Madre Joana dos Anjos (Matka Joanna od Aniolów, 1961) é considerada a primeira obra, na história do cinema, a retratar uma possessão demoníaca.

Dez anos depois seria realizado The Devils, por Ken Russell, que, infelizmente, familiarizou este subgénero de terror e serviu de inspiração para ser realizada, dois anos depois, a obra de culto O Exorcista. A partir daí este subgénero seria explorado no cinema até à exaustão.

Mais ainda, o cinema polaco testemunhara, durante os anos 50 e 60, os seus melhores momentos, e realizadores como Andrzej Wajda ofuscaram a genialidade de Jerzy Kawalerowicz. Portanto, é mais que oportuno rever esta obra e esta figura-chave do cinema polaco.

Madre Joana dos Anjos de Jerzy Kawalerowicz, 1961.

O realizador polaco-ucraniano Jerzy Kawalerowicz reminesce Bergman e Dreyer, ao contar a história de um padre que tem a missão de realizar exorcismos num convento de freiras. Polónia é um país marcado pelo catolicismo, e imaginar um filme sobre freiras possuídas por demónios na remota década de 60 é, no mínimo, polémico. Kawalerowicz denuncia os horrores e a inumanidade do sistema de crenças católico, explorando o Homem que cria deuses e demónios para justificar os seus atos e as suas vontades.

A narrativa é muito próxima aos filmes de Bergman e Dreyer, como já tinha referido, no sentido em que se sente a mesma angústia. Não há tortura física: o verdadeiro torturado, psicológica e emocionalmente, é o sacerdote que viveu num mosteiro desde criança e é atirado para o pior que o mundo exterior pode oferecer.

A Madre Superiora espera-o, humilde, imaculada, filmada de costas. Quando mostra o rosto, pinta-se um quadro de Francis Bacon: provocação, perversidade, sabedoria, doçura, lê-se tudo isso nos olhos de Lucyna Winnicka.

A arquitetura impressiona: o convento jaz numa colina solitária, numa Polónia fria; a cal das paredes contrasta com a escuridão dos espaços escondidos por trás dos arcos pronunciados; as salas são vastas, e aí o silêncio e a dúvida são palpáveis.

Kawalerowicz cruza o drama e o horror psicológico, desviando-se da espetacularização do tema da possessão demoníaca, condicionando-a à corrupção do coração humano, ao desejo sexual reprimido e à alienação austera do mundo. Madre Joana Dos Anjos é uma obra pouco polida, mas é grande cinema.