No novo álbum Simulation Theory, os Muse tomam uma direção artística radicalmente diferente, tirando influências do Retrowave. A banda britância tenta, assim, fugir à decadente receção dos fãs e críticos dos seus últimos projetos.

Muse é, certamente, um nome que irá ressoar bastante perto de quem os viu subir à fama durante a primeira década de 2000. O trio britânico, constituído pelo vocalista Matt Bellamy, baixista Christopher Wolstenholme e pelo baterista Dominic Howard, estabeleceu-se inicialmente por um estilo de Rock alternativo bastante particular.

Projetos subsequentes, como Origin of Symmetry, Absolution e Black Holes And Revelations, estabeleceram o seu som e atingiram o estrelato. A junção de sintetizadores, guitarras e percussão, sublinhada pela harmónica voz de Bellamy e, por vezes, a sua performance no piano, definiu alguns dos melhores álbuns no seu género para a altura.

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Porém, nada pode durar para sempre, e o trio necessitou de aumentar o seu catálogo sónico nos anos seguintes. The Resistance procurou incorporar sonoridades mais ligadas ao Pop e outras mais orquestrais com algum relativo sucesso. O álbum 2nd Law puxou ainda mais pelo lado eletrónico da banda, relacionado muito com a explosão de géneros, como Dubstep, na altura. Tornou-se evidente, nesse projeto, a falta de ideias da banda, com uma queda na sua escrita, usando temáticas em voga como muletas. No seguinte disco, Muse procuraram regressar às origens sonoras, mas este pecou pela falta de consistência e momentos memoráveis.

Matt Bellamy prometeu algo novo e mais colorido em Simulation Theory, que arrancou com o lançamento de alguns singles acompanhados de vídeos com estéticas mais ligadas ao Synthwave e anos 80. Todavia, a 9 de novembro, com o lançamento do álbum completo, algumas destas influências provaram-se demasiado notórias. Também, como se soube prosteriormente, metade do álbum estava acompanhado por remixes ou versões alternativas das faixas, o que não transmitiu confiança aos ouvintes.

“Algorithm” é a faixa que inicia o projeto, com uns sintetizadores que parecem retirados de um álbum de Kavinsky. O vocalista apresenta a narrativa do álbum, o crescente avanço tecnológico e a ameaça de um futuro onde o ser humano é obsoleto e condicionado a uma simulação.

E a verdade é que o fugir à comparação com outros artistas e à integração direta das suas sonoridades neste álbum é algo do qual o trio britânico nunca consegue escapar. Até em “The Dark Side”, uma das melhores faixas do disco, que consegue incorporar com algum sucesso esta nova estética e identidade Muse, acaba por ser manchada por parte da discografia do duo francês Daft Punk, particularmente a sua trilha sonora para o filme TRON de 2010.

Faixas como “Something Human” e “Get Up And Fight” são os exemplos mais notórios das influencias Pop e Pop-Rock, respetivamente, com letras banais e instrumentais que parecem novas versões de coisas que já ouvimos no passado. Isto culmina com “Thought Contagion”, que possuía um tema bastante interessante que poderia estar melhor realizado, mas que acaba por ser apenas uma mistura da música Pop atual, soando como uma canção dos Imagine Dragons.

A banda acaba por explorar alguns sons, principalmente no inicio, com “Propaganda”, que traça uma analogia entre propaganda e uma mulher. Esta metáfora de sedução e atração consegue ter algum charme, mas também consegue ser pateta em algumas ocasiões. “Break it To Me” encaminha-se, também, por este caminho mais experimental, com alguns sons mais pesados e preenchidos, antagónicos à voz de Bellamy.

Porém, os Muse mantêm-se leais a alguns sons prévios. “Dig Down” não é particularmente interessante a nível de conteúdo lírico ou instrumental, mas captura o melhor da chama mais Pop-Rock da banda. “Blockades” refina esta fórmula ainda mais, em particular quando se aproxima do fim, onde as guitarras ganham mais peso junto dos sintetizadores e a própria voz ganha um coro triunfante.

A melhor adaptação de tudo isto é “Pressure”, que integra alguns dos sons mais heróicos, intercalados por conjunturas interessantes pela guitarra. É uma das ocasiões onde toda esta panóplia de estilos parece estar mais uniforme e conjunta, com um desfecho mais satisfatório.

E é precisamente essa escalação que falta nos momentos finais do álbum, como “The Void”, que faz jus ao nome por serem cerca de cinco minutos onde não existe qualquer tipo de culminação ou finalização. O álbum acaba quase como por desaparecer por entre as suas bases de sintetizadores, pianos e a ocasional percussão algo vazia. Acaba por saber a pouco, encerrando esta odisseia futurista de uma forma pouco satisfatória.

Simulation Theory acaba por ser concluído como um projeto com mais alma e impacto que Drones e 2nd Law. Contudo, isto não significa muito. Tal como nesses projetos, a nova direção acaba por parecer encaixada às três pancadas na sua palete habitual.

O resultado é efetivamente uma tentativa desesperada de adicionar algo fresco à música que o trio faz desde o início da sua carreira e, enquanto existem bons momentos ocasionalmente, a maior parte do álbum está habitado por cópias e misturas de outros artistas e identidades. O que é de lamentar, devido à base tão assente numa estética que poderia solucionar o estancamento musical da banda.