Algumas centenas de pessoas manifestaram-se contra os incêndios, este sábado, em vários pontos do país. A cidade de Braga e Viana do Castelo juntaram-se à onda de contestação. Entre o grupo na frente, que gritava palavras de ordem ao megafone, e o mar de gente que seguia atrás, em profundo silêncio, Braga juntou a sua revolta à de muitas outras cidades portuguesas.

Quase uma semana depois do incêndio que reduziu a cinzas 1200 hectares de floresta do distrito de Braga e do verão com mais vítimas pelo fogo de que há memória, centenas de pessoas saíram à rua para mostrar a sua indignação. Eram quatro da tarde quando, na Avenida Central, a atuação da orquestra da Gulbenkian deu início ao protesto. Numa fila longa e compacta, os participantes desceram pelo Jardim de Santa Bárbara até à Praça do Município, onde a cidade ficou muda por um minuto.

Em silêncio estava já a maior parte das pessoas, à semelhança do que aconteceu noutros pontos do país. Os que seguiam à frente, pelo contrário, exprimiam o descontentamento em voz alta. “Como não concordávamos, retiramos a parte do silencioso”, justifica Inês Sampaio, uma das organizadoras do evento divulgado no facebook.

O protesto era, nas palavras de Isabel Varanda, contra “tudo aquilo que tem acontecido no país”. A professora da Universidade Católica descreve como alunos seus, de Tondela, “apareceram vestidos de negro porque a família e os bens deles foram afetados”.

A falta de investimento na prevenção dos fogos foi um dos motivos de indignação apontados por outra professora, com o mesmo nome, que denunciou os “interesses relacionados com o fogo”. “Há gente que está a lucrar com isto e acho que até os nossos governantes sabem e não fazem nada”, desabafa a mulher de 40 anos que, tal como a amiga que está ao lado, segura na mão a bandeira nacional.

Mariana Sequeira estava na urbanização “Dona Antónia”, onde uma casa ardeu, na noite de domingo. “Via aquelas folhinhas incandescentes a voar e, numa questão de cinco minutos, o lote à frente deles [da casa dos tios] estava a arder e eu só via pessoas completamente desesperadas a saírem de casa”, relata. A jovem de 18 anos revolta-se, em conversa com as amigas, com a falta de solidariedade de algumas pessoas no local. “Via muitas pessoas a ajudarem-se umas às outras, mas também vi outras que estavam só paradas a olhar e não faziam nada”, acusa.

Sara Pereira não foi uma dessas pessoas. Nessa noite, estava em casa quando viu numa página do facebook que o incêndio ameaçava casas em Nogueira. Meteu os pés ao caminho e, uma hora depois, lá estava, pronta para “ajudar o próximo”. “É óbvio que eu não fiz grande coisa, mas distribui garrafas de água, tentei ao máximo molhar a terra e apoiar as senhoras já de idade que estavam aflitas com os animais e as casas”, conta, relembrando os “momentos terríveis” que espera esquecer.

Inês Marinho, jornalista da RUM, alerta para a necessidade de a população “tomar consciência” dos problemas e “marcar uma posição”. “É muito fácil dizer que o governo é o bode expiatório, mas nós também somos culpados”, diz.

Sofia Magalhães foi uma das pessoas que aproveitou o “megafone aberto” para discursar, captando a atenção de quase todos à sua volta. A jovem de 18 anos gosta de participar em manifestações sempre que pode. “Se somos jovens, temos que fazer coisas pelo país e pelo mundo. Ficar a ver filmes e sair à noite não é tudo o que existe na Terra”, defende a estudante de criminologia.

Apesar de, para Inês Sampaio, a manifestação ter corrido “lindamente”, são várias as pessoas que se mostraram desiludidas pela quantidade, que consideraram reduzida, de protestantes. “É uma tristeza muito grande perceber que, porque não morreu gente e já chove, cada um continua com a sua vida”, lamenta Adriana Theune, de 40 anos, que desejava ter visto ali uma “espécie de uma noite branca”.

“Foi bonita a imagem da Praça da República de mãos dadas”

Também na cidade de Viana do Castelo era esperada mais gente, de acordo com o evento partilhado nas redes sociais. Na Praça da República, no centro da cidade, juntaram-se cerca de 150 pessoas para a manifestação pacífica ‘Salvar Portugal’ organizada para “fazer mexer o país”, como se fez ouvir ao megafone. Ao mesmo tempo, seria uma forma de homenagear os bombeiros de Viana do Castelo, mas não estiveram presentes. A manifestação pacífica acabou por juntar três eventos diferentes que iriam decorrer na cidade num só.

Ana Macedo, elemento da organização da manifestação ‘Salvar Portugal’ mostrou-se satisfeita com o número de pessoas que aderiram à manifestação pacífica, embora fosse “bom que tivesse vindo muita mais gente, estávamos à espera de 500 pessoas, pelo evento partilhado no facebook”. Apesar disso, acha que “correu bem”. Para Ana Macedo as florestas precisam de uma reformulação, “o dinheiro que não se gasta na prevenção, gasta-se depois no combate aos incêndios”, acrescenta.

A distribuição das doações feitas para ajudar as famílias afetadas pelos incêndios em Pedrógão Grande, a atuação do governo e o negócio da natureza marcaram as intervenções dos manifestantes que se mostraram unidos pela causa. “Parar o país até haver um feedback da Assembleia” foi uma ideia partilhada e aplaudida no centro da cidade. A intenção de realizar novas manifestações, caso não haja medidas, foi apoiada pela maioria presente.

No encontro, a bandeira nacional deu cor ao luto que se fez sentir. Nos cartazes espalhados pelo chafariz da Praça de República era possível ler várias mensagens dirigidas ao governo: “Quando valem 100 vivas”; “melhores políticas”; “na floresta está a solução para tudo”. A manifestação tinha um cariz apartidário e pacífico e, assim, permaneceu sem momentos de violência.

Ana Rita Martins, Sara Daniela