See é uma das estreias de produção original do serviço de streaming Apple TV+. Composta apenas por oito episódios, sequencia todas as etapas da vida de uma humanidade sem visão. O que poderia ser uma metáfora para uma sociedade apática e acrítica, demonstra a subsistência de pessoas cegas numa era pós-apocalíptica.

De acordo com a trama da série, o mundo foi atingido por um vírus que extinguiu 99% da população. Apenas dois milhões de pessoas ficaram vivas. Contudo, estas poucas permaneceram na terra completamente cegas e adotaram um estilo de vida bastante medieval.

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Genericamente, é retratada a existência de tribos, algumas nómadas, outras fixas, umas mais desenvolvidas, outras menos desenvolvidas. As vestimentas das pessoas são feitas de peles de animais, onde a alimentação se baseia na caça, pesca e cultivo. As habitações são construídas a partir de pedras ou aproveitamento de grutas. Existem ainda cultos de fecundidade. No entanto, há sempre apontamentos da atualidade e dos conhecimentos outrora adquiridos.

Desta forma, podemos dizer que houve uma grande atenção ao detalhe. See consegue retratar com o maior rigor as regiões afetadas – campos e florestas já recuperadas, espaços ocupados pelas tribos com objetos passíveis de serem criados unicamente pela mão humana e, ainda, alguns apontamentos de utensílios atuais, como, por exemplo, carros. Esta preocupação corrobora a história apresentada e torna-a mais real.

Para além disso, as personagens recorrem a estratagemas de comunicação em silêncio, de divulgação de conhecimento escrito e de reconhecimento de espaços e distâncias. Tato e audição ativa constante, contagem de passos, imitação de sons naturais com significados específicos e a ultilização de Braille e bengalas brancas improvisadas são exemplos destes métodos. Contudo, as dúvidas sobre a verdadeira capacidade de pessoas invisuais concretizarem determinadas tarefas prevalece.

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Nas cenas de luta existem perceções claras da localização dos inimigos ou até mesmo dos perigos dos locais evolventes. Já nos diálogos, há frequentes contactos visuais estabelecidos. Os espectadores sentem-se obrigados a ignorar estes pequenos erros para poderem assistir a série com leveza e sem distrações extra. E, também, não podemos deixar de parte a magnífica prestação dos atores envolvidos para contrariar essa perceção.

Como os Lusíadas nos ensinaram, “o medo do desconhecido é impedimento do desenvolvimento”. Para além disso, ao longo da história, esse medo contraiu medidas de repressão social. Neste caso, a capacidade de ver passou a ser considerada heresia. Uma simples conversa sobre visão seria motivo para condenar alguém à morte.

Durante a série há duas fações que assumem principal destaque: a tribo Alkenny e o reino Payan. A primeira é liderada por Baba Voss (Jason Momoa), um guerreiro, cujas prioridades são garantir a segurança da sua comunidade e da sua família, composta pela sua mulher Maghra (Hera Hilmar) e os seus dois filhos gémeos adotivos, Haniwa (Nesta Cooper) e Kofun (Archie Medekwe).

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Apesar de se tratar de uma época medieval, Baba Voss mostra já uma visão futurística. A aceitação de braços abertos de uma mulher que tem filhos de uma outra relação ainda é visto hoje como algo depreciativo. No entanto, o guerreiro aceita-a e ama os filhos dela como se fossem seus desde o primeiro segundo.

Um dos momentos mais bonitos e marcantes de See surge exatamente aquando do nascimento de Haniwa e Kofun. O sofrimento de uma mãe a dar à luz sem qualquer tipo de instrumento medicinal, a espiritualidade agregada ao momento e a felicidade do nascimento de dois novos seres levam os mais sensíveis a emocionarem-se.

O reino Payan é liderado por Kane (Sylvia Hoeks), uma monarca que demonstra preocupações espirituais, militares e políticas, e se rege pela lógica de opressão. Porém, o seu poder é concebido apenas pela barragem Kanzua, que a providencia com eletricidade. A rainha é a personagem que proporciona mais momentos embaraçosos e desconfortáveis. Aquando a sua necessidade de rezar, dirigisse a um deus desconhecido, através da masturbação. Tratam-se de duas realidades tipicamente incompatíveis visto que, em algumas religiões, a masturbação é mesmo vista como um pecado.

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Kane apresenta uma visão contrária às ideologias defendidas pela tribo Alkenny. A personagem ordena as tropas assassinar todos os que praticam heresia- a visão- e classifica-os como bruxos. A partir da apresentação desta oposição, apercebemo-nos de como a história se vai desenrolar e, infelizmente, acaba por se tornar previsível.

See está recheada com a participação de celebridades de renome. Para além Jason Momoa, Hera Hilmar, Nesta Cooper,  Archie Madekwe e Sylvia Hoeks, o elenco conta ainda com Alfre Woodard (Paris),  Yadira Guevara-Prip (Bow Lion) e Christian Camargo (Tamacti Jun).

Relativamente à banda sonora, o primeiro episódio presenteia-nos logo com uma das mais magníficas músicas que compõem a série – “Perfect Day”, de Lou Reed. A melodia surge aquando a rainha Kane recebe boas notícias dos “caçadores de bruxas” e retrata a sua felicidade. No entanto, a sua introdução no trabalho provoca espanto e algumas dúvidas, uma vez que aparenta ser demasiado atual para a época retratada.

Aparentemente, See assume uma visão futurística da humanidade, um possível rumo da vida dos seres humanos, bem como demonstra a sua capacidade adaptativa. Para além disso, consegue abordar, mesmo que subtilmente, a gestão das diferenças, como a aceitação e o preconceito. Apesar de abordar temáticas importantes e ser uma série de fácil consumo, não é adequada para crianças, por ser violenta e conter cariz sexual.