Palavras de Francisco Alves, fundador e responsável pelo Campo Arqueológico de Braga (CAB), em 1976. Orador que esteve presente no Museu D. Diogo de Sousa, para a conferência “A Revitalização do Museu no Contexto da Cidade”.

Foi este o orador escolhido por Isabel Silva, diretora do Museu D. Diogo de Sousa, para a conferência que aconteceu na noite de sexta-feira, no auditório do museu, a propósito do seu centenário.

“A revitalização do museu em 1980 foi impulsionada por Francisco Alves que percebeu que Bracara Augusta precisava de ter um organismo que sistematicamente procedesse à preservação e valorização daquilo que era o acervo arqueológico posto a descoberto durante anos por toda a equipa do CAB”, disse Isabel Silva.

Segundo Francisco Alves, o salvamento de Bracara Augusta, entre 1976 e 1980, tratou-se de um trabalho alucinante, devido aos enormes desafios a nível financeiro, aos adversos interesses locais e ao ritmo de trabalho exigido. Este salvamento ia ainda implicar a paragem das obras de construção do campo habitacional envolvente à colina de Maximinos. Isto veio criar algumas situações de tensão que poderiam ter tido graves consequências. Certo é que nenhum dos tijolos, episodicamente arremessados do topo dos edifícios em construção nas imediações da zona arqueológica, caiu sobre qualquer membro da equipa do CAB. Eurico Teixeira de Melo, então Governador Civil de Braga, interveio nesta situação, levando ao término do conflito.

“A equipa do CAB viveu momentos de precariedade profissional, mas isso não impediu os seus elementos de manterem o seu profissionalismo e gosto pela arqueologia”, disse Francisco. Continuando: “Ainda hoje, alguns destes membros intervêm noutros sítios arqueológicos, por vezes em situações de emergência, não só em Braga como em cerca de dezena e meia de concelhos na sua periferia”.

Francisco Alves, em colaboração com a Universidade do Minho, ensinou aos membros do CAB tudo o que sabia, no terreno e em gabinete, sobre prospeção, escavação e registo.

“Também seja dito que o meu papel na restruturação do museu foi importante mas ficou muito limitado, como limitado estava o Museu D. Diogo de Sousa antes de ter sido revitalizado”, contou Francisco.

A conferência acabou com as palavras de um dos membros da plateia que disse: “Francisco Alves foi na verdade uma revolução que agitou Braga e a transformou num caso exemplar de arqueologia em Portugal. Francisco Alves é um bracarense de excelência. É um descendente dos brácaros e Braga deve-lhe muito”.

Isabel Silva crê que esta conferência foi “emocionante e marcante para as pessoas da cidade”, porque, de alguma forma, muitas delas viveram este momento e “partilharam da angústia e inquietação que foi, muitas vezes, o salvamento de Bracara Augusta”.

Antes de abandonar o auditório do museu, Francisco disse que acha que “Braga é uma brasa viva e incandescente, num país que não gosta muito deste tipo de brasas. Não é o país que não gosta. É o seu pessoal político”.