir. Se fizermos uma rápida pesquisa pela internet, percebemos que ‘ouvir’ constitui um mero ato de audição, não exigindo interpretação; já a ação de ‘escutar’ requer atenção ao que é dito, entender e levar em consideração. É preciso, portanto, que a voz do povo e os seus motivos não sejam ignorados e que às suas ações sejam dadas respostas.
Se compararmos as reivindicações feitas pelos portugueses e as ações do governo nos últimos anos, percebe-se que não tem existido grande ‘reciprocidade’. Para que o povo seja quem mais ordene, é preciso que quem o representa no governo ordene e governe com base nas expetativas e necessidades dos cidadãos que os elegeram através do voto, ato democrático por excelência e que não deve ser menosprezado durante o exercício governativo.
Dar voz ao povo não basta, é preciso fazê-lo sentir-se parte ativa nas decisões que são tomadas pela estrutura governativa (da qual acaba por fazer parte), dando assim sentido ao que se entende por uma sociedade democrática.


