A subtil e aterradora interpretação de James “Whitey” Bulger por parte de Johnny Depp é uma das melhores partes de Black Mass e muito provavelmente a razão de tanto alarido e frenesim à volta do filme. Mas a verdade é que há muito para gostar nesta abordagem crua, complexa e profundamente envolvente do reino de terror de Jimmy Bulger em 1970, e da sua delicada aliança com o FBI, mais precisamente com o agente John Connoly (aqui extraordinariamente interpretado por Joel Edgerton).

O realizador Scott Cooper optou por uma abordagem realisticamente sombria da época, pautando-a por momentos de ação que, embora modestos em dimensão, mostram-se competentes na execução e coerentes com o enquadramento narrativo. Esta abordagem mais simplista do realizador é partilhada em grande medida por Johnny Depp, que se despe dos maneirismos e trejeitos excêntricos que muitas vezes incorpora nas suas personagens. Embora auxiliado por um trabalho de maquilhagem digno de menção, tem uma das melhores interpretações da sua carreira, que tinha vindo a ser tolhida por papéis menos memoráveis nos últimos anos.

Todavia, nem tudo é de louvar. Embora o filme se esforce por documentar em detalhe a ascensão de “Whitey” Bulger ao domínio hegemónico do mundo do crime organizado de Boston e arredores, revela debilidades severas em termos de equilíbrio e ritmo narrativos, especialmente na última metade do filme. O que foi uma primeira parte tremendamente envolvente e densa, traduziu-se numa apressada e algo desleixada reta final, esforçando-se ao máximo por atar todas as pontas soltas, mas que se permitiu a si mesma pouco tempo para o fazer devida e adequadamente.

Por outro lado, os melhores momentos do filme são os que mostram a relação sinuosa entre Jimmy Bulger e John Connoly. Para além de uma química eletrizante entre os dois atores, o melhor paira na similitude entre os dois personagens. Embora entre lados opostos da lei, ambos enfrentam processos de transformação semelhantes, e as várias vertentes das suas personalidades coincidem em diversos pontos. É-nos mostrado o talento inato que os dois manifestam para a manipulação daqueles que os rodeiam – Jimmy espalha o medo e o terror perante os seus súbditos, e Connoly mantém um exemplar jogo de aparências, fazendo crer aos seus superiores no FBI que a ajuda de Jimmy Bulger é indispensável no combate ao crime organizado. No entanto, há também uma tentativa de humanização destes personagens, ora mostrando-nos o lado de marido devoto do agente do FBI, ora o de pai de família de “Whitey” Bulger, terno e eternamente dedicado àqueles que ama. Num discurso sobre o sentido de oportunidade e onde Bulger explica ao filho que não é o que se faz que conta, mas antes como, quando e com quem se faz, Depp termina com: “If no one sees it, it didn’t happen”, tornando esta cena o epítome da excelente performance de Johnny Depp.

Black Mass estreou em Portugal a 24 de Setembro. Um filme digno de menção, e o renascimento da carreira de Johnny Depp que se prefigura desde já como um dos principais candidatos na atribuição de prémios da Academia.