My Morning Jacket partilham mais da sua magia ao proporcionar uma viagem espiritual com o seu álbum Z. Um álbum emocionante, viciante e repleto de boa música da banda norte-americana.

Podemos descrever My Morning Jacket como uma banda de muita qualidade e cuja arte é sem dúvida reconhecida ao ouvir os seus álbuns. São um grupo que definitivamente não tem a atenção que merece. É uma banda americana, formada em 1998, Louisville, Kentucky. Fizeram grandes trabalhos desde The Tennessee Fire, de 1999, até ao seu mais recente álbum de 2015, The Waterfall. Z é o seu quarto álbum, lançado em 2005.

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A banda utiliza uma fusão de estilos musicais, mas sem dúvida que se encontram mais direcionados para o Rock Psicadélico e Indie Rock. Para aqueles que não são fãs de mitologia, certamente passarão a ser crentes na religião de Jim James. A sua voz é angelical, e todos os membros do grupo são muito criativos e talentosos.

Z inicia-se com “Wordless Chorus”. É sentido de imediato um suspense através das vibrações do baixo de Tommy Blankenship, que progride com o vocalista a cantar os versos até culminar no refrão da música, revelando a intensidade do seu poderoso falsete. A letra incide sobre preocupações relativamente a banalidades e que acabamos por torná-las no centro das nossas vidas. O medo toma conta dos nossos sonhos, e esse sentimento acaba por levar ao conformismo. O hiptnotizador falsete incentiva a que sejamos inovadores, e faz acreditar que temos o poder de fazer as nossas decisões.

O próximo tema, “It Beats 4 U”, inicia-se com um ritmo contagiante de tarola por parte de Patrick Hallahan, que dá o seu contributo de maneira exímia ao longo da faixa. Logo depois, entram em volume ligeiro frases de guitarra acústica, juntamente com a simples linha de baixo, que mais tarde une perfeitamente com a voz de Jim James. Mais tarde, o sintetizador tem um papel crucial quando esta canção é ouvida em stereo, ao ser colocado no canal direito um riff extremamente viciante, juntamente com uma guitarra no canal esquerdo com o efeito Tremolo. A mensagem transmite uma reflexão sobre relações, ao falar sobre como duas pessoas podem estar ligadas perfeitamente e que, no entanto, existe sempre alguma discórdia. Existirão sempre palavras que surgem inconvenientemente, fruto de atritos que são normais entre duas pessoas. Os dois têm que estar cientes que apesar de momentos difíceis, o amor é mais forte e consegue superar os maus momentos.

A terceira faixa do álbum começa com um riff de guitarra elétrica, que permanece e proporciona a identidade destes três minutos mágicos. O nome da canção é uma referência bíblica a Gideon (Gideão) e debruça-se na religião. Menciona que as nossas crenças religiosas deveriam ser algo positivo para a sociedade e não um bloqueio mental ou uma fonte de conflitos. A letra quase que suplica que o Homem deve absorver os bons valores morais, e não se reger literalmente pelas palavras de um livro ou, muito menos, das pessoas que o utilizam como manipulação.

“What a Wonderful Man” é uma faixa cheia de energia, com um ritmo muito acelerado. Estranhamente, a letra relembra um amigo de Jim James e os momentos que passaram juntos, e como percebeu a sua importância após a sua morte. É uma canção que desperta ambiguidade emocional, pois transmite uma energia positiva apesar do sentimento pesado que carrega.

De seguida, ouve-se o trabalho genial de Carl Broemel, ao iniciar “Off The Record” com um fantástico riff de guitarra elétrica com distorção (Fuzzface), que surge novamente mais tarde. A guitarra e o baixo marcam a música durante os primeiros minutos. Na fase mais avançada da faixa, o ritmo abranda, e torna-se numa viagem profunda, ao som do sintetizador com colagens de vozes revertidas. O vocalista pretende transmitir arrependimento nas suas palavras e insiste que para uma relação funcionar é necessária uma força equilibrada. É preciso vontade mútua para corrigir os pontos maus, de modo a atingirem um bom relacionamento.

“Into The woods” realça, lentamente, o som de pássaros e de crianças a conviver, ao mesmo tempo em que é tocado vagarosamente um órgão ao som da voz de Jim. São introduzidos sons de guitarra, que produzem um som estranho, ao ser utilizado o slide, um utensílio que reproduz notas continuamente sem a separação dos trastes. Na fase final, são utilizadas várias vozes de fundo, que criam um efeito dramático na música. É de realçar também a excelente estratégica de produção desta faixa.

Sons de sintetizador passeiam pelas colunas, e repentinamente, a banda converge com a entrada dos restantes instrumentos para “Anytime”. É uma faixa com muito ímpeto, que eleva cada vez mais até ao solo de guitarra. A letra aponta o nosso problema em aguardar pelo momento perfeito para nos expressarmos e que, sempre que exista oportunidade, devemos demonstrar os nossos sentimentos aos que mais amamos.

Na próxima canção, o vocalista mostra o seu apreço pelas inúmeras vezes que a sua namorada lhe pediu para permanecer em casa, salvando-o assim do abuso de álcool e narcóticos. “Lay Low” abre com um ritmo curioso por parte do baterista e, ao longo da faixa, a progressão vai sendo a mesma, com um solo de guitarra a finalizar.

“Knot Comes Loose” começa muito calma com um shaker a marcar o andamento da música. Logo depois, sentimos um djambé com um ritmo suave, repetitivo, que dá um sabor especial e diferente face às outras canções do álbum. É uma faixa relaxante, que nos deixa em introspeção com a voz serena, que faz com que este tema se torne um dos mais notáveis e primorosos de Z.

O álbum termina com a canção “Dondante”, que é reconhecida pela bateria que provoca uma sensação de enorme tristeza, acompanhada pelas palavras sentidas de Jim James, ao cantar de forma emotiva acerca do seu amigo de infância que se suicidou. A faixa continua com um solo comovedor, que alcança o clímax da música quando se juntam todos os instrumentos, criando uma sensação de emoção extrema. A canção acaba com os pratos da bateria e com um saxofone, que vão ficando cada vez menos audíveis até se silenciarem por completo.

é um álbum muito bom, de uma banda que não é muito conhecida, mas que tem uma tremenda qualidade e que merece sem dúvida ser ouvida. Aconselho vivamente que os leitores dêm uma oportunidade a My Morning Jacket, porque certamente não se vão arrepender.