Um dos regressos mais constantes no festival, os Linda Martini voltaram pela quarta vez a Paredes de Coura, no primeiro dia.

Os Linda Martini voltaram a um palco familiar. Depois de passarem por Paredes de Coura por três vezes, a última em 2014, a banda voltou ao palco principal na passada quarta-feira, no primeiro dia do festival. O concerto consistiu maioritariamente de músicas do novo álbum homónimo, além de músicas como “Mulher a dias”, “100 metros sereia” e “Boca de Sal”.

O ComUM esteve à conversa com a banda antes do concerto.

((Pode ler sobre o primeiro dia do festival Paredes de Coura aqui)

ComUM: Esta é a vossa quarta vez a tocar em Paredes de Coura. A última vez que cá vieram foi em 2014 e voltam cá este ano, quatro anos depois. O que é voltar a Coura?

Cláudia: Acho que vamos saber isso daqui a bocado.

Pedro: Expectativa muito grande, sempre. O Paredes de Coura é muito especial para nós, porque, pá, é um espaço bonito. Acima de tudo, eu acho, e agora que há muitos festivais, é um festival que continua a privilegiar o rock e se calhar isso faz também com que o público tenha um carinho especial e nos compreenda melhor. Há festivais, ou há sítios, onde tocas, que nos dão prazer tocar, mas percebes que o público, não é que não entenda, mas não está tão familiarizado com aquilo que fazemos. Acho que aqui em Paredes de Coura isso não acontece, antes pelo contrário, sentimos cá um interesse.

ComUM: Sentem-se em casa em Paredes de Coura?

Pedro: Sim, sentimo-nos em casa. E é bué bonito estares a tocar e veres a gente toda. Há sempre bandas com as quais te identificas.

Cláudia: Sim. Eu estava a dizer isso há bocado e nunca tinha pensado nisso. Mas o facto disto ser assim, não foi o primeiro festival grande em que nós tocamos, mas foi o primeiro em que partilhamos palco assim com uma banda que nós admirávamos, que foram os Sonic Youth. E isto tem sempre alguma dose de ansiedade. Este concerto tem de ser incrível, estás a ver? Não pode ser… Os concertos não devem ser só mais um concerto, devem ser sempre incríveis, mas é claro há alguns que te motivam um bocadinho mais do que outros e este é um deles.

Pedro: Ya. A cena é que fazes sempre questão que seja um bom concerto, não é? Nunca vamos, tipo, nem que seja vais tocar a uma terrinha, nunca vais a pensar com desprezo pelo concerto. Para ti tem de ser sempre o melhor concerto. Só que claro que se vens a um sítio destes, há uma pressão que surge que tu nem queres considerar, mas que acaba por estar lá.

Cláudia: Até porque os outros correram muito bem. E até para nós para não baixarmos a nossa média, vá. Os outros correram-nos muita bem, saímos daqui muito felizes e queremos sair mais felizes do que com os outros três.

linda martini

Hélio Carvalho/ComUM

ComUM: Lançaram o vosso quinto álbum, o homónimo no inicio deste ano. No fim do ano passada andaram com o Legendary Tigerman a tocar algumas canções…

Pedro: Começamos a ver como corria. Colocar o tremómetro para ver se subia a temperatura ou não.

ComUM: Como surgiu a tour com o Legendary Tigerman?

Cláudia: Não surgiu propriamente, criou-se. Nós, neste momento partilhamos management e estava ali à mão uns dos outros e decidimos fazer uma coisa juntos. Eles são do rock, nós somos do rock, embora de sítios muito diferentes do rock, e achamos que podia funcionar e foi fixe porque puxou muito por nós e acho que puxou por eles também. Foi a primeira vez que podemos experimentar as músicas de um disco antes do disco ser lançado, que era uma coisa que queríamos fazer há muito tempo, e pá correu muita bem.

Pedro: Sim e há um coisa que acontece quando partilhas o palco com uma banda que admiras e que toca rock, neste caso também. É que quando tocas antes – normalmente antes porque nós não tínhamos uma ordem, umas vezes abríamos nós depois o Tigerman, outra vez abria o Tigerman e a seguir nós -, há uma competição, um picar positivo, epá uma banda dá um grande concerto e tu vais tocar a seguir, vais ali com uma adrenalina extra que só favorece quem vai ver concertos. E foi fixe, porque foi acontecendo noite após noite.

(Pode ler sobre o concerto “Rumble in the Jungle” entre Linda Martini e Legendary Tigerman, no gnration, aqui)

ComUM: Foi com esse mote que se falou do combate entre as bandas?

Cláudia: Isso são desculpas, não é?

Pedro: Era mais arranjares uma forma interessante de teres uma tour em que duas bandas…

Cláudia: Em que são uma a abrir para a outra.

Pedro: Exato. Não eramos só as duas bandas. Havia ali a coisa do combate que foi mítico, e há toda uma ideia e todas as imagens e mesmo o próprio ato, os próprios cartazes colaram-se muito a isso e sim foi mais um conceito que quisemos adaptar à tour.

ComUM: Quem foi o vencedor?

Pedro: A malta pergunta toda isso.

Cláudia: Epá, se houvessem vencedores era em cada concerto. Era um bocado, aquela cena, como é que se chama? Aquela coisa que se faz no coliseu com bueda bandas que fizeram os Paus e não sei quê, que é palmos. A cena da RedBull..

Pedro: Sim, não era uma competição.

Cláudia: Mas sim, se houvesse vencedor seria concerto a concerto. E tínhamos o grande final que era o coliseu. Mas na verdade isso não acontecia, o interesse era sempre tanto para nós como para eles dar um concerto bom.

Pedro: E queríamos ver Tigerman a dar um grande concerto. Ninguém estava ali: “epá espero que se engane”.

Cláudia: Tipo a pregar rasteiras.

Pedro: Acho que era o que a Cláudia estava a dizer. Ganharam as duas bandas, sempre. Mesmo que, se calhar, possa ter sido melhor um concerto de Tigerman e o nosso mais froxo e noutro o contrário, cada noite acaba por ser uma noite. Nem sequer estávamos com essa balança nem estávamos com esse tipo de preocupação.

Cláudia: No entanto, tivemos um gajo de muletas a tocar em alguns concertos.

Pedro: Eu ia lesionado.

Cláudia: Por isso pelo esforço ganhamos.

Pedro: Eu ia lesionado. Tive azar. Tipo, eu duas semanas antes… Não. Uma semana antes de começar a tour, foi em duas partes no final do novembro e depois no início de dezembro, tive um acidente e fiquei de muletas. Foi uma cena assim um bocado chata para o combate, mas depois também percebemos que não tinha de andar à porrada com ninguém.

Cláudia: Era o Rocky Muletas!

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Hélio Carvalho/ComUM

ComUM: E vai haver uma Round 2, um segundo set destes combates?

Cláudia: Pode haver, mas para já não.

Pedro: Não temos vontade de repetir já, porque achamos que foi especial e sentimos mesmo isso. As pessoas que iam ver estavam a assistir ali a alguma coisa que era quase exclusiva e estarmos agora a vulgarizar e fazer isso regularmente, também achamos que pode perder um bocadinho de interesse. Mas não se sabe. Daqui a algum tempo, se houver alguma razão, se houver vontade acima de tudo para repetir.

 

ComUM: O vosso último álbum foi gravado na Catalunha. O que vos fez ir para a Catalunha?

Cláudia: Nós não fomos para a Catalunha por ser a Catalunha, ou por ser fora de Portugal. Fomos para lá porque começamos a pensar que queríamos gravar com alguém que fizesse sentido, que tivesse uma linguagem próxima da nossa. Que sentisse a música um bocadinho como nós e começamos a passar por uma série de gente e chegamos ao Santi, com quem já tínhamos trabalhado, e que dentro das pessoas com quem falamos, e dentro das pessoas que eram possíveis, fazia sentido. E na verdade, acabou por ser nem sequer uma segunda ou terceira escolha. Acabou por ser uma primeira. Foi por isso que fomos lá e ficamos mesmo felizes com o resultado.

 

ComUM: Este é o cartaz de Paredes de Coura que tem mais nomes de música portuguesa. Vocês, que têm uma carreira já com 15 anos, o que acham que motivou este fenómeno?

Pedro: Acho que tem muito a ver com a própria quantidade de música portuguesa que está a ser feita e com a qualidade da música portuguesa que está a ser feita e com a atenção. Ainda existe se calhar essa mentalidade, e compreende-se que trazer bandas estrangeiras são mais apelativas, porque estão menos vezes cá. Linda Martini podes ver em Paredes de Coura, ou podes ver em qualquer outro contexto. Se calhar uma banda como King Gizzard vêm aqui a um coliseu ou whatever. Mas acho que tem muito a ver, acima de tudo, com uma consideração que tem sido crescente e acho que muito merecida, por parte da música portuguesa.

Cláudia: Também se percebeu que o público para a música portuguesa também aumentou. O público também está, é um bocadinho uma bola de neve, não é? Aumenta o número de bandas, aumenta a qualidade da música portuguesa, aumenta o público para essas bandas e se calhar, os festivais começam a perceber que faz sentido trazer bandas que são respeitadas pelo público que façam parte destes cartazes.

 

ComUM: Este é o vosso concerto mais tarde no Paredes de Coura. Esperam que algum dia volte a ser ainda mais tarde?

Pedro: Epá, isso não sei. Acho sempre que funcionamos sempre sem aquela projeção e expectativa. Claro que nós temos até uma história engraçada do André e do Sérgio, que era o outro guitarrista, estar aqui em 2004 ou dois mil e sei lá… Dois anos antes de virmos cá tocar estarem a ver Arcade Fire, no ano de Arcade Fire, naquele concerto que se tornou mítico. Foi na altura e entretanto a coisa tem vindo a crescer como uma lenda. Mas estar a dizer que “um dia vamos tocar aqui”, há sempre ssa vontade, mas também não estamos aqui hoje a pensar que mais tarde temos de vir mais tarde.

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Hélio Carvalho/ComUM

Cláudia: A cena de Arcade Fire foi de tarde.

Pedro: Até porque a banda tinha o disco há pouco tempo, o “Funeral”, acho que era muito recente e ainda não era consagrado. É algo que Paredes costuma fazer também. Trazer bandas que não estão completamente muito a bater, mas muitas delas acabam por se vir a tornar grandes, outras não, mas pronto. Não sei. Eu não acho que temos essa… Não imagino. Gostávamos, mas não temos essa meta asism presente. Temos?

Cláudia: Não.

Pedro: Nem pensamos nisso. Agora é que é fixe. Estás a dizer que mais bandas portuguesas vêm, se calhar não são só para abrir o festival.

Cláudia: Há muitas razões para gostares de tocar à noite. Uma delas é que o teu espetáculo é pensado normalmente para ser de noite. As luzes e isso tudo. A duração, quanto mais tarde tocas, mais longo é o teu concerto, em princípio. Este é o concerto mais longo de Paredes de Coura que vamos ter. É uma hora. Por isso é claro, tem diferenças. Nesse sentido quanto mais tarde melhor. Por outro lado, tocar às duas da manhã também não é nada apelativo, quando já está tudo a cair de bêbedo e nós já estamos mais para lá do que para cá de cansados. Por isso é arranjar um meio termo aí, se for possível fixe.

 

ComUM: Vocês vêm ao festival já há alguns anos, não só tocar, como também ver. Têm algum concerto que vos tenha ficado na memória?

Pedro: recentemente, no ano passado vi Kate Tempest, curti. E King Krule, achei o concerto bué fixe porque era um gajo que eu curtia e ouvia bastante, e gostava de ver ao vivo e ele teve feeling. Mas gostei mais do concerto da Kate Tempest, embora não seja bem a minha cena e o concerto que mais gostei, acho eu foi o de Oh Sees, no palco secundário.

ComUM: Em 2014?

Pedro: Sim, exatamente. Quando viemos cá tocar.

Cláudia: Eu por acaso lembro-me de um concerto fixe que vi aqui que foi quando nós viemos de nem sei dizer aquilo… Le Butcherettes.

Pedro: Que também foi naquele palco.

Cláudia: Naquele palco pequeninho. Também foi um concerto muito fixe.

Pedro: Foi fixe, foi bueda rock.

Cláudia: Foi, foi.

Pedro: At The Drive in, vimos no ano passado, mas eu já tinha visto em Barcelona, então achei que eles próprios tentaram fazer a cena, mas foi assim um bocadinho aquém. Mas sim, Oh Sees, o concerto que mais gostei de ver até agora.

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Hélio Carvalho/ComUM

ComUM: E este ano têm algum concerto que queiram mesmo ver?

Cláudia: Não podemos, pá. Vamos ter de ir embora a seguir ao nosso. Nem os do dia de hoje podemos ver.

Pedro: Epá, gostava de ver King Gizzard, que toca hoje, mas nós vamos embora. Gostava de ver Skepta.

Cláudia: Eu se calhar vou ser chata mas eu gostava de ver Dead Combo, ainda por cima vai ser com o Mark Lanegan.

Pedro: Ya.

Cláudia: Gostava de ver.

Pedro: Shame. Shame também é uma banda que eu andei a ouvir bué, nem sabia, só reparei há bocado que está no cartaz também.

Cláudia: E Arcade Fire.

Pedro: É isso. Como não vamos conseguir ver nenhum concerto, felizmente porque temos muitos concertos, amanhã no sol da Caparica e depois estamos com mais concertos. Mas é uma pena fazer uma viagem tão longa para depois tocar e ter de bazar. Mas sei lá, há aí muita banda boa.