Fishing For Fishies é um álbum inundado de Blues-Rock, onde as harmónicas guincham, os sintetizadores adicionam camadas futuristas e as guitarras são absolutamente vigorosas. O 14º álbum dos King Gizzard & The Lizard Wizard é mais uma prova da versatilidade do grupo australiano.

Há muito poucas bandas tão interessantes quanto King Gizzard & The Lizard Wizard, pois são capazes de produzir música a um ritmo incomparável e transbordar uma energia divertida e despreocupada, que torna tão fácil adorar o grupo. É justo dizer que os australianos se estabeleceram como uma das bandas de Rock mais consistentes da última década, por trazerem constantemente novas influências e géneros ao som, sem se tornar inconsistentes.

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Quando aplicada à criação de uma peça musical, a psicadélica é um conceito que pode ir desde a assombração ao êxtase e desde a tensão à calma. Para uma banda realmente abraçar o género musical é preciso dar a perceber exatamente que tipo de realidade alternativa querem criar para o seu público. É esta capacidade que coloca King Gizzard entre as melhores bandas de Rock psicadélico da atualidade.

O novo álbum, Fishing For Fishies, é uma grande festa que quer fazer-nos dançar. Aliás, não é ao acaso que três das faixas do projeto incorporam a palavra “boogie” no título: “Boogieman Sam”, “Plastic Boogie” e “Cyboogie”.

A primeira faixa dá nome ao álbum e é também interessante do ponto de vista da letra. “Fishing For Fishies” não fala sobre pescar, mas sim sobre não querer pescar. “I feel so sorry for the fishies, I just want to let them freely swim”, confessa no refrão. Musicalmente, o ritmo é alegre e divertido de acompanhar.

“Boogieman Sam” fala sobre um psicopata assassino. É a mistura de Blues-Rock e Country, com a dose certa de harmónica e riffs de Blues atrevidos que conferem à canção um ritmo divertido.

Em “Plastic Boogie”, o vocalista Stu Mackenzie rebela-se contra os males do plástico. “Death will come from plastic”, canta no refrão. O que dá a esta faixa uma energia implacável é o cenário de uma festa, enquanto as pessoas gritam loucamente e se tornam barulhentas no fundo, quase como num apocalipse. “Fuck all of that plastic, wrapped up in my dinner, it’s not fantastic, its gonna come kill us”, é assim que a banda resume o nosso uso excessivo de plástico enquanto sociedade, fazendo um ponto válido.

Por sua vez, “Cyboogie”, com sabor a Sci-Fi, é uma homenagem à personagem Han-Tyumi, do álbum anterior Murder Of The Universe. A personagem em questão é um ciborgue que abandonou a sua humanidade pela imortalidade de uma forma diferente.

Ao analisar o projeto como um todo e atendendo às letras, vêmos que as três faixas são, na verdade, complementares. O “boogieman” é alguém que tem uma pegada ambiental muito grande e eventualmente se transforma num robô, o que permite que viva para sempre, mesmo depois de o planeta se deteriorar com toda a poluição. São os efeitos do refrão e do efeito de flanger que ocorrem por todo o álbum que ajudam a criar este ambiente sonoro, que vai de encontro à mensagem.

Alguns momentos no disco mostram um nível de inovação maior no estilo King Gizzard. Em “Acarine” e “Cyboogie”, a banda troca as guitarras elétricas por instrumentações sintetizadas muito completas. “Acarine”, em especial, cria um ambiente eletrónico bem integrado e acordes bizarros que dão à faixa um tom mais maduro do que as restantes canções.

Fishing For Fishies é uma viagem futurista através de terrenos pantanosos e um momento muito particular na história do Rock: o Boogie Rock. Insurge-se como uma amálgama de todos os elementos que se tornaram pontos básicos da banda ao longo dos anos, desde explosões instrumentais inspiradas no Jazz aos solos de gaita e guitarras talhadas para mosh pits. Simultaneamente, é uma mudança de direção para a banda lendária, que prova que ainda têm muitos truques na manga. Será apenas interessante ver o que virá a seguir.