A obra cinematográfica estreou no FEST (Festival Novos realizadores | Novo Cinema) a 5 de agosto e arrecadou o prémio de melhor argumento. Babyteeth, a primeira longa-metragem de Shannon Murphy, olha com leveza para as fragilidades mais sombrias da vida humana. O filme paira gentilmente entre o amor e o desalento e deixa uma réstia de perseverança pintada ao som das sinfonias de Mozart.

Babyteeth inserido no turbilhão da adolescência, acompanha os sonhos e tumultos de Milla Finlay (Eliza Scanley), uma peculiar rapariga de 16 anos presa num corpo hostil. À espera do comboio para casa, é abalroada pela imprudência de Moses (Toby Wallace), um rapaz leviano que caminha por linhas tortas e fugazes na incerteza dos 23 anos.

Milla habita dentro de um semblante delicado, traz no olhar uma inocência branda e imaculada. Ainda tem um dente de leite e toca a vida como se fosse uma criança, mas eleva-se dentro de si uma insubmissão resoluta que arquiteta toda a personagem. Moses carrega tatuagens na cara e em todo o corpo, sempre com olho de lince para qualquer possibilidade de incrementar a sua coleção de drogas e medicamentos. Corre as ruas da cidade ao deus-dará, com uma liberdade mordaz que jorra dos problemas em casa e das decisões pouco certas.

Moses não tem nada a perder e Milla pode não conseguir manter o que ganhou. O clichê é óbvio e não tarda em estabelecer um forte laço entre os dois. Assim, é este nó quase cego o mais recente problema de Anna (Essie Davis) e Henry (Ben Mendelsohn), pais de Milla, que jamais tolerariam que um delinquente fosse alvo do amor da sua protegida filha. Contudo, no decorrer da metragem, percebem que o melhor contributo para o bem-estar dela é aceitar a tão refutada relação com Moses.

A jovem não se deixa restringir pela sua condição médica. E é este despertar que acompanhamos a seu lado, numa batalha que se divide em capítulos, como se fossem registos despreocupados de um diário pautado pela lei do “é o que é”. Incisiva, rompe com todas as amarras que o medo dos outros lhe impõe. A dedicação ao violino mede-se pelo seu estado de espírito e dança livremente como se não tivesse qualquer mal para espantar.

A protagonista apresenta-se coberta de roupas coloridas, numa irreverência adjacente à sua personalidade, envereda pela sobreposição de padrões e dá preferência a uma peruca azul. Eliza Scanley dá assim vida a esta personagem e balança entre parecer impotente e ser indomável, ao lado de Toby Wallace, que estabelece um marco cómico na narrativa. De tão caótica que está a sua cabeça pela azáfama do improviso tido como vida, Moses torna-se difícil de ler. Ainda assim, traz em si uma resiliência que lateja e faz sorrir, servindo de amortecedor para os excertos mais pesados da história.

Numa performance bem conseguida, Essie Davis interpreta com esplendor a preocupação de uma mãe disposta a sacrificar o que tem de mais querido num ato quase irracional. Por outro lado, Mendelsohn encarna na pele a confusão de um pai instável, que recorre à fotografia na esperança de manter a filha eternamente. Ambos os desempenhos orbitam em torno da saúde mental e o guião é dotado de uma crueza delicada, que nos atira para dentro do ringue numa luta contra os demónios das personagens.

A trama reúne, desde o primeiro momento, clichês e fantasias suficientes para ser mais um filme simplista e sem grande interesse. Uma mãe depressiva que se envolve com o professor de música, um pai que volta e meia acaba a beijar a vizinha da frente, uma filha com cancro que se apaixona por um marginal: a novidade é pouca. Todavia, o retrato decorre com uma sensibilidade notável, num registo terno e leve sobre temas quase tabu e tidos como soturnos.

Desde a imagem cuidada por uma paleta de cor vívida e veranil à banda sonora que nada tem de fúnebre, a metragem faz-se como se estivesse em harmonia com o destino das personagens. Não dramatiza nem se opõe: há uma serenidade latente na fotografia, uma alegria amena na batida de cada música. O ânimo desce lentamente conforme o fim se aproxima, mas nunca até ao fundo do poço. A despedida escreve-se com luz, mar e poesia. Milla passa como uma nuvem e, por mais doloroso que seja o fim de uma passagem, o sol volta. E reluz.