Em 1975, Neil Young concluiu o que seria o álbum mais emotivo da sua carreira. Lembrava o descontraído Rock Country que o tornou  numa estrela mas o seu lançamento foi adiado. É um álbum maioritariamente acústico com uma banda de apoio formada por Levon Helm, Ben Keith, Karl T. Himmel, Tim Drummond, Stan Szelest e Robbie Robertson, além da participação de Emmylou Harris.

Homegrown era o sucesso garantido depois do fracasso do álbum Time Fades Away de 1973. A evolução do artista era notória e Homegrown era o disco com o qual a maioria dos músicos poderia contruir uma carreira. Contudo Young olhava para o futuro de uma maneira imperdoável e o projeto já estava no passado.

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Aos 74 anos, Neil Young sabe que não vai durar para sempre. Confirma ter passado os últimos anos a vasculhar os vastos arquivos da carreira. Depois de se “esconder” por décadas, está finalmente a abrir toda uma pesada bagagem emocional que carregou consigo para dentro das canções.

A inspiração para o disco surgiu da relação com a atriz Carrie Snodgress, mãe do primeiro filho de Young, e pede desculpa num comunicado pela demora do lançamento. A explicação passa por ser um álbum demasiado pessoal e que o lembra da mágoa da vida; mas é bonito e por isso decidiu partilhar com o mundo.

Abre com “Separate Ways”. “I won’t apologize” é a declaração que dâ enfase à mudança e aos caminhos diferentes e separados vividos entre duas pessoas. Já “Try” surge num passo mais lento mas mais otimista e é cantada quase como uma brincadeira. “I’d like to take a chance but shit, Mary, I can’t dance” é uma citação do slogan preferido da ex-sogra.

Em “Mexico”, Young lamenta a perda do amor, acompanhado por um piano que enfatiza todo o sentimento que transmite. A parte mais profunda e pessoal da vida do cantor nunca tinha sido muito explorada o que provavelmente explica o facto de ser a música com menor duração no projeto.

“Love Is A Rose”, “Homegrown”, “White Line”, “Little Wing”, e “Star Of Bethlehem” não foram uma novidade para ninguém. As músicas podem ser encontradas em álbuns anteriores do artista. “Love Is a Rose” esteve na compilação de Decade (1977); “Homegrown” e “Star of Bethlehem” eram parte de  American Stars ‘N Bars (1977); “Little Wing” marcou presença em Hawks & Doves (1980) e “White Line” na coleção de arquivos de Songs for Judy (2018).

“Florida” é uma composição falada e nela Young recorda-se de uma cidade que visitou com a família, quando era criança, em 1952. Similar a “Hawaii”, do álbum Hitchhiker (2017), “Kansas” é a música da fantasia para encontrar um novo amor. Aparece como uma fuga impossível da realidade: “I feel like I just woke up from a bad dream (…)/ We cangoglidingthrough the air”.

A solidão também oferece músicas alegres. É o caso da faixa de Blues “We Do Not Smoke It No More”. Não são clássicos mas são descobertas que o cantor transmite aos ouvintes. E depois há “Vacancy”, um Rock acompanhado por Stan Szelest, na qual Young canta: “What’s your name? Why aren’t you showin’ through?, quase como se estivesse a ver uma ex-namorada retornar como um fantasma.

É impossível pensar num momento melhor do que o atual para ouvir músicas de angústia, confusão e isolamento. É uma prova de que algo bonito e duradouro pode vir: até das circunstâncias mais terríveis. É uma mensagem de quase meio século que se revela surpreendentemente coincidente com os tempos presentes na dimensão introspetiva, na acústica e na valorização do amor. Mesmo aquele que nos destrói.