Podia ser um marco formidavelmente positivo para Portugal, mas a exposição fotográfica de Robert Mapplethorpe revelou a peculiaridade deste país. Pensava-se que era um polo de referência das artes, no entanto, Serralves é uma casa que não admite competências cognitivas aos seus visitantes e facilita-lhes o trabalho, proibindo a presença de cidadãos menores de 18 anos em determinadas salas.

Tudo isto se torna mais inusitado quando a missão da Fundação de Serralves – que pode ser consultada por todos na internet – alega “estimular o interesse e o conhecimento de públicos de diferentes origens e idades”. Parece-me que não permitir a presença de pessoas de determinadas idades em certas exposições é um tiro nos pés que deita por terra esta missão.

A restrição imposta pelo museu lembra-me os inúmeros casos em que as redes sociais eliminam conteúdo que consideram ofensivo, ou seja, com nudez explícita, mesmo que esse conteúdo seja uma pintura do século XVI ou uma estatueta com cerca de 30 mil anos – como aconteceu com a “Deposição de Cristo” e com a “Vénus de Willendorf”, censurados este ano pelo Facebook.

Nunca um museu deve ser pautado pelo conservadorismo moral. Tal não combina com a arte, por muito antiga que ela seja. A cultura quer-se transversal e todo este episódio em torno do Museu de Serralves torna-se anedótico, mas ao mesmo tempo preocupante. Serralves sempre foi uma janela onde se podia ver o mundo e uma abertura para a prosperidade e inovação. Se dentro de uma instituição cultural – que, por sinal, é uma das mais importantes do país – os seus responsáveis não defendem a cultura, não há orçamento que a defenda nem sociedade que a reivindique. Então para que serve um diretor artístico e uma administração se ambos os órgãos se contradizem na missão de conduzir uma casa que é, também, uma bandeira da liberdade?

Aguardo com enorme curiosidade as explicações de João Ribas, curador do Museu de Serralves que se demitiu na sequência deste caso. Todavia, a minha surpresa recai sobre a administração da Fundação de Serralves que acha absolutamente normal decidir quem pode ver determinadas fotografias. Vejamos um exemplo perfeitamente exequível: Um aluno que frequente o ensino secundário e estude na área de Artes Visuais não pode consumir, sem a autorização dos seus pais, aquilo que aprende e produz, porque, por azar, ainda não atingiu a marca dos 18 anos. Aqui já atingimos outro dos direitos fundamentais da Constituição Portuguesa, que defende o direito à educação à cultura.

A cultura não é algo que deva viver na penumbra e acho estranho que um museu a pinte de tão negro.