Em tempos de confinamento social, as Maria Quê presenteiam-nos com o primeiro projeto musical gravado no qual podemos ouvir músicas tradicionais de embalar, cheias de cor e vivacidade. Destaca-se a exploração brilhante de harmonias, aliada a instrumentais muito bem produzidos por músicos da região norte do país.

Numa fase inicial, Catarina Silva, estudante do mestrado em Ciências da Comunicação na Universidade do Minho, e Juliana Ramalho, ex-estudante da academia minhota, juntaram-se, em jeito de brincadeira, para gravar alguns vídeos de canções tradicionais portuguesas de embalar. As Maria Quê reduziam-se às duas vozes acompanhadas de guitarra, num estilo mais acústico.

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O projeto foi evoluindo e com ele um crescente desejo de tornar mais presentes as músicas que nos foram deixadas pelos nossos antepassados. A dupla juntou-se a músicos profissionais que as têm vindo a acompanhar nos concertos que aconteceram nos últimos dois anos e, agora, na gravação do Embalo Das Marés.

O título deste projeto esconde uma metáfora associada ao mar. As artistas consideram-no ponto de contacto entre diferentes tempos, culturas e lugares que vão percorrendo ao longo do EP. Todas as canções parecem ter, no entanto, uma temática comum: a ternura e o amor que só as mães sabem dar.

No que toca ao processo criativo, a dupla começou pela recolha de alguns temas. O passo seguinte foi perceber quais seriam as tonalidades, ideias e instrumentos adequados, tendo como objetivo a criação de um som o mais inovador possível e de identidade própria.

O processo de produção musical foi-se dando à medida que as partes integrantes (não só os músicos, mas também o produtor Hélder Costa) interagiam nos ensaios para os concertos, antes mesmo de terem um EP em mente. Quando consideraram existir material suficiente, gravaram-se os instrumentos seguidos das duas vozes.

Embalo Das Marés abre com “Dorme Dorme, Meu Menino”, um tema português recolhido por Michel Giacometti, em Viseu. As artistas revelaram que este foi um dos primeiros temas que suscitou nelas o interesse pelas canções de embalar tradicionais. Realço a presença da flauta transversal, por Catarina Santos, no início da canção, seguida de vocalizações em harmonia, que captam a atenção do ouvinte e que o fazem viajar imediatamente até à infância.

Segue-se “Duerme duerme, Negrito”, um tema tradicional de embalar que simboliza a luta da mulher camponesa na América Latina. Liricamente, aborda o dia-a-dia laborioso de uma mãe em regime de escravidão, que, ainda que com as maiores dificuldades, promete trazer várias coisas para confortar o seu filho. A performance de Diogo Cocharro no baixo elétrico merece destaque neste que foi o único single do EP.

A terceira faixa, “Sofðu unga ástin mín” é de origem Islandesa. No Instagram, a dupla explicou que o poema relata a vida de uma mãe, dando conta do sofrimento que vive e das dificuldades que espera que sirvam de lição para o seu filho.

Apesar de não conseguir perceber a mensagem de forma direta, a interpretação harmoniosa das Maria Quê transmite de forma exímia o sofrimento desta mãe. Confirma-se, mais uma vez, que a música, não tendo barreira linguística, tem muito mais a ver com o que nos faz sentir. Aqui, destaco a performance de Pedro Oliveira nas percussões que, embora subtis, conferem mais ânimo a este tema.

A última faixa é “Thula Baba”, uma canção tradicional de origem zulu (povo sul-africano). A meu ver, é o tema mais interessante a nível melódico. Abre com um solo de guitarra por Rodrigo Peixoto, bastante sonante e cativante que me fizeram lembrar das músicas que ouvia na minha infância. À semelhança das outras canções, também esta tem uma mensagem forte: é um acalento de uma mãe para o seu filho, enquanto aguardam o regresso do pai de família para junto deles.

Por fim, apesar de não ser o tipo de música que estou habituado a ouvir, admiro acima de tudo o espírito inovador e orgânico que envolve toda a criação do EP. A performance vocal é o ponto forte do Embalo Das Marés, especialmente a exploração de harmonias, um dos elementos que mais aprecio numa composição musical.