Jonatan Leandoer Håstad, mais conhecido pelo ato musical Yung Lean, lança em Stranger talvez a sua coletânea de faixas mais forte até agora. O rapper sueco tomou a luz da ribalta com a sua primeira mixtape Unknown Death 2002, lançada em 2013, altura em que Lean tinha apenas 16 anos.

Com uma sonoridade bastante inortodoxa e profunda, tomou a internet por assalto com hits virais como “Hurt” e “Ginseng Strip 2002”, conectando todo um elemento estético dos anos 90 com o género de Cloud Rap. A presença online, por vezes satírica, fez do rapper a principal cara do grupo “Sad Boys”, que se tornou numa imagem de marca não só de Yung Lean, como de muitos dos seus fãs.

hypebeast

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Apesar deste sucesso inicial e de algumas EP’s muito bem-recebidas, a receção critica e dos fãs aos seus álbuns, Unknown Memory (2014) e Warlord (2016), foi bastante negativa, com Jonatan a falhar em estabelecer uma produção e um espaço que fosse só seu.

Stranger viu em “Red Bottom Sky” e “Hunting My Own Skin” os seus primeiros singles, o que definitivamente reforçou um regresso do rapper sueco à qualidade de alguns dos seus melhores projetos. Numa data mais próxima do lançamento, Leandoer lançou “Skimask” e, a poucos dias do álbum completo, a canção “Metallic Intuition” também foi lançada.

Os álbuns de Yung Lean nunca foram conhecidos pelas suas introduções, mas apesar de não ser o trabalho mais elaborado, “Muddy Sea” submerge-nos na direção geral do projeto. “Red Bottom Sky”, por outro lado, é talvez uma das melhores composições aqui presentes. Uma autêntica passadeira vermelha à entrega de um hook incrível, possivelmente um dos mais memoráveis que o rapper escreveu.

 

“Silver Arrows” é secundário a esta faixa, pela maneira como ocupa tão bem o nicho que o sueco demonstrou em trabalhos iniciais. Yung Gud, produtor de Yung Lean, define uma melodia que complementa o potente hook que nos guia por entre linhas desoladas.

Em contraste, “Skimask” fornece uma avalanche pesada de sons que ocupam totalmente o espectro no qual Lean desbloqueia aquilo que sabe de melhor: soltar linhas tão parvas como requintadas, “I got lots of swag and I be feeling hurt / Walk up in the bank like John Dillinger”. A terceira faixa é a mais potente e movimentada do álbum, um verdadeiro banger ao estilo de Leandoer.

Contudo, um erro de projetos anteriores volta a ser cometido neste lançamento. Yung Lean perde-se no meio do álbum com músicas como “Push/Lost Weekend” e “Drop It / Scooter” que seriam mais facilmente encontradas no trabalho de outros rappers e acabam por largar a intensidade do seu início e nos puxar para longe de, possivelmente, a melhor sequência de faixas finais que Leandoer nos entregou até à data. Contudo, “Iceman” e “Hunting My Own Skin” cortam esta estagnação, com um instrumental sólido e uma performance vocal a transportar cada uma das canções, de forma correspondente.

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“Fallen Demon” e “Agony” acabam por ser o duo mais interessante de toda esta coletânea, com o infame membro dos Sad Boys a largar tudo e usar a produção minimalista de Yung Gud como veículo de uma construção lírica evocativa, longe de todo o materialismo e glória, que se traduz num dos momentos mais icónicos, devastadores e agónicos fornecidos por este artista. É diferente, é uma lufada de ar fresco sem o ser, mas acima de tudo é ver Yung Lean a tomar riscos, a tentar algo novo e a consegui-lo perfeitamente.

E é assim, com o álbum já fechado em “Agony”, ao som de um coro de crianças islandesas, que Lean nos deixa em toda a sua psicose, saudade e franqueza. “Yellowman” aparece, quase como um epílogo ou versão alternativa da faixa anterior. O jogo frio entre os instrumentos e Jonatan conclui toda esta obra com uma percursão intensa que tenta cada vez mais escalar a nova força e energia do rapper.

Finalizando, Stranger acaba por ser a odisseia musical mais acessível de Yung Lean, atraindo tanto novos fãs, como revigorando o status quo perto de quem ansiava, há muito, um projeto que demonstrasse aquilo de que o sueco é capaz. A produção de Yung Gud complementa os momentos mais cruciais do álbum e Jonatan, apesar de se autocriticar em “Agony” como alguém que “Can’t write a song, only do hooks”, entrega uma presença vocal como nunca antes o tinha feito e remete para algo mais além. Deixa-nos a desejar por mais, mas ao mesmo tempo saciados com esta nova direção mais madura. O futuro fica deveras incerto e desconhecido, podendo seguir-se um álbum que fique na memória ou uma morte do progresso feito até aqui. Mas é assim que, com 21 anos, Leandoer enfrenta a pequena guerra artística da qual é dono.