A Caçada é talvez dos piores exemplos do defeito do cinema moderno, principalmente comercial, de confundir filmes sensacionais com sensacionalistas. O papel da estridência mediática é acentuado por uma campanha de marketing habilidosa, que aproveitou uma onda desinformada de críticas negativas para o vender como altamente controverso, tal como explicita o slogan do cartaz de lançamento: O filme mais falado do ano é o que ninguém viu.

Esta forma mordaz e reativa de lidar com críticas não é incomum no mundo do cinema. Os criadores terão lucrado certamente mais ao transformar a crítica em sensacionalismo e, consequentemente, numa estratégia de marketing do que a maioria dos cineastas ressabiados da história. Não obstante, o fraco fundamento de algumas críticas negativas não invalida as evidentes falhas que surgem ao centrar a narrativa de um filme em gore e referências culturais, ao descurar largamente os aspetos que fazem do cinema uma arte.

A Caçada

A produção usa e abusa da sensacionalização de vários elementos. Não só a morte é banalizada, como o impacto dramático da mesma o é pelo ritmo frenético que assume, especialmente na primeira parte do filme. Um tópico sério e merecedor de atenção como a crise de refugiados é também usado para forçar elementos de “atualidade” e reforçar uma ilusão de crítica social. Se a isto juntarmos o ênfase exagerado, a adaptação de referências literárias e a ausência de desenvolvimento das personagens, temos resumido o resultado final: um híbrido situado algures entre uma fraca tentativa de misturar horror com comédia e uma sátira muito pouco subtil e mais superficial do que inteligente.

A Caçada conta com um elenco respeitável, edição e cuidados de imagem dignos de um filme da sua envergadura. Para além disso, conta principalmente com dois bons argumentistas, um dos quais conhecido pelo trabalho na série The Watchmen (2016- ). Por tudo isto, é estranho constatar que a aura criativa da produção lembra a de um adolescente revoltado, lamentando furiosamente uma má nota numa composição escolar. Desculpar as falhas do filme com a incompreensão dos espectadores, aludindo a meia dúzia de referências culturais feita seria um voto de confiança, mas um que é difícil fazer quando não há substância suficiente para o justificar.

A Caçada

Felizmente para os responsáveis por este “enfant terrible do cinema moderno, as falhas dos escritores são compensadas por um trabalho excelente da atriz principal. Betty Gilpin consegue prestar um contributo muito valioso para o resultado final. Destaca-se a sua habilidade para contar histórias, especialmente num dos momentos mais dramáticos do filme: a adaptação duma fábula de Esopo, A Lebre e a Tartaruga, com um final cínico e inesperado. De resto, se não fosse o teor cómicamente macabro de alguns outros momentos, tudo se resumia a uma monotonia narrativa de uma hora e meia de matadouro humano.

É precisamente a natureza explícita e desprovida de significado profundo uma das virtudes inesperadas desta longa-metragem. Nada se retira da falsa complexidade de uma história centrada no sensacionalismo visceral ser suficiente para o sucesso nas bilheteiras. Muito menos simples indícios de natureza humana e referências político-sociais chegam para temperar uma comédia perversa, baseada em entranhas falsas a gosto dos grandes ecrãs.

A Caçada

O único benefício da dúvida que dou aos argumentistas é que possam de facto ter conciliado em igual medida uma grande dose de violência gratuita com outra igualmente grande dose de pseudo-intelectualidade. Mas, mesmo que o tenham feito propositadamente, continua a ser um ato de preguiça artística cada vez menos aceitável num meio como o cinema, que deve ser visto e criticado como tal.

Não se deve confundir a defesa do politicamente correto ou da censura artística para reconhecer que algo que não tem muito mais do que o choque para oferecer ao público. Talvez nos tempos da Laranja Mecânica (1971) o filme tivesse maior impacto, mas mesmo assim surgem sérias dúvidas de que fosse por isso sequer memorável.

Pode não haver nada de inerentemente errado em ver sangue e tripas projetadas de forma cómica no cinema (desde que sejam falsas, claro). No entanto, uma coisa é certa: fazer das tripas alma não devia funcionar no cinema, e certamente não funcionou em A Caçada.