O trio nipónico Dos Monos estreia-se com um álbum que empresta bastante do Hip-Hop do ocidente. Com Dos City, o grupo procura ser acessível, sem se privar de colocar o seu próprio toque e experimentação.
Vive-se uma era de movimento da indústria em relação ao oriente, com uma crescente adesão a tendências como o K-Pop ou o J-Pop, que tem ganho, pouco a pouco, o seu lugar junto do mercado mais mainstream. As barreiras linguísticas são cada vez mais esbatidas pelo papel dos instrumentais e dos refrões mais ocidentalizados, que procuram ficar no ouvido e conquistar um alcance global. Porém, tem sido particularmente na fusão destas culturas que se tem dado grandes passos dentro da cena mais Indie.
Vários artistas orientais procuram agora encontrar um mercado no outro lado do mundo, como por exemplo a nipónica Harunemuri, que no ano passado conseguiu obter um grande alcance mediático fora do seu país, com o seu álbum Harutosyura. Dos Monos seguem esses passos, com ambições de obter uma simbiose perfeita entre os públicos nacionais e internacionais.
O trio, que retira o seu nome do espanhol para “Dois Macacos” e que baseia o seu conteúdo lírico no japonês, com a recíproca presença do inglês, é constituído por Zo Zhit, TAITAN MAN e Botsu. Dos City é o seu primeiro lançamento, distribuído através da Deathbomb Arc, que ajudou a colocar no mapa artistas experimentais como Clipping., Death Grips, Julia Holter e JPEGMAFIA.
Não é preciso ir muito longe no álbum para perceber o que o grupo baseado em Tóquio é capaz de oferecer. Em “Theater D”, os velozes e polifacetados versos dos três membros fazem a faixa brilhar, mesmo quando o instrumental começa já a revelar algumas das suas influências.
Estas influências tornam-se demasiado evidentes em faixas como “In 20XX”, que claramente retira uma ou duas ideias do icónico “Enter The Wu-Tang (36 Chambers)” ou “Muffin”, que podia muito bem ser integrado no temático MM…FOOD. Contudo, não se inibem de contar com momentos onde os membros conseguem trazer à baila a sua presença mais visceral e energética.
Apesar desta sombra colossal, existem momentos onde o trio consegue salientar a sua identidade e dar o seu próprio toque. Por exemplo, “Clean Ya Nerves” demonstra a versatilidade dos membros, com o alcance vocal de Botsu, a intensidade de TAITAN MAN nos versos secundários e uma presença sólida de Zo Zhit, que lidera toda esta faixa.
Contudo, há espaço também para canções mais pausadas como “Agharta”. Assume-se no Lo-Fi, com letras tão esotéricas como a batida, pautada por flautas suaves e por tambores abafados.
Com um grande enfâse em sampling, “Bacchus” é das músicas mais desordenadas do álbum, sem nunca deixar de ser acessível. Mesmo com a paisagem sonora a ser coabitada com pianos, saxofones e todo o tipo de panóplia sonora, esta nunca se excede em roubar o holofote aos rappers, com grande destaque para o longo verso final.
Precisamente nestes momentos excêntricos que conseguem ser surpreendentemente acessíveis é que se acha a mais valia do álbum. “Schizoidian” consegue isto através dos seus sons agudos e conteúdo lírico esquizofrénico, contrastantes com uma palete de baixo e saxofone.
“EPH (wo wo)” atinge o seu objetivo ao elevar os instrumentos de sopro a níveis superiores às vozes, contando com uma barafunda de samples das mais variadas origens e cantos secundários disjuntivos, que só intensificam a certa beleza caótica da faixa.
A dupla que fecha o álbum, “Abdication b4 he dies” e “Dos City”, não traz muito de novo, somente cimentando aquilo de que o grupo é capaz, sem ter tanta direção e energia como as faixas anteriores. A primeira carrega nos traços sinistros e disrítmicos, com uma grande modulação vocal. Já a segunda apenas se fica pela intervenção de guitarras disfuncionais e erráticas no início da faixa, que acabam por evoluir para um solo perfeito e distante no final.
Em suma, é admirável a ambição destes artistas nipónicos, que procuram representar a sua língua e unir sonoridades bastante dispersas. Isto sem medo de correr riscos a nível rítmico ou de soarem demasiado inacessíveis e agressivos, como muitos outros grupos experimentais que têm ganho destaque nos últimos anos.
Mesmo que seja praticamente impossível ouvir-se o álbum de uma ponta à outra sem se traçar paralelismos com grupos lendários como A Tribe Called Quest, Wu-Tang Clan ou a colaborativa Madvillain, não se deve retirar o crédito ao trio. Ao longo deste projeto, Dos Monos conseguem fruir e salientar a sua visão e identidade, adotando todos os traços positivos destas influências para o seu benefício.



