2012-2017 é o cartão de entrada de Against All Logic, uma nova voz de uma cara conhecida dentro da música eletrónica experimental, abrindo a discussão sobre aquilo que pode fazer um álbum apreciado pela crítica não achar sucesso perante uma audiência pública.

Nicolas Jaar é um artista com dupla nacionalidade chilena e americana com algum seguimento na área da música eletrónica experimental. Através da sua editora discográfica Other People chegou-nos este álbum 2012-2017, proveniente de um artista anónimo sobre o nome de Against All Logic ou A.A.L. Eventualmente, Jaar viu-se obrigado a revelar que afinal o projeto era dele.

Nicolas Jaar, nome por detrás de Against All Logic (A.A.L.)

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É com bastante pedigree que este projeto musical nos atinge com 11 faixas, com bastantes bases em géneros como Deep House, Drone e Dance. A questão que me trouxe especial atenção a este álbum foi o facto de ser um raro exemplo de um fenómeno bastante interessante: pela sua presença e bajulação a nível da crítica especializada, mas incontestável ausência de um palco fora do underground por parte do público.

Por exemplo, a publicação online Pitchfork avaliou este LP de forma excecionalmente positiva, seguida pelo canal de YouTube do crítico musical TheNeedleDrop que o colocou num patamar ainda maior. Pelos números que somente este duo da crítica especializada atrai, era de se esperar maiores públicos tanto a nível da presença do álbum na internet como em serviços de streaming como o Spotify, mas tal nunca se chega a confirmar.

2012-2017 abre com a faixa “This Old House is All I Have”, que prima por ser a música mais pequena do álbum e por nos abrir o palato com a presença de Funk, instrumentos de sopro e linhas de baixo fidedignas que antagonizam com todo o ruído eletrónico e quebras rítmicas.

Após este momento relativamente acessível, “I Never Dream” mostra as verdadeiras cores do projeto. Cinco minutos ou mais de experimentação, tudo sobre o guarda-chuva de House e uma presença sónica bastante noturna e críptica. Os sintetizadores são cortantes e desoladores, a presença vocal dá-se através do uso de samples retiradas de um registo mais Soul, formando toda uma atmosfera melódica e penetrante.

“Some Kind of Game” continua este legado com uma precursão exótica, uma aparência mais evidente da voz e um belo loop de piano, progredindo de forma cada vez mais exótica, culminando um pouco cedo de mais, mas abrindo também espaço para a próxima faixa.

E é então que toda esta descida musical nos deixa na porta de “Hopeless”. Com bastante inspiração na música Drone, quase parece retirada dos primeiros trabalhos de Aphex Twin. Sons quase industriais e elétricos bombardeiam a gama sonora duma forma bastante inortodoxa e misteriosa, fazendo deste um dos principais momentos do álbum.

 

A.A.L. (against all logic é o pseudónimo sobre o qual Nicolas Jarr lançou 2012-2017

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Uma rotura gigante dá-se com “Know You”, primando por um registo Funk mais clássico, mas quase sobre um envelope do Lo-Fi e da própria direção do álbum. É um dos pedaços musicais mais vulgares, mas igualmente intrigante.

Por esta altura, 2012-2017 já estabeleceu que não é um álbum para ser consumido de forma rápida e apressada. Mostra-se como uma boa companhia durante a próxima hora, um bom colega de estudo e não tanto uma obra que possa ser apreciada de forma mais livre e casual. É uma odisseia por um estilo que pode muito facilmente ser rejeitado tanto pela sua forma ou pela sua duração.

Contudo, esta viagem não deixa de ter os seus momentos mais esquecíveis e comuns. Músicas como “Such a Bad Way”, “You Are Going to Love Me and Scream” e “Flash in the Pan” não deixam de ter os seus problemas e evidenciar a dificuldade em escapar o vórtice daquilo que já foi feito na música House em anos passados, trazendo à memória alguns dos motivos pelos quais esta já não possui tanta relevância quando colocada ao par de novos gigantes como Indie e Hip-Hop.

Da mesma forma que “Such a Bad Way” nos desilude, “Cityfade” possui um registo semelhante mas de forma muito mais colorida e bem executada. Uma percussão excêntrica e um contraste entre as barreiras da vida citadina e uma presença mais natural e ancestral. É um diálogo estimulante e outro dos momentos aliciantes oferecidos pelo projeto.

Na reta final do álbum, Nicolas Jaar reforça toda a experimentação e torna o álbum ainda mais desinibido. “Now U Got Me Hooked” é a presença mais excêntrica e o verdadeiro elefante sonoro na sala de estar. É um tema rico, exemplar e profusamente suculento.

Como remate final, “Rave on U” acaba por ser um, senão o melhor, momento do álbum. Ao estilo de “Too Long” de Daft Punk, é uma viagem por si só, com uma rodagem na zona dos dez minutos. E a verdade é que passam a voar: os sintetizadores e batidas equidistantes e fortemente reverberados, uma palpitação rítmica mais pessoal, bastante uso de ruído musical e uma completa, grandiosa e revigorada finalização de tudo isto que dá jus a todo a coletânea.

Enquanto seja compreensível a fraca atenção do público em geral para este álbum, tanto pelo facto que ainda é recente (viu a luz do dia a meio de Fevereiro) e por envolver bastantes troupes estéticas e não convencionais que certamente vão assustar grande parte dos cidadãos comuns e de quem está demasiado ocupado para ouvir um álbum que requer tanto tempo (e até atenção) do ouvinte.

Com isto fecho que, apesar de toda a imperfeição deste projeto e da pouca atenção que pode receber fora da crítica especializada, Against All Logic e, por extensão, Nicholas Jaar, apresenta aqui uma das iniciativas musicais mais atraentes deste contemporâneo ano, principalmente para os fãs de música experimental.