A recém-chegada obra cinematográfica portuguesa estreou-se nos cinemas a 18 de Outubro e arrebatou as audiências com uma viagem temporal de um amor intemporal.
O romance de D. Pedro e Inês de Castro é já uma história que todos conhecem desde pequenos: estudam-na, ouvem-na pela boca dos pais e avós ou lêem-na. Desta vez a história é a mesma, mas noutra visão. Foi a obra “A Trança de Inês”, de Rosa Lobato de Faria, que serviu de argumento e inspirou o engenho de António Ferreira.
Num clima muito mais contemporâneo, esta obra descreve o amor de Pedro e Inês em três tempos: passado, presente e futuro. Três Pedro, três Inês, três contextos sociais diferentes, a mesma história.
No passado encontra-se a história exatamente (ou quase) como ela se passou: na época medieval, D. Pedro está comprometido com D. Constança, apesar do seu amor profundo por Inês de Castro. O presente e o futuro baseiam-se também nesta sequência, apesar de algumas divergências que se tornam confusos, tendo em conta a história original, especialmente na personagem de D. Constança que acaba por ter papéis diferentes do original, o que acaba por cortar pontos da verdadeira história. Foi, no entanto, a ligação que António Ferreira conseguiu fazer com estes tempos e que, apesar de ligeiramente afastados da história, acabam por se interligar uns com os outros num resultado magnífico.
O elenco foi certamente uma ótima escolha, estendendo-se de Diogo Amaral e Joana de Verona como Pedro e Inês, até Vera Kolodzig (Constança), João Lagarto (D. Afonso) e Custódia Gallego (D. Beatriz), todos eles atores bem conceituados no cinema português e mais uma vez com uma prestação esplendida.
Quanto às personagens principais e o seu papel na história, facilmente se descreve, em poucas palavras e de forma talvez caricata, cada uma das três: Pedro, o esquizofrénico – Pedro é, como todos sabem, um louco de amor. No entanto, não é qualquer um que desenterra o corpo vivo da mulher para a coroar, ou que foge até com o corpo da mesma para a conservar consigo; Inês, a ingénua- Inês aparece no filme quase como uma criança que nunca tem noção do que se está a passar à sua volta, das tramas em que entra ou do perigo que corre, tornando-a uma ingénua por natureza, o que acaba por levar ao desfecho final conhecido; Constança, a doida varrida- Constança é sem dúvida imaginada como a pessoa mais séria no meio de todo o caos. Com o desenrolar do filme, acaba por mostrar ser exatamente o contrário: com ataques de raiva e várias atitudes que ultrapassam o limite da normalidade, Constança é provavelmente a personagem mais louca da obra.
Nos vários monólogos de Pedro ao longo do filme, pode destacar-se uma crítica à sociedade contemporânea, em especial aos médicos psiquiatras e outras pessoas que convivem com doentes mentais e os tratam como tal, ao invés de os verem como pessoas normais: “Eles gostam de nos arrumar numa categoria mas de facto isso não tem importância nenhuma. […] Eles, os saudáveis, que se comem uns aos outros, que se matam uns aos outros, que se destroem uns aos outros, não podem ter acesso ao nosso mundo particular.”
Os efeitos especiais e de luz ajudam a tornar o filme muito mais contemporâneo e conseguem facilmente criar o drama, o terror ou a loucura nos momentos necessários. Também a música, de Luís Pedro Madeira, consegue transportar o espectador entre tempos e emoções.
A morte e coroação de Inês e a vingança de Pedro são sem dúvida os momentos mais fortes do filme, onde há um elevado grau de suspense e terror devido ao tratamento realística das cenas, o que pode até chocar as pessoas mais sensíveis, mesmo quando já sabem o que está para acontecer.
É devido ao tratamento detalhado das cenas e da fantástica história de Pedro e Inês, que António Ferreira consegue renovar a lenda e criar um filme épico na história do cinema português, que será lembrado por muitos anos. Sem dúvida uma obra a não perder.
Título original: Pedro e Inês
Realizador: António Ferreira
Argumento: Rosa Lobato de Faria
Elenco: Diogo Amaral, Joana de Verona, Vera Kolodzig, João Lagarto, Custódia Gallego, Cristóvão Campos, Miguel Borges, Miguel Monteiro.
Portugal
2018





