Na mais recente comédia juvenil, Booksmart dá-nos a conhecer as melhores amigas Amy e Molly, duas raparigas que se orgulham dos seus percursos escolares e do futuro que as espera. Molly foi aceite na universidade de Yale e a ativista Amy irá passar o verão a fazer voluntariado no Botswana. A reviravolta acontece quando, na véspera de graduação, Molly ouve alguns comentários desconfortáveis acerca de si e do seu modo de ser. Naquela que parece ser a vitoriosa cena onde a “vitima” dá uma lição de moral aos bullies, acaba por se revelar o contrário.

booksmart, 2019

Após o discurso de Molly sobre o quão promissor será o seu futuro em relação aos dos colegas, esta apercebesse que não é bem assim. Apesar das aparências, dois dos colegas foram também aceites em universidades da Ivy League e o terceiro foi convidado para trabalhar na Google. Tudo isto gera uma revolta e frustração em Molly e Amy por apenas se terem dedicado a estudar e nunca aproveitarem para se divertir quando os seus colegas mostraram que isso é bem possível. Nesse mesmo dia decidem ir à festa de um dos seus colegas mais populares o que resulta numa hilariante jornada que explora não só as personagens principais como também as secundárias, desconstruindo estereótipos implantados pelo típicos filmes sobre o secundário.

Na estreia de Olivia Wilde como realizadora, é nos dada uma perspetiva do secundário e de ser jovem a caminho da maior idade quase exclusivamente pelas lentes femininas das protagonistas. Tópicos como sexualidade, sexo, feminismo e, essencialmente, amizade, são explorados de uma forma nunca antes vista. Sendo uma das protagonistas lésbica, vemos o modo como esta se relaciona com sexo e atração, sem que isto afete em nada a relação com a sua melhor amiga que é, na verdade, a pessoa que mais a apoia.

booksmart, 2019

O retrato da amizade de Amy e Molly é, a meu ver, dos mais realistas. O apoio e busto de confiança constantes assemelham-se aquilo que vemos no nosso dia a dia. Também o conflito entre as duas que acaba por culminar nas cenas mais sentimentais e cómicas, que se alternam subtilmente.

As personagens masculinas destacam-se pela positiva daquelas que estamos habituados a ver em filmes deste género. É mostrado tanto o lado confiante como o lado inseguro desses adolescentes e o modo como lidam com o que os outros pensam deles. Simultaneamente, tentam encontrar validação e não serem tomados apenas pelas aparências.

booksmart, 2019

Booksmart envolve-nos com um dialogo comicamente inteligente, ainda que por vezes exagerado mas sem nunca se descontextualizar do conceito e ambiente do filme. Piadas rápidas carregadas de sarcasmo e sátira que poderiam ter sido facilmente retiradas do dia a dia de um adolescente da nossa geração.

A comédia está presente também na técnica do filme. A escolha de colocar Amy e Molly como bonecas quando estas passavam por uma “bad trip” encaixa perfeitamente no filme. Explora o tema do feminismo, auto confiança e padrões de beleza de uma forma original dando-lhe um toque literal ao usar a imagem de barbies. Com uma soundtrack que representa o espirito jovem é nos transmitida a adrenalina necessária para nos relacionarmos com a jornada de Amy e Molly na noite antes da graduação. Somos envolvidos pela música e revemos-nos em alguns dos cenários mostrados.

booksmart, 2019

Booksmart é assim uma desconstrução de estereótipos, uma representação cómica ainda que realista dos pensamentos, relacionamentos e sentimentos dos jovens. Por mais que seja uma hipérbole da vida adolescente concentrada numa noite, não deixa de tocar em temas que inconscientemente estão no nosso dia a dia e que muitas vezes são discriminados noutros filmes juvenis onde dão prioridade ao romance.

Um filme que aparenta ser só mais uma comédia de domingo à tarde é, na realidade, um verdadeiro elogio à expressão “as aparências iludem”.