Os dois primeiros álbuns de Michael Kiwanuka, Home Again (2012) e Love & Hate (2016) elevaram bastante a fasquia para futuros projetos do músico. No entanto, Kiwanuka, o terceiro e mais recente álbum do músico londrino, supera facilmente as expectativas.

O álbum transmite a insegurança e ansiedade pessoal do artista e serve como um ato de revolta face ao racismo e ao estado decadente do mundo. É uma fusão delirante entre o Soul psicadélico, o Gospel Rock e o Breakbeat.

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Adornado com sons de harpa, batuques africanos, uma orquestra e excertos de protestos pelos direitos civis, Kiwanuka reflete, neste trabalho, a sua visão dececionada porém esperançosa para com o futuro.

As 14 faixas são introduzidas por uma forte crítica à exclusão social e às atitudes perante a imigração na música. Na música “You ain’t the problem” é necessário salientar os versos “if you don’t belong, you’re not the problem”. Estes versos expressam que se alguém não se inclui num grupo, então não é culpa da minoria, mas sim das maiorias que não o acolhe.

A faixa “Hero” merece o mesmo destaque pois é também ela uma crítica, desta vez à violência policial. Michael compara o assassinato do ativista Fred Hampton com os recentes tiroteios policias nos Estados Unidos. Nesta faixa deverão ser frisados os versos “On the news again,/ I guess they killed another” e “Oh, we all get told to go along/ Oh, we know it’s all for show”. É feito um forte ataque ao elevado número de assassinatos por parte da polícia nos Estados Unidos e constitui uma referência à ideia que a paz que dão a conhecer ao público não é real.

Apesar da amargura explícita em grande parte das faixas, o álbum termina com um brilho de felicidade e esperança, a música “Light”. O tema denota esperança nos versos “You’re light for me/My only sun” e “You’ll always shine/ for me”.

Sendo Kiwanuka um álbum conceptual, todas as faixas são bastante homogéneas, tanto no tema, como na sonoridade. Apesar de todas apresentarem um ponto de vista importante perante a sociedade, há algumas que não se destacam.

Piano joint”, por exemplo, sente-se como uma transição entre “I’ve been Dazed” e “Another Human Being”. Assim, a música é ofuscada por dois outros temas que se destacam melhor. Um caso semelhante é o de “Solid Ground” que passa também despercebida, apesar da forte mensagem. O tema refere-se aos maus momentos que cada um passa, à dificuldade me sentir-se integrado e, consequentemente, a necessidade de um “chão”, um amparo. Contudo, sendo precedida por “Interlude” e preceder “light”, “Solid Ground” é uma faixa que pouco impressiona.

Kiwanuka é um trabalho arrojado e marcante, uma sequência de faixas fluente e sublime. É com certeza um dos melhores do ano, senão mesmo da década, e é merecedor de todo e qualquer reconhecimento que lhe for atribuído.