Dois meses. O tempo decorrido num pequeno país conhecido pelo queijo, cerveja, chocolate, banda desenhada, pelo Parlamento Europeu e onde existem três línguas. Sejam bem-vindos à Bélgica! Sejam bem-vindos a Louvain-la-Neuve!

Quando aterrei, não sei bem onde vinha parar! Edifícios em tijolos, céu escuro e chuva. Parecia um filme do Harry Potter.

Se pensam que Erasmus é fácil, sejamos realistas. Não é! Toda a burocracia, estar longe de casa e ter de falar uma língua com a qual não estamos familiarizados, só complica. Mas o espírito Erasmus manda ‘desenrascar’. Se estão à espera que as coisas caiam do céu, essa ideia perde-se rapidamente.

Louvain-la-Neuve, como eu costumo dizer, é uma vila pedonal com cinema, ginásio e centro comercial. Em 20 minutos consigo atravessar esta pequena cidade estudantil, que ao fim-de-semana parece uma cidade fantasma. Os estudantes são a vida desta pequena terra, próxima de Bruxelas. Não posso deixar de referir o Musée Hergé, do criador de Tintin.

E o que me surpreendeu aqui? Tudo! Na Bélgica existem três línguas: francês, flamengo e alemão. Mas aqui, em Louvain, ninguém fala outra língua a não ser francês (com tantas línguas, quem haveria de falar inglês?). Para minha sorte, dizer ‘Bonjour’ dá para tudo: olá, bom-dia, boa tarde. Não tive outra solução senão começar a falar ‘un peu’.

Os ‘Kot-à-Project’ são um grande atrativo desta cidade. Uma espécie de apartamento ou prédio onde vivem entre seis a 12 estudantes. Cada Kot tem um tema: ambiente, literatura, desporto, dança. Organizam atividades entre eles e para toda a comunidade estudantil, ou para a cidade. É um bom sítio para morar quando se gosta de viver com muita gente que não se importa com a desarrumação. Sim, os belgas não são muito arrumados…

A comida. Dou muito valor aos cozinhados da minha mãe e à gastronomia portuguesa. Nunca gostei tanto de sopa! O único peixe que comem aqui é salmão fumado. Para mim é o paraíso das cervejas e o inferno dos queijos. As 300 cervejas (‘blonde’, ‘brune’ e ‘trappist’), os queijos e os molhos definem a gastronomia belga. Ah, e claro, as ‘frites’, as famosas batatas fritas belgas. Quanto aos doces, chocolate e ‘gauffres’! Aqui em casa ficam todas espantadas com os meus cozinhados. Eu nem cozinho muito bem. Mas para quem só come ‘baguette’ e ‘fromage’, eu até merecia uma estrela ‘Michelin’!

E as festas? Todos os dias. Até às três da manhã! Todas as noites são académicas, o que parece estranho. Sair em Louvain-la-Neuve traz muitas surpresas. Não se preocupem com o que vão vestir. A pior roupa e as galochas são o vestuário ideal. Conseguem imaginar porquê? Discotecas? Não existem! Apenas os ‘cercles’, pequenos bares das faculdades, e a famosa ‘La Casa’ e a ‘Petite Casa’, caves com música e um bar (sem casa de banho), animam as noites dos estudantes belgas. Ah, já me esquecia do ‘Becketts’, um bar aqui da cidade. Mas devido à rigorosa etiqueta não é muito procurado. Qual é o estudante que troca umas galochas por umas sapatilhas?

A maior festa em Louvain-la-Neuve é o ‘24h Vélo’. São 24 horas de festa, em que toda a cidade pára. Há concertos e os Kots e os Cercles participam com bicicletas alegóricas.

Não podia deixar de falar das pessoas que conheci aqui. Moro com uma francesa e três belgas. Ao início a francesa não percebia o francês das belgas. Então imaginem eu. Mas agora conseguimos conversar todas. Eu falo francês, inglês e português numa só frase e elas respondem-me em francês. Eu sei, é estranho. Mas entendemo-nos.

Não podia deixar de referir aqueles que me fazem sentir em casa: os ‘Tugas’. A família de portugueses de Louvain-la-Neuve. Os nossos jantares a ouvir Quim Barreiros diminuem as saudades de Portugal. Mas as saudades da família nunca de dissipam.

E termino como terminam todas as noites em Louvain-la-Neuve, com um verso da música dedicada à cidade. ‘Mais non jamais, jamais je ne t’oublierai’, como quem diz: mas nunca mais, nunca mais te esquecerei.

Bisous

Carolina Cardoso