Nuno Melo nota que o CDS “está mais forte do que em 2009”, considerando que o partido “manteve-se sempre coerente em relação ao projeto europeu”. O eurodeputado é novamente candidato ao Parlamento.

Em representação do CDS “com muita honra”, Nuno Melo mostra-se confiante para as eleições europeias, que lhe podem dar o terceiro mandato no Parlamento Europeu (PE). Em entrevista ao ComUM, após a presença no debate “A Hora da Europa”, na Universidade do Minho, o cabeça de lista considera que o partido tem capacidade para “repetir 2009”, ano em que elegeu dois eurodeputados.

Analisado os principais temas que estão na agenda do PE, como as vagas de refugiados, que procuram abrigo nos Estados-membros, Nuno Melo afirma que a União Europeia (UE) “devia pensar do mesmo modo e por igual razão” nos migrantes que são lusodescendentes, adotando medidas de reintegração social. Reflete ainda sobre o “impacto negativo” que o Brexit pode ter na UE, defendendo a permanência do Reino Unido, e acerca da taxa de abstenção nas eleições europeias, concentrada sobretudo nos jovens, salientando que a população mais nova “deveria ser a mais interessada”.

 

ComUM: Em que medida a realização de debates e sessões de esclarecimento em universidades e outras instituições de ensino pode ajudar a baixar a taxa de abstenção nas eleições europeias, que está mais concentrada nos jovens?

Nuno Melo: É muito impressionante a taxa de abstenção, genericamente considerada, porque é superior a 60% e é muito maior nas europeias do que nas outras eleições. É muito impressionante também a taxa de abstenção nos jovens. Os jovens não são só a população mais informada, como, em relação ao projeto europeu, deveria ser a mais interessada. A oportunidade que temos de falar com os jovens é inestimável. Além do gosto que tenho, acho muito importante esta oportunidade de falar com os jovens sobre as principais questões europeias. Mais ainda quando os jovens podem interagir”

ComUM: Nas últimas eleições europeias, o CDS concorreu juntamente com o PSD. Este ano, o CDS concorre sozinho, sendo que Nuno Melo encabeça a lista do partido. Que vantagens e desvantagens pode ter o partido sem a colaboração do PSD?

Nuno Melo: Em 2009, o CDS foi a votos sozinho. Elegeu dois eurodeputados. Em 2014, fomos a votos com o PSD, só elegemos um. Portanto, do ponto de vista histórico, levamos vantagem quando concorremos sozinhos. De todo o modo, em 2014, o PSD e o CDS estavam juntos no governo de coligação. Fazia sentido que nas europeias concorressem conjuntamente. Neste momento, o PSD e o CDS estão separados na oposição.

Há aspetos europeus nos quais divergimos: o CDS não é federalista, o PSD é federalista; o PSD defende impostos europeus, nós não; o PSD votou no fim da unanimidade em matéria fiscal ou em matéria de política externa, o CDS é contra essa perspetiva. Há muito mais que nos une certamente. Mas há também momentos em que é importante os partidos relegitimarem-se nas urnas, ver quanto é que valem nas urnas. Essa é uma das razões pelas quais nós vamos a votos e eu acredito que podemos repetir 2009, ou seja, eleger pelo menos dois eurodeputados.

ComUM: Até que ponto a sua posição e a do CDS se manteve ou mudou ao longo destes dez anos, divididos em dois mandatos, em relação ao projeto europeu?

Nuno Melo: Manteve-se sempre em relação ao projeto europeu coerentemente. E mesmo, em 2014, o facto de o CDS não ser um partido federalista foi vincado, ainda em coligação com o PSD, tendo o Paulo Rangel como um profundo federalista, que o assume. Nós os dois, em inúmeros debates, dizíamos “o Paulo Rangel é federalista, eu não sou federalista, mas estamos unidos num propósito europeu”. O CDS foi sempre muito coerente na sua perspetiva sobre a Europa que se mantém desde 2009 até hoje.

ComUM: Detendo o cargo de vice-presidente na Delegação para as relações com os Países do Mercosul, como perceciona a posição da União Europeia face à crise humanitária da Venezuela?

Nuno Melo: Quando a União Europeia se preocupa, e bem, com os refugiados que fogem de guerras na Síria, ou com problemas no Iraque ou na Líbia, devia pensar do mesmo modo e por igual razão naqueles que são, em grande parte dos casos, portugueses ou lusodescendentes que são forçados a sair aos milhares de um país que durante muitas décadas os acolheu. Mas, hoje, porque vivem ditaduras e têm à sua frente um ditador alucinado, chegam a Portugal muitos destes venezuelanos e lusodescendentes. São pessoas altamente qualificadas que poderiam ajudar a nossa economia, no ponto da demografia e no ponto de tudo aquilo que faz falta, como, por exemplo, na saúde.

Dava um exemplo [ndr: no debate “A Hora da Europa] de que na Madeira existem pessoas que são médicas especialistas, altamente qualificadas, que hoje estão no desemprego ou estão neste momento a conduzir táxis e fazem falta. Portanto, a União Europeu devia ter o esforço muito particular em relação a Portugal e em relação aos refugiados, ajudando financeiramente na sua reintegração e no seu aproveitamento, no ponto de vista económico e social da União.

ComUM: No seu manifesto “Mais Europa, Menos Bruxelas”, afirma que Portugal deve lutar por uma moeda única que possibilite que “a economia portuguesa cresça de modo sustentado”. Pensa que o Brexit, um dos principais temas em destaque para estas eleições europeias, pode afetar este crescimento sustentado, visto que é das principais potências da UE?

Nuno Melo: O Brexit tem, independentemente de ser hard Brexit ou um Brexit negociado, uma consequência. É um impacto muito negativo na economia e nas finanças europeias, o que se compreende porque vão ser menos 60 milhões de consumidores. Vai sair um dos principais motores da economia europeia e, necessariamente, esse reflexo e essa consequência negativa vão acontecer. O que espero é que a União Europeia seja suficientemente forte nas suas instituições europeias, no seu dinamismo e funcionamento para que consiga superar o Brexit. Ainda sou daqueles, talvez iludido, que acredita que o Brexit possa não acontecer e que, eventualmente, o novo referendo reverta a decisão anterior.

ComUM: Que posição toma o CDS e o Nuno Melo em relação ao Brexit?

Nuno Melo: Somos profundamente defensores da permanência [ndr: do Reino Unido] na União Europeia. Entendemos que o Reino Unido é Europa, foi uma das principais potências beligerantes na 1ª e na 2ª guerras mundiais e a paz é hoje a razão de ser da União Europeia. Por isso, é bom ter todos aqueles que combateram juntos num projeto político. Foi sempre um aliado estratégico dos portugueses. Somos uma nação que deve muito aos ingleses.

Nos principais conflitos com a Espanha, tivemos ingleses no nosso lado, assim como nas invasões napoleónicas. Os ingleses compreenderam-nos, defenderam-nos sempre e estiveram sempre do nosso lado. Por isso, essa é a perspetiva. Há que fazer tudo para que o Reino Unido possa ficar e, se tiver que sair, que saia mantendo uma parceria muito privilegiada com a União Europeia porque os britânicos são fundamentais para a nossa realidade e destino comum.

ComUM: Está confiante para o resultado das eleições, que pode dar a Nuno Melo o terceiro mandato no Parlamento Europeu?

Nuno Melo: Eu, por natureza, sou uma pessoa confiante e, se não fosse assim, em 2009, quando tínhamos sondagens de 3%, tínhamos desistido e tinha vindo embora. Diziam que não elegíamos nenhum eurodeputado e elegemos dois. As sondagens diziam que o PS venceria as eleições e perdeu-as. Portanto, o que noto é que na rua o CDS está mais forte do que em 2009. Estou muito confiante e, além de mais, acho que os trabalhos que temos desenvolvido, quer na Assembleia da República, quer no Parlamento Europeu, justificam um bom resultado. Vou com essa crença e com essa confiança para as urnas em representação do CDS com muita honra.