Pela primeira vez na Universidade do Minho, resume o serviço público de rádio e televisão a ‘diversidade’. Com esperança num segundo mandato na administração da rádio e televisão públicas, diz que a sua equipa ainda tem muito a fazer na RTP. Quer, custe o que custar, dar contratos de trabalho a quem está a recibos verdes. Elege o RTP Arquivos como a jóia da coroa do mandato e espera que o assunto ‘privatização’ esteja morto e enterrado. Não aposta pouco: “Vamos organizar o melhor festival da Eurovisão dos últimos anos”.

Nuno Artur Silva, 55 anos, veio dar uma aula ao Instituto de Ciências Sociais da UMinho, no início dos cursos de doutoramento de Ciências da Comunicação e de Estudos Culturais. No final, conversou com o ComUM.

ComUM: Quais são as primeiras referências que lhe surgem quando alguém lhe fala da Universidade do Minho?
Nuno Artur Silva: Eu tenho uma boa referência da UMinho. Tem dinamismo e é uma universidade de referência. Conheço algumas pessoas que são professores cá.

Como tem funcionado a actual ligação da RTP com as universidades públicas? Existe algum tipo de parceria?
Nuno Artur Silva: Há sempre conversas com as universidade, várias, há programas que vão sendo feitos com a colaboração das universidades. Temos a Universidade Aberta, na RTP2, mas não só. Ainda noutro dia tive uma reunião com a Universidade Clássica de Lisboa. Há muitas hipóteses de campos de trabalho, há programas que são feitos com colaboração de pessoas das universidades… Digamos que não há relações institucionais muito rígidas, mas há uma vontade nossa, e quase sempre também das universidades, de colaborar. Às vezes organizando conferências, palestras, programas comuns.

ComUM: As associações académicas das universidades e os reitores queixam-se todos os anos de falta de financiamento. A RTP também se queixa disso. Aliás, o que o Nuno tem dito, fazendo comparações com televisões públicas de outros países, vai nesse sentido. No entanto, há quem diga que a administração da RTP começa o ano “sentada em cima de uns milhões”…
Nuno Artur Silva: Isso é o tradicional lugar comum que se diz sobre a RTP. Nós começamos tanto sentados nuns milhões como os privados. Os milhões deles vêm da publicidade e os nossos vêm de uma contribuição audiovisual.

A questão dos financiamentos dos serviços públicos é muito discutida. Nós, neste momento, temos um financiamento que é quase 80% da contribuição audiovisual e o resto de receitas comerciais. É o que é. Os privados têm financiamento de receitas comerciais.

Nós fazemos opções em relação ao orçamento. O dinheiro que nós aplicamos é aplicado numa lógica daquilo que é de interesse público. Os jogos da selecção sempre foram um conteúdo da RTP. Parece-nos positivo que o serviço público de televisão esteja associado à selecção nacional de futebol. Porquê? Porque representa o país todo, e não os interesses privados. Portanto, é uma ligação que faz sentido para nós. Custa-nos dinheiro? Custa-nos dinheiro. Dentro do orçamento que temos, parece-nos que é um dinheiro bem aplicado no sentido em que traz toda a gente à RTP. Há muitas pessoas que só vão à RTP ver a selecção, mas que, talvez por entrarem no universo RTP, possam estar mais disponíveis para olhar outras coisas que estão ali.

ComUM: E a vitória do ano passado deu alento…
Nuno Artur Silva: Claro que deu alento! Nós tínhamos o exclusivo da cobertura, tínhamos as nossas equipas… E atenção: temos dados muito significativos de que os portugueses no estrangeiro procuram a RTP – seja na Internacional ou porque vêem os conteúdos no RTP Play. As duas motivações principais para verem a RTP são a informação e o desporto. Para nós, é relevante que a RTP reja uma marca de referência para os portugueses nesses dois campos.

E atenção que o desporto da RTP está muito longe de se esgotar no futebol. Nós transmitimos a Volta a Portugal em Bicicleta, a Volta a França, os Jogos Olímpicos, atletismo, modalidades amadoras… O canal público tem uma oferta de desporto que mais nenhum operador generalista tem.

ComUM: E as pessoas esquecem isso?
Nuno Artur Silva: Às vezes parece que estamos só a falar de futebol. Tudo isto que eu lhe disse, a RTP transmitiu. No ano passado até demos não só os Jogos Olímpicos como os Paralímpicos. Este ano, por exemplo, demos futebol feminino. Nunca tinha sido dado. A RTP tem uma cobertura bastante completa de desporto. Não se esgota no futebol.

João Pedro Quesado/ComUM

João Pedro Quesado/ComUM

ComUM: Em Janeiro passado, no 4.º Congresso dos Jornalistas Portugueses, um dos problemas que foi levantado foi a existência de muitos recibos verdes na RTP. Algumas pessoas acusaram de serem recibos verdes falsos, nomeadamente na área do jornalismo…

Nuno Artur Silva: (interrompe) Não é só na RTP.

ComUM: Houve até um manifesto que foi lido e os nomes dos subscritores foram mencionados. Está a fazer alguma coisa para resolver este problema?
Nuno Artur Silva: Sim, claro. Primeiro, é preciso perceber por que é que há recibos verdes, ditos falsos, na RTP. A RTP é uma empresa de capitais públicos e está proibida de contratar. As pessoas não se podem esquecer disso. Nós, administração da RTP, não temos autorização para contratar. Desde que entrámos [em 2015], fizemos seis contratações. Para todas elas, tivemos de ir às Finanças com um pedido de autorização especial.

A razão por que existem os “falsos” recibos verdes na RTP é muito simples. A empresa estava em processo de privatização e havia um sinal para a desmantelar, para deixar sair pessoas. E, felizmente, esse processo foi travado a tempo. A empresa continua a ter necessidade de funções que têm de ser desempenhadas por pessoas. Ora, se nós não podemos contratar, temos de dar recibos.

ComUM: É um problema cuja solução transcende a RTP?
Nuno Artur Silva: É um problema cuja solução está a ser agora tratada a nível de Governo, com o PREVPAP – Programa de Regularização Extraordinária dos Vínculos Precários na Administração Pública -, de que esta administração da RTP é totalmente a favor.

Como é lógico, nós achamos que todos os casos de situação com possibilidade de ser interpretada como “falso” recibo verde, a falsa contratação, são maus. Isso é mau. Se estivesse nas nossas mãos, teríamos contratos em vez de recibos verdes. Mas não temos autorização para contratar. Está em curso o PREVPAP, que nós achamos que deve acontecer.

ComUM: Disse na aula que deu neste início dos cursos de doutoramento que só anda aqui há dois anos, está a menos de um ano de terminar o contrato e que, por isso, não foi possível fazer tudo o que queria fazer.
Nuno Artur Silva: Estamos muito longe. Dois anos e tal não dão para fazer nem metade do que poderíamos fazer. Iniciámos uma série que coisas que só estão iniciadas. Dou-lhe um exemplo: a política de produção de séries. É uma coisa que só vai colher frutos daqui a uns anos, se não for interrompida. Não se pode estalar os dedos e começar a produzir séries de qualidade. É preciso criar uma geração de argumentistas, de produtores, de realizadores, algo que os outros países fizeram e demoraram décadas a fazer. Não temos séries com o nível de qualidade como as de países que começaram a fazer isto há décadas. Esse é um processo que só foi iniciado.

Há coisas que só foram iniciadas e nós temos grandes inibições não só orçamentais… A RTP tem grandes carências tecnológicas porque estava em processo de privatização e, portanto, não houve investimento tecnológico. Há equipamentos que têm de ser substituídos, há processos que têm de ser modernizados, há uma série de coisas que têm de ser revistas. E isso não se faz em dois anos e picos.

ComUM: Tem medo que quem vier a seguir não continue o trabalho que começou em 2015?
Nuno Artur Silva: Nós estamos com expectativa de renovação de mandato. Sejamos francos que… (hesitação)

ComUM: Equipa que ganha não mexe, é isso?
Nuno Artur Silva: Não me cabe a mim dizer se estamos a ganhar, mas eu creio que os sinais que nos têm chegado – estudos de mercado, sinais da própria área de produção independente, a reação da maior parte das instituições com quem falamos – são da opinião de que a RTP está bem posicionada e está no caminho certo. O feedback que temos é esse. É público que não há contestação na RTP. Há coisas a melhorar e a aperfeiçoar e há uma expectativa de podermos ter um segundo mandato para consolidarmos isso.

Mas, se não tivermos, é normal. O Conselho Geral Independente é que tem de decidir se nos reconduz ou se chama outras pessoas. Caso entre outro Conselho de Administração, o que posso dizer, até como cidadão, é que espero que não se volte àquela lógica de televisão comercial a combater com televisões comerciais. Espero sobretudo que isso não aconteça.

ComUM: Com o orçamento actual da RTP, acha exagerada a expressão de que a RTP faz um milagre?
Nuno Artur Silva: É exagerado, mas é difícil, sim. Não diria que é um milagre, mas é cada vez mais difícil. Quando nos pedem audiências, qualidade, inovação, diversidade… E pedem-nos, ao mesmo tempo, para termos futebol, para termos séries, para apostar no cinema português, para ter audiência, para ter informação com delegações em todos os distritos, para tratarmos de cobertura internacional… Tudo ao mesmo tempo: rádio, televisão… Eh pá! Ouvimos há pouco [durante a aula inaugural dos doutoramentos] dizer que a rádio precisa de uma grande modernização. Claro que sim, precisa. Não é do domínio do milagre, mas há coisas complicadas.

Vou dar-lhe um exemplo muito concreto. Vamos ter de integrar, e bem, os precários – finalmente, espero eu que integremos esses 200 e tal recibos verdes -, vamos ter o Mundial de futebol, vamos ter de organizar um festival da Eurovisão, vamos continuar com a política de séries e vamos ter, com certeza, mil e um especiais porque vai acontecer coisas e temos de mandar os repórteres para aqui e para ali. Até a um nível mais anedótico, podemos dizer que desde que Marcelo é presidente os nossos repórteres viajam muito mais porque o Presidente viaja muito mais que o anterior. Palavra de honra! (risos) Isso, em si, já é um custo extra.

Portanto, é um exercício orçamental difícil. Nós, este ano, sem mexer no orçamento e sem ter mais dinheiro, disponibilizámos o arquivo – que é talvez a medida mais importante do nosso mandato e que está a ter um impacto muito razoável -, investimos em aplicações de notícias, pusemos dois canais na TDT, criámos newsletters… Tudo com o mesmo orçamento. Pedirem-nos, por cima disto, para fazer o festival da Eurovisão, o maior evento musical do mundo, com o orçamento da RTP?… É muita coisa.

João Pedro Quesado/ComUM

João Pedro Quesado/ComUM

ComUM: A Eurovisão é o maior desafio da história da RTP?
Nuno Artur Silva: Em termos de produção, é. Há muitos desafios nisto tudo. A modernização da RTP, em si mesma, é um desafio. Como é que se parte de duas empresas, uma de rádio e uma de televisão, analógicas, e se cria uma empresa de século XXI, com integração, multimédia, digitalização, culturas muito diferentes – uns que ainda vêm da radiodifusão portuguesa, outros mais recentes -, os recibos verdes… Tudo isto é um grande desafio. O principal é a renovação tecnológica e humana da RTP. Humana no sentido de ter pessoas motivadas e habilitadas.

Em termos de conteúdo concreto, sim, o festival da Eurovisão é a maior produção que a RTP está a fazer desde há muitos anos.

ComUM: Já alguém lhe perguntou isto. Nunca imaginou: “Bem, quem me dera ter ficado em segundo lugar para não ter este trabalho?”…
Nuno Artur Silva: Não, não, eu gosto de ganhar. (risos) Se tivéssemos ficado em segundo lugar, teríamos ficado com aquela coisa de perder o jogo no último minuto. Nem pensar. Nós, se ganhámos o campeonato europeu de futebol, tínhamos de ganhar a Eurovisão. E vamos organizar o melhor festival da Eurovisão dos últimos anos. O espírito tem de ser esse.

Para já, estamos na melhor cidade do mundo, uma das mais excitantes da Europa neste momento, com uma vida e uma capacidade de atracção extraordinárias. Há uma grande expectativa para vir a Lisboa. A localização geográfica, a oferta cultural, gastronómica… A cidade está no ponto. Temos de dar um festival à altura. Mas pedir-nos para fazer isso com o orçamento da RTP, só… Não está fácil. Ainda temos muito caminho até Maio.