Marvel Lima nasceu nas planícies quentes e áridas alentejanas. O quarteto de Beja é formado por José Penacho, Diogo Vargas, Diogo Marques e Gil Amado. O seu som é caraterizado tanto pelo psicadelismo e pelo groove como pela influência espanhola – explicado pela presença desta cultura na zona alentejana. Melodias que se fundem ao corpo e nos fazem vibrar.
Após lançarem o single “Tass Bem”, em 2019, Marvel Lima lançam agora o sucessor do homónimo Marvel Lima, Mal Passado. Num comunicado de imprensa, o novo álbum assume -se como “reminiscências do lounge jazz e smooth funk, relembrando David Axelrod e Azymuth, enquanto se mantêm fiel à sonoridade groovada e rockeira do seu disco antecessor”.
Honestamente, consegui comprovar isso. O projeto de 8 faixas inicia-se com “Tanto me fez”, uma música repleta de cordas suaves e violinos que revelam como vai ser o tema sonoro do resto do álbum. O refrão “Tanto me faz como me fez” em combinação com os vocais de fundo fazem uma combinação que se prende ao nosso cérebro, infeciosa e divertida.
Com “Amistad”, verificamos ainda mais as influências espanholas na banda. Obviamente, pelo título da faixa – que significa “amizade” – mas também pelas letras em espanhol. Por fim, os violinos, os bongós e as guitarras psicadélicas fazem desta faixa um misto de culturas e sonoridade, sendo um ponto alto no projeto.
“Viagens” revela-se como uma faixa (ainda) mais pausada. Os synths e as batidas de bongo, rodeadas pela guitarra e baixo cumprem essa sonoridade. Manifesta-se como o tipo de música que passaria num lounge de hotel enquanto comes o brunch. Em termos líricos, o cantor fala-nos sobre abandonar a vida em que se encontra, à busca de algo melhor. Um outro mundo, como outra pessoa.
O vocalista revela-se ainda mais poliglota com a faixa “Perfection”, com letras em espanhol, inglês e, obviamente em português. Nesta música, é de notar a parte instrumental, que se vai revelando cada vez mais “latina”. Verifica-se isso especialmente no fim, quando há uma explosão musical de ritmos que roçam a fronteira portuguesa. Esta parte de Mal Passado, exatamente a meio do álbum, é quando eu começo a sentir um certo cansaço.
Sim, as melodias continuam com o estilo psicadélico, com um misto de instrumentos e vocais rebarbarizados. Contudo, começa a notar-se uma certa repetição do estilo e aborrecimento. Sendo este artigo um de opinião pessoal e subjetiva, é a meu ver um ponto negativo. Porém, não culpo os artistas por esta escolha. É o estilo deles, é assim que eles fazem as suas músicas.
“Tass Bem”, o single que anunciou este álbum, transpõe um ambiente de descontração, de enfiar os pés na areia, ao som das marés a baterem na costa e com uma bebida refrescante na mão. Uma música que tem uma filosofia de “Porquê te chateares? Deixa andar.”. Os synths que se estendem pelo background (no último terço da música), como um murmúrio, dão a esta faixa ainda mais textura. Com um arranjo suave e relaxado, Marvel Lima mostra, novamente, a sua faceta musical: abanar a anca e bater o pezinho ao som do groove e do psicadélico.
Na faixa “Prata”, tenho de, novamente, falar dos synths que, desta vez, remetem para músicas de Kraftwerk: são repetitivos – não no mau sentido -, graves e hipnotizantes. A faixa junta a este intrumental riffs delicados e suaves. Os vocais continuam distantes e arrastados, tudo culminando numa outra composição com o sentimento de descanso e serenidade.
“Mal Passado” é a penúltima faixa do projeto e serve como interlúdio, puramente instrumental. Digo desde já que é, sem dúvida, o melhor pedaço de música do álbum. Os synths contagiosos e bateria iniciam a melodia, o piano e guitarra carregam o resto, acompanhados por outros instrumentos – penso que ouvi triângulos pelo meio, o que foi um bom toque. A primeira coisa que pensei quando comecei a ouvir esta faixa foi: “O Allen Halloween podia muito facilmente usar este instrumental para uma música dele.” E isto é um testemunho para o nível de diversidade (aleluia!) que esta faixa transmitiu.
Infelizmente, “Fazer por querer”, faixa que fecha o álbum, é meramente “mais uma maçã” no meio deste cesto musical. Cheguei à conclusão que podia, simplesmente, pegar em qualquer parágrafo anterior e substituir o nome da faixa por esta e a descrição ficaria intacta e verdadeira.
Por muito que aprecie os instrumentais deste projeto, chega a um ponto em que a sonoridade semelhante, que se vai repetindo (e repetindo e repetindo), me traz novamente os sentimentos que referi anteriormente. De forma individual, cada faixa serve o seu propósito. Não são, em termos de composição, músicas “más”, pelo contrário. Talvez coloque a “Tass Bem” e a “Tanto me fez” numa playlist de músicas calmas. Mas o resto, duvidosamente irei regressar a ouvi-las.
Todavia, como um coletivo, é de compreender uma falta de inovação no som de Mal Passado. Talvez como som de fundo, enquanto estou a estudar ou numa conversa com amigos, conseguiria passar este álbum na íntegra. Agora, como ouvinte atento e crítico, é-me muito difícil dizer que voltarei a fazê-lo.
Álbum: Mal Passado
Artista: Marvel Lima
Data de lançamento: 7 fevereiro 2019
Editora: Rastilho Records



