Um dia depois de o SC Braga ter garantido a presença na final da Taça de Portugal, o ComUM recupera – e reformula – uma reportagem, publicada originalmente em janeiro de 2013, sobre a conquista do troféu por parte da equipa bracarense, em 1966.

Jamor, 22 de maio de 1966. No relvado do Estádio Nacional, no Jamor, SC Braga e Vitória de Setúbal estão empatados a zero. Passam os minutos, prolonga-se o nulo e cresce a ansiedade. Falta menos de um quarto de hora para o final da Taça de Portugal. O jogo está aguerrido, disputado por homens de barba rija, sem temores e em ritmo elevado.

O clique para o SC Braga desbloquear o resultado surge aos 77 minutos, quando o avançado Perrichon, oportuno e letal, supera os adversários e remata certeiro. Mais do que um golo, o avançado argentino consegue cunhar o nome dos minhotos na História perante uma equipa que jogava como detentor da Taça de Portugal, ficara em quinto lugar no campeonato e tinha jogadores de valor como Mourinho Félix, Jaime Graça ou Carlos Manuel.

Antes de o capitão, Canário, um universitário vindo de Lisboa, poder receber a Taça de Portugal das mãos do Presidente da República, Américo Tomás, o SC Braga precisou de sofrer. Uniu esforços e vontades, cerrou os dentes e agarrou-se à vantagem. Um dos últimos lances ofensivos do Vitória de Setúbal terminou nas mãos de Armando, titular indiscutível da baliza bracarense. Logo depois, Braga Barros, internacional de Leiria, terminou o jogo.

festa

“Eu saí da baliza e vi todos os outros, os jogadores, o treinador, o massagista… Parecíamos ovelhas tresmalhadas, uns para um lado, outros para outro. Depois, foram as comemorações normais de quem não está habituado a ganhar”, recorda Armando. Hoje, com 74 anos e com a doença de Parkinson a importunar, o antigo guarda-redes, um dos intocáveis nesta equipa treinada por Manuel Palmeira, mantém as memórias dessa final bem vivas. “Tenho muito, muito, muito orgulho”. E isso fica notório em cada recordação.

Para se perceber como ganhar não estava mesmo nos genes da equipa do SC Braga, uma história curiosa, contada, entre risos, por Armando: “Acabou o jogo e nós perdemos a cabeça, ao ponto de a Taça desaparecer. Andou toda a gente à procura dela… Tinha sido um jogador, salvo erro o Coimbra, que pegou nela e meteu-a na cama”.

Uma equipa capaz de tudo

O SC Braga era, nessa altura, uma equipa inconstante. Tanto derrotava Benfica e Sporting na caminhada para a Taça de Portugal, como, no campeonato, acumulava golos sofridos e pesadas derrotas. Parecia, no fundo, caminhar sobre o arame, como um trapezista, sem rede por baixo. “Era uma equipa jeitosa mas se desse para o torto desmoronava-se como um baralho de cartas, levávamos cinco ou seis e vínhamos todos satisfeitos”, atira Armando.

Prova disso é que semanas antes da final da Taça, no primeiro dia de maio de 1966, o SC Braga deixou Setúbal vergado a uma goleada de 8-1. Foi a última jornada do campeonato e estava tudo decidido, talvez isso ajude a explicar. “Não é que não corrêssemos mas não demos o litro… E isso criou no Vitória de Setúbal a ideia de que a final da Taça seriam favas contadas”, assegura o capitão, Canário. Não foram: o SC Braga colocou um ritmo alto, surpreendeu o adversário e conservou o nulo.

Armando 1.9

Até surgir, então, o tal golo de Perrichon. “A bola é jogada no meio campo, depois é metida nas costas da defesa do Setúbal. O Perrichon vai a correr de frente, o defesa está de costas e tem que virar e o Perrichon, como vai embalado, tem mais facilidade em chegar à bola primeiro. E chegou”. A descrição é feita por Armando, ao pormenor, acompanhada de um desenho, como se fosse um esquema, feito com os dedos na mesa. “O Vitória de Setúbal era uma equipa fabulosa. E só uma grande equipa lhes poderia ganhar”, orgulha-se.

“Como em tudo na vida é preciso sorte e nós tivemos. Não fomos muito superiores ao Vitória de Setúbal, fomos praticamente iguais mas tivemos a felicidade de fazer o golo e eles não conseguiram”, confessa Canário. Ao contrário do que é regra geral hoje em dia, o capitão não era o mais antigo no clube nem era, sequer, natural da cidade. Fora escolhido porque era universitário e isso tinha importância acrescida. Agora mora em Cascais mas a ligação a Braga rendeu-lhe “a melhor recordação desportiva”.

 Ganhar ou… ganhar

Para chegar ao Jamor, o SC Braga não teve tarefa fácil. Pelo caminho, já se disse, enfrentou Benfica e Sporting, equipas dominadoras de então. Frente aos encarnados, o SC Braga perdeu por 3-1 na Luz – a única derrota na caminhada – mas a vitória conquistada no então Estádio 28 de Maio (4-1) permitiu a passagem à fase seguinte. “Nós começamos a ganhar a Taça quando eliminámos o Benfica”, atira Canário. Uma vitória por 1-0 frente ao Sporting, ao terceiro jogo, depois de dois empates a um, carimbou o passaporte do SC Braga rumo à final.

Pela primeira vez na sua história, o SC Braga atingiu a final da Taça de Portugal. Para Armando, contudo, a sensação de pisar o relvado do Jamor não foi nova, porque o guarda-redes já havia conquistado o troféu, em 1958, ao serviço do FC Porto, apesar de não ter sido utilizado. Fazê-lo pelo SC Braga provoca, no entanto, uma emoção diferente. “É indescritível. Não há palavras que consigam transmitir aquilo que a gente sentiu”, diz.

equipa

“Ganhar uma Taça de Portugal pelo SC Braga é mais qualquer coisa, porque no FC Porto, se não ganhar este ano, ganha para o ano. No SC Braga não havia outra hipótese, era aquela e acabou”, atira. E o “acabou” é, até este momento, para ser levado à letra, porque foi nesse ano que o clube – que até tinha corrido o risco de ficar fora do campeonato nacional por falta de dinheiro – ganhou a única Taça de Portugal do seu historial. De lá para cá, esteve em mais três finais: perdeu duas para o FC Porto e uma para o Sporting.

Agora, em 2015, dezassete anos depois da última vez, o SC Braga volta ao Estádio do Jamor. No dia 31 de maio, vai defrontar o Sporting, na esperança de repetir o feito de 1966.

Reportagem: Ricardo Costa | Telmo Crisóstomo
Fotos: Arquivo