Baseada no romance de terror de Bram Stoker, Drácula conta, em apenas três episódios, a história do Conde Drácula, a fama que o persegue e a verdadeira natureza do seu ser. Sem cair no cliché, apodera-se de personagens icónicas para explorar os típicos mitos sobre vampiros.

Atualmente, quando se fala em obras cinematográficas sobre as “sanguessugas humanas”, o público mostra-se reticente. Digamos que existe já uma enorme panóplia de filmes e séries sobre a temática, nomeadamente: Vampire’s Kiss (1988), Interview With the Vampire (1994), True Blood (2008–2014), The Vampire Diaries (2009-2017) e The Originals (2013-2018), pelo que o tema se torna massivo.

Drácula

Além disso, a existência de consecutivas obras sobre vampiros e, indiretamente, do Conde Drácula leva a que o público ache de antemão que já conhece a marcante personagem. Assim, o grande desafio dos criadores da série, Mark Gatiss e Steven Moffat, foi trazer algo de novidade, algo de surpreendente. Inesperadamente, conseguiram cumprir o seu propósito.

Tal como no romance de Bram Stroker, Drácula começa com a apresentação de Jonathan Harker, um avaliador imobiliário do século XIX que vai numa viagem de trabalho até à Transilvânia. Como toda a gente sabe, ou deveria saber por mera segurança, esta é a região central da Roménia, local onde o famoso Conde habita.

Por incrível que pareça, Jonathan desconhecia tal realidade. Já no local, é surpreendido pelo espaço, pelo ambiente pesado e pela falta de vida, algo que não surpreende o espectador. No entanto, deixa-o na mesma com arrepios nas costas. É a partir da perceção de que algo está errado que toda a história dá a primeira reviravolta.

Drácula

Morcegos, labirintos intermináveis, espíritos e engenhocas similares a instrumentos de tortura comprovam a atenção redobrada atribuída aos cenários e à contextualização da história apresentada. Para além disso, a caracterização das personagens cria dúvidas sobre a real existência de certos seres.

Uma das personagens mais icónicas da minissérie é Agatha Van Helsing. Desde logo, quem não é novato na temática associa o seu nome ao típico caçador de vampiros, ao conhecido arqui-inimigo do Conde Drácula. Apesar de não se afastar dessa realidade, Agatha surge mais como uma entusiasta do mundo místico. A mulher é uma freira do Convento de St. Mary em Budapeste. Além da vocação religiosa, da sua aptidão para caçar vampiros e do seu interesse no mundo sobrenatural, mostra-se muito além do seu tempo e aborda tabus da época com um humor bastante característico.

Porém, Agatha não é cega pela religião. Chega mesmo a afirmar, “eu procurei por Deus em todos os lugares neste reino e não encontrei nada”. Trata-se de uma personagem que gosta de desafiar as ordens: “como muitas mulheres da minha idade, estou presa num um casamento sem amor, mantendo as aparências para manter um teto sobre minha cabeça”. É também ela quem procura perceber as limitações de Drácula.

Drácula

Para além da atriz Dolly Wells (Agatha Van Helsing), a série conta ainda com a participação de Claes Bang (Conde Drácula), John Heffernan (Jonathan Harker), Morfydd Clark (Mina Murray), Jonathan Aris (Capitão Sokolov), Catherine Schell (Duquesa Valeria), Sacha Dhawan (Doutor Sharma) e Nathan Stewart-Jarrett (Adisa), entre outros. É graças ao seu papel como Drácula que Claes Bang ganha reconhecimento internacional. Através de uma interpretação que nada deixa a desejar, reencarna a personagem no seu esplendor.

As variadas técnicas de caracterização trazem realismo a todas as cenas, nomeadamente no envelhecimento do protagonista, na sua transformação em vampiro e nas consequências dos seus atos. Contudo, sem a excelente performance do ator, a relação de amor-ódio com a personagem não seria possível. A solidão que transmite no seu olhar, as suas posições corporais de pura carnalidade e as suas expressões faciais de presunção são alguns dos elementos que tornam a sua prestação magnífica. Porém, também as personagens à sua volta (em número reduzido) ajudam a consolidar o imaginário em torno da personagem.

Como referido anteriormente, Drácula consegue apresentar ao público a história do Conde com pitadas de inovação. Por isso, para todos os reticentes quanto a ver uma nova obra cinematográfica de vampiros, não é preciso recear, esta série dá uma nova visão sobre o mundo do fantástico.