No mundo da música, encontramos com alguma frequência percursos profissionais e até pessoais, no mínimo, invulgares. William Harrison Withers Jr, mais conhecido por Bill Withers, nasceu no dia 4 de Julho, Dia da Independência dos Estados Unidos, no estado de West Virginia. Destaca-se não pela excentricidade, mas por uma serenidade invulgar, especialmente face à morte do pai, que presenciou com apenas 13 anos.

Alistou-se na Marinha aos 17 e, querendo ser mais do que um cozinheiro ou moço de recados, formou-se em mecânica aeronáutica. Numa entrevista de Andy Greene para a Rolling Stone, recordava esses tempos como uma altura onde “ainda tinha de provar a pessoas que o achavam geneticamente inferior que não era demasiado estúpido para drenar o óleo de um avião”.

Foi também durante os nove anos de serviço na Marinha que descobriu a vocação musical. Em 1965, depois de vencer a gaguez, ganhou coragem e despediu-se do serviço para se dedicar ao trabalho civil.Withers falou já em tom de brincadeira sobre ter abandonado a Marinha para se tornar o “primeiro leiteiro negro de Santa Clara County”, na Califórnia.

Enquanto trabalhava de dia, gravava demos à noite e, apesar de inicialmente rejeitado pelos gigantes da indústria, foi acolhido pela Sussex Records, após conseguir uma entrevista com a fundadora Clarence Avant. Lá, produziu e lançou o primeiro álbum, Just as I Am (1971), que contava com “Ain’t No Sunshine”, cujo sucesso propulsionou a carreira. Nos anos que se seguiram gravou e lançou mais músicas e atuou com músicos como James Brown e B. B. King.

Em 1975, depois de um casamento que durou um ano marcado por alegações de violência doméstica com a atriz Denise Nichols e de uma disputa legal com a Sussex Records, Withers assinou um contrato com a Columbia Records. Contudo, o desdém pelo controlo que os executivos tentavam exercer no processo criativo levou a que, após 4 anos e 4 álbuns lançados, se concentrasse em projetos conjuntos. Just the Two of Us (1981) com Grover Washington Jr. e participações como a que fez no álbum Dreams in Stone (1982) a pedido do cantor francês Michel Berger são alguns exemplos. Em 1985, lançou Watching You Watching Me. O projeto marcou o fim da parceria com a Columbia Records e também uma carreira musical que disse várias vezes não se arrepender de deixar para trás.

Casado com Marcia Johnson e com dois filhos, Todd e Kori, deixou-lhes gestão do seu legado musical, gozando uma reforma pacata e confortável, deixando a carreira musical completamente de lado. Nos últimos anos de vida, dedicava-se principalmente a acompanhar a atualidade e a usufruir de tempo de qualidade com a família enquanto pai e marido.

Surpreendentemente, o cantautor com nove nomeações para Grammy, três delas ganhas, “nunca se considerou um músico”, disse Joe Walsh, amigo próximo e guitarrista da banda Eagles em entrevista póstuma sobre o autodidata do Soul. Isto era também um reflexo da sua desconfiança na indústria da música, que levou a que mantivesse o trabalho civil de montagem aeronáutica até muito mais tarde que o necessário nos primeiros anos de carreira. Justificava com a crença de que a música era uma “indústria ténue” e da qual duvidava poder viver.

Wiliam Harrison Withers Jr faleceu de complicações cardíacas na passada segunda-feira. A família, que anunciou a morte 4 dias depois, disse estar “devastada pela perda do adorado e devoto marido e pai”. Será relembrado pela forma espiritual como abordou a vida, incluindo as suas fases mais problemáticas. A família lança ainda um apelo para que “a sua música ofereça conforto e entretenimento aos fãs enquanto se agarram aos entes queridos nestes tempos difíceis”.