“Deus quer, o homem sonha, a obra nasce” (Pessoa, Fernando). Em ano de estreia de um novo formato do campeonato nacional de futebol feminino, esta parece ser a melhor forma de congregar todos os avanços encetados em apenas 365 dias. Portugal, um país de um tamanho inversamente proporcional com a sua tradição e história no futebol, obteve um crescimento acima dos 300% no feminino, devido à coragem e astúcia dos que impulsionaram esta modalidade tão pouco consensual.
Andreia Norton, com o seu pé direito, num fatídico jogo na Roménia – que, em 2016, ofereceu o inétido apuramento para o Europeu à seleção nacional – deu um autêntico pontapé num preconceito entranhado no povo português e elevou bem alto a força e a garra da mulher num meio congestionado pelo homem. Assim, o país, sob a forma da Federação Portuguesa de Futebol, viu-se obrigado a ceder o palco principal ao toque de bola feminino.
Depois de convidar todos os emblemas da Liga NOS a formar equipas, a FPF decidiu criar a Liga Allianz, onde integrou as oito formações que se mantiverem no Campeonato Nacional da época anterior (o bicampeão Clube Futebol Benfica, o Albergaria, o Valadares Gaia, o A-dos-Francos, o Boavista, o Viseu 2001, o Ouriense e o Vilaverdense), as duas que subiram a partir do Campeonato de Promoção (CAC e Ferreirense), e os clubes que aceitaram a proposta de criação e entrada direta (Sporting CP, SC Braga, Belenenses e Estoril).
Tal como previamente anunciado, o Sporting CP e o SC Braga regressaram à modalidade com ambições claras de lutar pelos títulos nacionais e começar a ganhar relevo num panorâma internacional. Deste modo, os principais clubes, à exceceção do campeão “Fofó” – que viu apenas sair a consagrada Patrícia Gouveia para as leoninas – viram-se desprovidos das suas principais referências – apesar da regra imposta pela FPF, que referia que uma instituição convidada apenas podia contratar duas jogadoras de um mesmo clube – para os denominados “novos ricos”.
No Minho, os bracarenses montaram a equipa à volta da experiente Edite Fernandes, contratada ao Valadares, tal como Vanessa Marques. Posteriormente, fecharam com as estrelas do Albergaria, Jéssica Silva e Rute Costa, bem como com Sara Brasil, a máxima goleadora da Liga, proveniente do vizinho Vilaverdense. Depois de garantirem apostas seguras como Sílvia Rebelo (Fundação Laura Santos), Ana Rita Oliveira (Sandinenses), Liliana Almeida (AMUPB), Luísa Rodrigues (Amorim), Santos e Nina (Casa Povo Martim), Susana Silva (Cesarense), Adri (Boavista), Cristiana Garcia (A-dos-Francos), Otti (Centro Olímpico), Adriana Rodrigues (FC Neunkirch), Gessica (Desportiva Ferroviária) Barrinha e Gabi, do Corinthians, e de apostarem na futsalista Mélissa Antunes, apontaram baterias para o mercado espanhol e recrutaram cinco atletas ao El Olivo Vigo, campeão da Galiza, bem como Andreia Norton, ao FC Barcelona.
Por sua vez, o Vilaverdense FC, um histórico do futebol feminino, tinha nos escalões de formações os principais motivos para sorrir. Podendo orgulhar-se de ser um dos poucos emblemas que não necessitou do embalo do Europeu para marcar uma posição na modalidade, o clube de Vila Verde apresentou-se com um plantel extremamente jovem, sugando o sucesso proveniente das camadas jovens, onde conquistou o campeonato nacional de juniores por duas ocasiões. Com oito atletas da seleção nacional, quatro dos sub-17 e quatro dos sub-19, as minhotas não só morderam os calcanhares às equipas com maior poderio financeiro como cumpriram com a promessa de consciencializar o país da qualidade do produto nacional.
Ao nível dos números, o SC Braga esteve pertíssimo da glória tanto no campeonato, onde terminou no segundo posto, com apenas uma derrota, mais golos marcados (150, no total), menos sofridos (apenas quatro), mais goleadas (vinte), como na Taça da Portugal, derrotado no Jamor pelo Sporting CP. Já o Vilaverdense FC, conseguiu um honroso oitavo lugar, amealhando doze vitórias e 62 golos marcados, porém, na Prova Rainha, não foi além da terceira eliminatória.
O Sporting CP sagrou-se campeão nacional e vencedor da Taça Portugal, algo expectável dado os recursos apresentados. Fazendo regressar atletas que pertenciam a campeonatos profissionais, como Patrícia Morais (Asptt Albi, de França), Tatiana Pinto (Bristol), ou Solange Carvalhas (Anderlecht), o clube lisboeta partiu evidentemente na “pole position” mas não conseguiu cavar uma larga margem para as minhotas do Sporting de Braga.
A grande aposta futebol feminino parelalemente relacionada com a predisposição do adepto para fazer parte da festa, tornou possível, numa só temporada, alcançar vários recordes, tal como a superação das 175 mil federadas, a possibilidade de disputar um jogo num grande estádio (José Alvalade), a ultrapassagem da barreira dos 12 mil espectadores (Sporting CP – SC Braga, no Jamor), que destronou uma mera final da Liga dos Campões feminina da época 2013/14, que opôs as alemãs do Wolfsburgo às suecas do Tyreso (5-4), no Estádio do Restelo, e teve uma assistência na ordem dos 11.217.
Não obstante as dificuldades financeiras que ainda assolam a maioria dos clubes e a inexistência de patrocinadores – o Belenenses já informou que não irá participar na competição do próximo ano – estamos progressivamente mais perto de cumprir Portugal.


