Será que existe um cinema italiano verdadeiramente digno da fantástica herança que vem do seu património neorrealista, particularmente do trabalho de nomes como Michelangelo Antonioni, Luchino Visconti ou Federico Fellini?

A resposta parece ser obviamente afirmativa, com Paolo Sorrentino, consagrado com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2014, com “La Grande Bellezza”. Diz-se que Sorrentino é um eterno aprendiz de Fellini, e, na minha opinião, confirma-se.

“La Giovinezza” é a saga intimista de duas personagens envelhecidas, um maestro reformado e um cineasta em busca do filme-testamento. Repousando numa estância dos Alpes, embarcam numa espécie de poema industrializado e sofisticado sobre o envelhecimento e os traumas insurgentes do passado. Depois das rugas e dos poucos pingos de urina que a próstata permite, a juventude afinal está mesmo ao fundo do túnel. E a viagem faz-se com música clássica.

O spa é o local perfeito para conhecermos tudo sobre o passado de ambos, a sua amizade, as raparigas com quem não foram para a cama, os projetos que ainda podem (ou não) realizar e os desalentos que, depois de tanto tempo, ainda os aborrecem. Um resigna-se à sua velhice apática, e o outro continua a apostar nas suas ideias – a forma como ambos interagem, a sua relação como duas faces da mesma moeda, é simplesmente deliciosa.

Michael Caine (o maestro) e Harvey Keitel (o cineasta) dão vida à cumplicidade entre estes dois homens tristes, num humor à “buddy movie”, como se fossem reincarnações de Jack Lemmon e Walter Matthau. Destaco duas performances também igualmente fantásticas: Paul Dano, que demonstra novamente o seu talento dificilmente reconhecido; e Jane Fonda, no seu melhor papel em anos, que inicia, com Keitel, um dos diálogos mais deliciosos e frontais deste filme – um debate icónico sobre um tema muito atual: a proclamada morte do cinema e a “vingança” da televisão no futuro.

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A cinematografia é de mestre – obrigada, Luca Bigazzi –, e a banda sonora serve de indumentária perfeita para a imagem. Um dos pontos fortes de Sorrentino é a nata capacidade de cruzar movimento e música, muito ao estilo de Fellini.

Falando dos aspetos menos positivos desta obra, senti que Sorrentino deu muito mais com “La Grande Bellezza”- e, infelizmente, “La Giovinezza” não consegue fugir das comparações. Além disso, o realizador espelha sempre uma visão exageradamente elitista das personagens, ou seja, nunca as vê como apenas mortais presos noutras situações menos exuberantes. Talvez seja altura de experimentar caminhos diferentes.

São duas horas imperfeitas de como uma vida chega ao fim, mas é precisamente isso que torna o filme pertíssimo da perfeição. Tudo o que se espera de Sorrentino está presente. E Sorrentino é o suficiente para nos apaixonar, e para nos lembrar de uma certa “belezza”. Uma pena que não tenha estado na corrida para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.