A cantora e compositora sueca JÁNA presenteia-nos com Flowerworks. No projeto podemos contar com uma artista, cinco músicas e um batalhão de sentimentos. É a exploração de um diário, que nos é dado deliberadamente e com páginas em branco. O convite a contar a nossa história fica.

O primeiro capítulo de Flowerworks chega-nos com “Buds.” Lado a lado do vocalista Yukimi Nagano e do baterista Erik Bodin, dos Little Dragon, JÁNA desconstrói-se. Sem medo de transparecer fraqueza, a artista explora o processo de crescimento pessoal e a capacidade de distanciamento daqueles que mais amamos.

twitter.com/janaandren

Buds” é simplesmente complexo. Presenças dispersas de percussão e cordas complementam-se de modo a criar um ambiente propício à introspeção. Como aquela voz que se ouve ao fundo, aquela voz que nos chama à razão, chegam as palavras de JÁNA. Ao longo da música, os murmúrios da artista tornam-se exponencialmente mais fortes.

Desde logo, JÁNA dá-nos a conhecer a situação em que se encontra, a falta de estabelecimento de uma linha de separação do tolerável e do intolerável, do momento de rotura de um relacionamento. A inexistência dessa linha tornou a perceção da relação turva, “I see my own reflection / Our love through glassy eyes”.

Apesar de apresentar menos de três minutos, “Buds” complementa quase todos os elementos estruturais de uma narrativa. Após a apresentação anteriormente referida, percebemos que JÁNA se dá conta da situação e da necessidade de mudança. Infelizmente, não temos acesso completo ao desfecho da história. Sendo assim, resta-nos apenas imaginar.

Aparentemente, o processo de realização parcial da realidade como ela verdadeiramente é não ficou por “Buds”. A segunda música do álbum, “Lotus”, procura desmontar o conceito de perfeição. De acordo com a artista, a ideia surgiu em conversa com um amigo, “estávamos a conversar sobre sermos amados apenas quando apresentamos um “produto finalou uma visão perfeita de nós próprios”.

Através da flor de Lotus, JÁNA pretende demonstrar que todas as etapas da nossa vida são importantes, por mais bonitas ou feias que sejam, por mais próximas do perfeito ou do imperfeito sejam. Desta forma, tal como uma flor tão bonita cresce nos lugares mais inusitados, temos de nos permitir crescer.

Contrariamente a “Buds”, “Lotus” apresenta um instrumental mais coeso e ritmado. Apesar de não existir nenhuma explicação apresentada para tal escolha, creio que poderá representar o crescimento e o desenvolvimento individual no mundo atual, um mundo repleto de algazarra. Um alvoroço que nos pode desviar do amor próprio e das nossas crenças, “A good girl to me / Someone in a dream / I know good girl would see / When she’s being told who to be / In a pile of beliefs”.

Calma, não mudamos radicalmente de ambiente de uma música para a outra, simplesmente se sente um aumento de complexidade. Da mesma forma, com a lírica de “Lotus” acresce-se uma dificuldade de compreensão da mensagem de JÁNA, nomeadamente com a reflexão de diferentes tempos e, consequentemente, distintas transformações do pensamento.

Segue-se “Dew.” Rapidamente ficamos submersos naquilo que consideramos ser um sonho da artista. Para além disso, pensamos que dá-mos de caras com a composição mais mainstream de Flowerworks. No entanto, esta música mantém as suas diferenças, nomeadamente através de uma sensualidade obscura.

Provocador e carnal serão as palavras que melhor definem o single. Além do instrumental, os primeiros versos de “Dew” não deixam qualquer dúvida, “Your wet clothes on mine / Said you forgot the time / The world we shared was ours”. Muito pelo contrário, dão panos para mangas. No entanto, a música retoma uma eventual falta de escolha e liberdade de crescimento advinda de um relacionamento, “With you at the top of my lungs / With you at the end of my tongue”.

A penúltima música do álbum, “Carpark” é uma incógnita. Semelhante a “Californian Carpark Concrete” de Annie Hamilton, o parque de estacionamento aparenta ser o espaço de evasão de JÁNA ou, pelo menos, o seu local de reflexão. A única referência ao lugar é, de facto, o título elegido para a composição. Toda a sua lírica explora a noção de juventude, tristeza e amor.

Por fim, chega-nos “Wild Roses”. JÁNA decide contar-nos sobre os primeiros estágios de um antigo relacionamento. Como seria de esperar, esta nova relação traz consigo (ou, pelo menos, aparenta) alegria e crescimento individual. Apesar de uma nova visão sobre o mundo, tudo fica em livro aberto. Sem contrato, o futuro é incerto e à mercê do tempo.

Ao longo da música, apercebemo-nos de um certo secretismo, “I won’t tell you / One day I hope you do”. Esta perceção leva-nos a questionar se se trata de um amor inocente e tímido ou de um repetido caso de “namorados sem ninguém pensar.” De acordo com a artista a wild rose é um símbolo antigo que representa algo contado em segredo, o que corrobora esta visão.

Toda e qualquer interpretação de Flowerworks poderá estar desfasada da realidade. No entanto, acredito ser essa a magia da música. Neste caso, a magia de JÁNA. A complexidade lírica, a reticência constante sobre o instrumental, uma aceitação inconsciente e uma continuidade liberal. Toma uma caneta e conta agora a tua história.