Com Future Teenage Cave Artists, os Deerhoof exploram um contraste interessante entre uma produção quase primal com um som naturalmente grotesco e composições complexas e arrojadas. O décimo sexto álbum da banda Indie americana revolve sobre de influências de Garage Rock, música Experimental e Noise. A partir daí desenvolve um conceito exótico e extravagante daquilo que seria a música adolescente dum cenário pós-apocalíptico.

As gravações Lo-fi e quase trapalhonas abraçam o caráter non-sense dos riffs esquisitos, espampanantes e desfasados da realidade, das harmonias vocais absurdas e das bases rítmicas frenéticas e esquizofrénicas e proporcionam ao ouvinte uma experiência alucinante. Uma sequência bem delineada de 11 faixas que tropeçam “cuidadosamente” em si mesmas e formam um todo que quase faz sentido, ainda que por não fazer sentido nenhum.

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Há um terra-a-terra e uma inocência quase surrealistas no disco. Desde “bambis” magoados merecedores de misericórdia (“Why would you shoot my Bambis?”) a crises existenciais recorrentes (“Every morning I check if I have died”), o surrealismo desorientado do álbum consegue ter uma carga emocional admirável. Apesar de claramente confuso e de algumas opções questionáveis naquilo que é uma sonoridade propositadamente crua e agressiva e nas harmonias dissonantes, algumas belas melodias despoletam deste emaranhado de ideias e roubam o ouvinte da teia de riffs envolta em ritmos hipnóticos e esquizofrénicos. Tudo contributos para tornar o álbum estranhamente eclético.

Acho que convém salientar que algumas das coisas que ouvimos foram, inclusive, gravadas com telemóveis e computadores, com os membros da banda separados uns dos outros por causa da Covid-19. E se isto parece algo amador, principalmente atendendo aos meios relativamente acessíveis dos dias de hoje, a verdade é que foi aproveitado de forma muito curiosa para fazer valer o conceito do álbum.

Qualquer pessoa que trabalhe com som consegue admitir que por mais lo-fi que tenham sido as gravações, está tudo muito bem trabalhado e polido. Diga-se construído de forma criativa e arrojada, com o propósito básico imperial de servir a música, acima de tudo o resto. E, infelizmente, às vezes é mesmo preciso frisar este ponto.

A última faixa é um cover de um tema de Bach. “Reduced Guilt” faz lembrar os mais recentes trabalhos de Thom Yorke em Anima e Suspirium, num dos melhores momentos do álbum. A natureza tenebrosa e terrorífica do piano abafado, alguns laivos jazzísticos e o claro espírito “Indie” são tudo associações compreensivas a Future Teenage Cave Artists. Mas, nem por isso em momento algum, a banda perde a sua identidade.

A elegância caótica e tosca do disco torna-se penetrante ao fim de algumas escutas, sem nunca deixar de ser intrigante. Explosões repentinas e efémeras como a que acaba com “Sympathy for the Baby Boo” contrastam com o Swing indeciso de faixas como “O Ye Saddle Babes” ou “Fraction Anthem”.

Parecem ainda mais absurdas quando pensamos que fazem parte do mesmo projeto de momentos como o final apoteótico, dissonante e super intenso de “Damaged Eyes Squinting into the Beautiful Overhot Sun”. Faixa que, curiosamente, antecede a tal peça de Bach tocada ao piano. Sim, uma completa confusão, que de  maneira muito especial acaba por fazer algum sentido.

Uma ideia engraçada e assustadora, um conceito musical incrível e corajoso e performances apaixonantes disfarçam as lacunas e as opções que possamos questionar em Future Teenage Cave Artists, promovendo um projeto incrivelmente interessante e único, que aproveitou as dificuldades da situação mundial atual para fazer algo maior que tudo o resto: Arte. E isso tem de ser sempre valorizado.