José González-Meijóme, optometrista, professor e investigador da Universidade do Minho, foi distinguido no final do passado mês de setembro com o Prémio Internacional Optometrista do Ano 2016. Este reconhecimento, atribuído pela Universidade Politécnica da Catalunha, em Espanha, é um dos maiores na área a nível mundial.

José González-Meijóme tem focado, durante a sua carreira, os seus projetos e estudos na evolução e contributo das lentes de contacto para a diminuição da propagação de doenças oculares, como a miopia. Fruto deste trabalho, o investigador constatou que as lentes ajudam a encurtar a expansão da miopia, e acredita que as suas descobertas poderão vir a facilitar a vida da sociedade em geral.

Assim, o ComUM esteve à conversa com o professor e investigador para conhecer melhor o seu trabalho.

ComUM: Com certeza, que o seu caminho até aqui não foi fácil. Tendo em conta isto, qual é a sensação de ver o seu trabalho reconhecido a nível internacional?

Prof.José Meijóme: Não foi propriamente difícil. Foi um percurso normal universitário. É sempre demorado, não é algo em que se encontre sucesso imediato, porque às vezes construir uma carreira de investigação é um processo longo. É preciso ir-se construindo aos poucos, principalmente na nossa área (optometria), que não está muito desenvolvida em Portugal. Não havia muito trabalho de investigação até 2000. A partir desse ano juntou-se aqui, na Universidade do Minho, um grupo de investigadores. Eu vim, precisamente, para integrar esse grupo de investigação na área das lentes de contacto. O reconhecimento é sempre bom. Não quero que isto soe a falsa modéstia, mas para nós não é algo que signifique assim muito, isto é, têm um peso relativo estes prémios. Em primeiro lugar, este prémio não foi só para mim, eu fui a pessoa escolhida para o receber apenas, mas é obvio que por aqui passaram dezenas de estudantes de mestrado, de doutoramento, alguns professores desta universidade, de outras universidades também, e foi um trabalho conjunto. Foi graças a isto que todo este reconhecimento surgiu. Se eu desse muita importância a isto, a nível pessoal, seria um egoísmo. Satisfação? Dá. Precisamente porque é um percurso e tem os seus entraves. Tem de se saber lidar com as dificuldades, por vezes de ordem financeira, e sabe bem ter de vez em quando este reconhecimento coletivo.

ComUM: No inicio da sua vida académica, o que o levou a abraçar o curso de Ótica e Optometria?

Prof. José Meijóme: Pergunta muito interessante. Eu diria que quase nada. Sou um optometrista quase casual. Eu intitulei a minha palestra, quando fui receber o prémio, de “Optometrista Improvável” [risos].Na minha altura, há 20 anos atrás, entravam tipicamente pessoas que estavam ligadas ao negócio ou que tinham estudado a área. Eu não tinha nada disso. Portanto, eu entrei naquele curso, na Universidade de Santiago de Compostela, pois era um curso relativamente recente que garantia e garante pleno emprego e isso aliciou-me. Tornei-me então num optometrista improvável, mas muito cedo quando entrei no curso comecei a interessar-me mais pela parte da investigação do que propriamente pelo exercício clínico.

ComUM: Os seus projetos e estudos incidem essencialmente sobre o controle do avanço da miopia e sobre as lentes de contacto. Dentro do mundo da optometria, porquê focar-se nestes 2 aspetos?

Prof. José Meijóme: Excelente pergunta. A verdade é que, a visão é extremamente importante para os seres humanos. Portanto, desde início que os meus interesses de investigação focaram-se nas lentes de contacto por um motivo: os óculos não se fabricam de maneira muito diferente do que há 20 anos e então interessou-me muito mais as lentes de contacto porque são feitas de polímeros e isto já é algo mais recente. Comecei a interessar-me sobre como o olho reagia quando lhe punham um plástico por cima. Houve uma altura em que as lentes de contacto se “encontraram” com a miopia. Desde sempre as lentes de contacto compensaram a miopia mas começou, a partir do ano de 2005, a haver um interesse pela miopia. A miopia estava a aumentar muito rapidamente e em crianças cada vez mais novas e é uma doença irreversível, com tendência a progredir. Foi aí que comecei a pensar: se daqui a 20 anos isto continuar, vamos ter metade da população míope. E aí surgem umas lentes especiais que moldam a córnea. Com essas lentes começamos a verificar que o olho crescia menos. As lentes eram supostamente feitas para focar as imagens mas, para além de fazerem isso, tinham esse benefício que foi descoberto por acaso. Então aí cruzaram-se os dois interesses que eu tinha.

ComUM: De que forma estes projetos poderão contribuir para facilitar e até mesmo revolucionar a vida da sociedade em geral?

Prof. José Meijóme: Revolucionar não diria, mas pode fazer uma enorme diferença. Temos neste momento projeções do que poderá vir a acontecer entre 2030 e 2050. Se conseguirmos que as tendências que começamos a projetar se invertam, podem fazer uma grande diferença para a sociedade em geral, isto é, se pensarmos que tudo aponta que daqui a 15 anos metade da população mundial vai ser míope, isso é um problema muito grave, pensando até que 10% desses poderão ficar cegos. Estes tratamentos poderão e já estão a ajudar a que nem sequer 50% da população chegue a ser míope como se pensa que vai acontecer. Nós estamos a trabalhar para que as pessoas não se tornem míopes ou até mesmo aquelas que já são míopes tenham miopia de baixo grau e não avancem para miopias patológicas. Isto vai para muita gente fazer a diferença entre perder ou não perder a visão. Vai ser uma revolução na saúde pública pois poderá evitar uma epidemia de miopia.

ComUM: O que o trouxe até à Universidade do Minho?

Prof. José Meijóme: Eu terminei o meu curso em Santiago de Compostela e estive lá com uma bolsa do Ministério da Educação para me tornar, supostamente, professor dessa universidade. Só que chegou ao fim da minha formação e não haviam vagas. Contudo, havia um professor meu que tinha ligações com pessoas da Universidade do Minho e, este curso, era bastante recente e a universidade queria estabelecer um corpo docente próprio, ou seja, não queria estar dependente de outras instituições. Portanto, esse meu professor foi contactado acerca de alguém da sua confiança e que tivesse disponibilidade para vir dar aulas em concreto na área de Contactologia. Ele propôs-me e eu, com a minha falta de sensatez, aceitei. No final do 1º semestre convidaram-me a ficar por mais um ano e no final acabei por fazer aqui o meu doutoramento e a partir daí continuei na UM. Consegui integrar-me sempre muito bem.

ComUM: Quais são as suas projeções para o futuro a nível profissional?

Prof. José Meijóme: Obviamente passam, para já, por continuar pela UM. Vou continuar a fazer investigações, pois sinto que ainda posso dar muito mais a esta academia. Os projetos profissionais passam essencialmente por dar aulas e pela investigação. Assim queremos iniciar agora um projeto novo que já tem financiamento e que consiste em mecanismos que ligam as lentes com o facto de o olho crescer menos. É algo que nos frusta muito, uma vez que não temos a certeza de qual é o mecanismo biológico que conduz a essa resposta. Vamos procurar ajudas por parte de outras equipas mais especializadas nas neurociências. É algo que nos vai ocupar nos próximos anos e espero que com este projeto eu me consiga reformar [risos]. Há colegas que dizem ‘Ui e tu achas que vais ganhar assim tanto?’, mas eu não quero ganhar mais dinheiro, eu quero é que este projeto dure o tempo suficiente para eu fazer os meus próximos 30 anos de carreira de investigador nessa mesma área.

ComUM: Então a Universidade do Minho vai continuar a ser a sua segunda casa?

Prof. José Meijóme: É a primeira! A Universidade do Minho não é a minha segunda casa, é a minha casa. Apesar de viajar bastante, por questões profissionais, eu posso dizer que praticamente 90% da minha carreira profissional foi feita cá. É a esta universidade que devo tudo, as possibilidades que me deram para progredir na carreira para poder fazer formação e investigação. Portanto, como casa profissional é a primeira e a única. Espero poder continuar a contribuir para ela e que ela e que ela queira que eu continue a contribuir.

Texto e entrevista: Cláudia Ferreira e Mara Ribeiro