Daniel Pereira Cristo regressou no dia 29 de julho aos palcos, a bordo da iniciativa CLIVEON e depois de uma pausa forçada devido à pandemia. O músico bracarense conversou com o ComUM acerca desta retoma, bem como sobre o projeto tão singular que dirige e o apadrinhamento dos Gigantones e Cabeçudos do São João de Braga, no âmbito do programa 7 Maravilhas da Cultura Popular.

ComUM – Como é regressar aos palcos?

Daniel Pereira Cristo (DPC) – É uma sensação de esperança e de muita dúvida. Nada está garantido, mas foi incrível sentir que realmente ainda é possível fazer aquilo que mais gosto. Acaba por ser um misto muito grande de sensações e vamos acreditar que realmente as coisas poderão correr pelo melhor. Acima de tudo, no que toca ao concerto, foi incrível, correu muito bem, ainda por cima com uma nova formação. Estamos cada vez mais virados para algo a que podemos chamar ethno jazz, em que a raiz é abordada de uma forma muito mais contemporânea e por grandes executantes, que são, portanto, os meus músicos.

Daniel Pereira Cristo

Fotografia: André Henriques

 ComUM – Quais são as suas maiores influências?

DPC – As minhas principais influencias são, em primeiro lugar, os nossos cantautores, como o Zeca Afonso, Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto. Isto parece um bocado cliché, mas é, efetivamente, essa a área que mais me inspirou e, se realmente tiver algum engenho, são esses os passos que gostava de seguir. Temos depois os galegos Berrogüetto, que o fazem muito bem e que realmente foram sempre uma grande referência para mim. Posso falar também no Paul Simon, que sempre bebeu da World Music para fazer estas coisas de estar a fazer uma música com várias influências, mas o mais rigorosamente possível e o mais tradicional quanto possível. Há também um artista tunisino que acho que faz um trabalho excecional, que é o Dhafer Youssef. Ele é uma grande referência para mim porque consegue incluir no ethno jazz um instrumento como o alaúde, um instrumento árabe e todas as influências árabes numa linguagem muito mais universal e contemporânea. Há também outra figura incontornável, que é o Júlio Pereira, que é, efetivamente, uma pessoa que sempre me inspirou porque nunca se cingiu à suposta limitação dos nossos cordofones tradicionais.

 ComUM – Há quanto tempo começou este projeto?

DPC – O projeto em nome próprio começou há seis anos. Tenho 41 anos neste momento e sempre fiz música como amador em vários projetos, como com os Neurónios aBariados, mais na onda do Rock, em que percorremos essas Queimas das Fitas todas. Desde miúdo que faço música, mas só há seis anos, com um convite da Galiza para mostrar o meu trabalho, é que este projeto surgiu. Os galegos são muito importantes para nós porque chegam a dar mais valor à nossa cultura do que os próprios portugueses. Portanto, eles estavam atentos ao que eu estava a fazer e convidaram-me para fazer uma série de três concertos. Ao mesmo tempo que tive esse convite para mostrar na Galiza o meu trabalho com cordofones tradicionais, fui também convidado pelo Júlio Pereira para gravar um disco de cavaquinho. Foi esse o móbil para todo este percurso que acabou por correr muito melhor do que alguma vez sonhei.

Daniel Pereira Cristo

Fotografia: André Henriques

ComUM – Se tivesse que se limitar a dois instrumentos, quais seriam e porquê?

DPC – Curiosamente, o bandolim foi o instrumento ao qual mais me dediquei ao longo da minha vida, mas, às tantas, se tivesse de escolher apenas dois, acho que seriam o cavaquinho e a viola braguesa. Por serem tão únicos, simbolizam esse exotismo que eu quero mostrar ao mundo. São instrumentos com sonoridades únicas e, as oportunidades que tive de os mostrar fora, foram realmente muito importantes para mim. Eu acho que quem gosta da música da raiz de vários pontos da World Music, acaba por gostar desta sensação exótica de a música e dos instrumentos nos levarem para outras paragens, um pouco como um livro ou um bom filme. Essa magia de nos conseguirem transportar para outro lugar é fantástica, acho que é essa mesma a plenitude da arte. Eu falo muitas vezes de uma experiência que eu tive no Azerbaijão, onde toquei. Falamos de uma cultura musical muito mais complexa do que a nossa, é uma cultura impressionante. Acontece que lá as pessoas ficaram fascinadas com o cavaquinho e fizeram fila para o ver e para me conhecerem. Foi impressionante ver o fascínio daquelas pessoas por instrumento tão pequeno que fazia coisas que elas não entendiam muito bem. Portanto, a sonoridade do cavaquinho é muito peculiar, porque usa o polegar e o indicador, o que lhe dá uma estética sonora muito diferente. Além do cavaquinho, escolhia a viola braguesa pela sua sonoridade barroca, medieval.

ComUM – Com que artista, vivo ou morto, gostava de ter feito uma colaboração?

DPC – Eu tive já a oportunidade de tocar com muitas pessoas que admiro, em particular, no ano passado, com o Júlio Pereira. Já tinha tocado outras vezes com ele, mas desta foi um bocadinho mais pensado. Toquei também com o Rão Kyao, com a Ana bacalhau, que é uma cantora que eu gosto muito. Tive a oportunidade de partilhar o palco com muitas pessoas que nunca imaginei. Fiz também um trabalho com a Gisela João, mas que ainda não foi editado. Falando de artistas vivos ou mortos, acho queria espetacular fazer alguma coisa com o Ravi Shankar ou com o Dhafer Youssef. O Paul Simon é que já está velhote, senão gostava de o apanhar para fazermos alguma coisa juntos.

ComUM – Qual é a sensação de ser o padrinho dos cabeçudos e gigantones do São João de Braga?

DPC – É uma sensação de continuidade porque eu apadrinhei o encontro de cabeçudos e gigantones do ano passado. Para mim, estas coisas valem o que valem, acho que, no fundo, o que importa nisto tudo é falar-se nestas coisas que nos distinguem, nestas tradições seculares. Acho importante também que se levem as coisas mais a sério, que se profissionalize. Acho que a cultura tradicional é que tem de ser muito rigorosa, não pode ser só a carolice, temos de fazer coisas bem pensadas e cada vez melhores. No fundo, filtrar e a criar algo identitário, mas bem produzido. Não é que, por si só, esta candidatura me encha as medidas. O que o faz é que se fale da nossa cultura tradicional sem pudor e que se apontem caminhos para melhorar e fazer dela algo apelativo para as novas gerações. Acho fundamental as novas gerações apoderarem-se destas tradições a as tornarem suas, dar-lhes o seu próprio cunho, com o maior rigor possível. Quanto ao encontro de cabeçudos e gigantones, que é aquilo que estamos a celebrar nesta candidatura, envolve cerca de 1000 pessoas de várias partes de Portugal, de Espanha e até do Brasil. Envolve muitas pessoas com muita paixão e, tendo vivenciado isso o ano passado e ganhado esta afinidade, era impossível recusar.