Em 1943, na América da II Guerra Mundial, nasceu uma das mais influentes obras fílmicas da história do cinema experimental. Com a magia e a produção de Maya Deren e através da lente do marido, Alexander Hammid, Armadilhas da Tarde é uma curta-metragema preto e branco, com 14 intrigantes minutos, filmada em 16mm.

Originalmente silenciosa, a realizadora instaurou na sua curta-metragem, em 1959, uma composição de Teiji Ito. A música tradicional de teatro japonesa serve o desassossego do filme. Note-se que a cineasta alterou um aspeto fundamental da obra 16 anos depois de a lançar, o que sustenta a contínua mutação das suas criações.

Armadilhas da Tarde

Maya Deren foi pioneira na exploração da linguagem fílmica e no estabelecimento da conceção de cinema enquanto forma de arte. Além de revolucionar e instigar diferentes modos de retratar emoções e pensamentos, veio também conquistar a representação visual da parte menos racional do cérebro. Num mundo e numa indústria liderados por homens, especialmente na década de 40, é passível de identificação uma certa carga política na obra. Isto não só no respetivo contexto histórico como também na trama em si.

O intimismo e a subjetividade do mundo interior são dados a conhecer através da história de uma mulher aprisionada num quotidiano doméstico e sufocante. A personagem, protagonizada pela própria, imerge na desconcertante indistinção entre sonho e realidade. Neste trance, reside a busca incessante de uma figura bizarra que, por mais perto que esteja e por mais depressa que se persiga, permanece inalcançável e cada vez mais enigmática no decorrer de Armadilhas da Tarde.

O estado de sonho imperativo na obra concretiza-se por recurso a símbolos e à sua infindável significação. Assim, entre os objetos inanimados, que o casal conseguiu dotar visualmente de um tom vil e cruel, encontram-se uma flor, uma chave, uma faca, um telefone fora do gancho e um disco de vinil que toca um silêncio interminável. Um dos ícones do trabalho é também o indivíduo coberto por uma capa preta e cujo rosto é um espelho, do qual a personagem principal tenta infindavelmente aproximar-se.

Armadilhas da Tarde

A espiral hipnótica de Deren manifesta-se quando a personagem adormece. Num sonho conturbado, a cada insucesso de agarrar o vulto, a personagem entra e voltar a entrar em casa. Torna-se o espaço numa personagem do filme: cada vez mais confusa e alarmante, mais impossível de habitar e sobreviver.

A certa altura, a incógnita vestida de negro pousa uma faca debaixo da almofada. Através de técnicas de montagem inovadoras, vemos a mulher a tentar matar o próprio corpo adormecido com uma faca. Ao ser interrompida por aquele que é, presumivelmente, o seu marido (Hammid), a protagonista repara na semelhança existente entre ele e a entidade fantasmagórica.

A imagética alucinante de Armadilhas da Tarde é construída através das audazes filmagens de Hammid. Sem recurso a efeitos especiais ou a qualquer equipamento (como tripés ou estabilizadores), o espaço parece ameaçador devido ao peculiar modo com que é documentado. A câmara não é apenas um meio de registo do mundo, é uma lente através da qual se transfiguram lugares e situações triviais, aparentemente sem interesse.

Armadilhas da Tarde

As escadas da casa ganham vida, fazem o corpo tombar para um lado e outro, e a rua parece inacabável. As curvas escondem o que há adiante e ilustram o desconhecido para o qual a figura de preto navega sempre. A narrativa circular, além de uma marca, deixa também uma dúvida inquietante, que enaltece um princípio máximo do cinema: a liberdade e a subjetividade da interpretação.

No início, vemos um braço postiço a pousar uma flor que a personagem apanha de seguida. Podemos imaginar esta ação como um portal para a fantasia iminente no filme. Traduzir visualmente o foro psicológico e materializar todas as alucinações e imagens mentais que habitam a massa cinzenta parece impossível.

Prender a curta-metragem numa amarra do surrealismo é faltar ao respeito à diretora. Poderá, talvez, explicar-se o trabalho dela como expressionista, dada a assoberbada manifestação de um mundo interior, a ponto deste se confundir com o mundo exterior e sensorialmente tangível.

A linguagem única e inconfundível de Maya Deren construiu uma narrativa imersa em fantasia e numa lírica cinematográfica intemporal. Em viagem ao subconsciente, a aliciante circularidade da narrativa de Armadilhas da Tarde hipnotiza qualquer um e, como qualquer mente humana, perpetua uma incerteza lancinante.