Ugly Is Beautiful é o álbum de estreia do cantor-escritor, multi-instrumentalista, produtor, diretor e meme personificado, Oliver Tree. A mistela de sons e géneros que percorrem o espectro musical remetem para a essência do artista: uma conjugação de emoções e perturbações interiores que são exteriorizadas nesta sua estreia.

Oliver Tree apresenta-se e promove-se muito mais criativamente e excentricamente relativamente aos seus contemporâneos. Um dos primeiros aspetos que saltam à vista do artista é obviamente a sua persona e o estilo de roupa que usa. O bowl cut difícil de esconder e as calças JNCO, um dos ícones da moda dos anos 90, são as imagens de marca. Os excêntricos videoclips, a presença humorística que mantém na internet e a sensação de que está sempre “em personagem” revelam um nível de empenho e de espetáculo difícil de encontrar.

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Com promoção (talvez excessiva) do álbum – com uma série de EP’s, singles e videoclips a ser lançados – pode-se dizer que o “fator surpresa” do projeto foi-se deteriorando. Contudo, existe uma narrativa construída ao se ouvirem estas músicas no contexto do álbum. Se há um sítio onde Oliver deixa de lado a sua persona, esse sítio é na música.

A parte lírica do LP envolve vários temas que se focam em ser-se posto de lado, esquecido, sentir-se exilado, gozado e rodeado de inseguranças. A segunda faixa de Ugly Is Beautiful – “1993” – não se chama assim apenas por ter sido o ano de nascimento de Oliver.

Segundo as letras, foi neste ano que o artista decidiu seguir os seus sonhos. Para além disso, na parte final da faixa, Oliver faz um comentário acerca de si mesmo, sobre fingir ser outra pessoa. É essencial ainda apontar que esta faixa contem o maior sentimento de “abanar a barraca” do álbum todo. A bassline monstruosa e a energética House beat que faz “tremer o chão” fazem de “1993” uma das minhas favoritas do projeto. O instrumental mais Trap no final da faixa, com vocais de Little Ricky ZR3, acrescentam mais sabor a uma faixa já deliciosa.

O escasso surrealismo apresentado na música de Oliver Tree, em comparação com a excentricidade dos seus outros projetos, revela que é através deste meio que o artista mostra a sua verdadeira identidade. Há momentos no álbum, como “Jerk”, que, de um ponto de vista narrativo, engloba tristeza e tragédia. Oliver demonstra preferir cortar qualquer tipo de relação com uma pessoa, escolhendo o isolamento ao trauma emocional que esta pessoa lhe causou. Os acordes lentos e repetitivos ajudam a fortalecer esta narrativa e servem de encosto para a voz cansada e triste de Oliver.

A faixa “I’m Gone” dá continuação ao tema sob a forma de um excerto de Indie-Rock liricamente triste. Paralisado por indecisão, Oliver diz que “desaparece”. Pode servir como uma despedida da luz pública ou como uma espécie de preview para trabalhos futuros do artista.

De um ponto de vista lírico, todas as faixas deste LP são fortemente estruturadas, o que deteriora o projeto em si. Há pontos em que Oliver estende demasiado as suas músicas, com um novo verso ou mais um minuto ou dois de instrumentais.

Repetição e previsibilidade são das coisas que mais me aborrecem quando avalio um álbum. Mas há que louvar Oliver. Ele sabe muito bem como criar um refrão. Mesmo nas piores faixas, os refrões não deixam de ser interessantes e cativantes.

Isto comprova-se, principalmente, em “Alien Boy”, uma faixa Groovy Pop, onde é difícil não estalar os dedos ao som das batidas e synths atmosféricos que envolvem a voz nasal do artista. A música “Hurt” serve também como uma combinação melancólica de Rock com Hip-Hop, onde se enquadra (mais) um refrão pungente.

A faixa seguinte é “Introspective” e… não sei bem o que dizer. Para além de aborrecida, é irritante. A repetição, aspeto referido anteriormente, pesa seriamente nesta faixa – o facto de ser das últimas do projeto também não ajuda. Parece-me uma (fraca) tentativa de fazer uma música sentimental à lá Brockhampton.

Miracle Man” é uma faixa semelhante à anterior, contudo, consegue manter a frescura e o meu interesse pelos 2 minutos de duração. Contrastando com o aborrecimento de “Introspective”, a quinta faixa do projeto apresenta um conjunto sólido de acordes acústicos, acompanhados por batidas que complementam esse som.

Outros pontos altos deste LP que me cativaram bastante foram “Joke’s On You” e “Bury Me Alive”. Nelas Oliver mostra a capacidade de rapper, dentro de um álbum maioritariamente categorizado por um estilo mais Grundge e “rockeiro”. A sua flow e o estilo com que entrega os versos fá-lo parecer um membro dos Beastie Boys ou até mesmo um Zach De La Rocha.

O projeto falha maioritariamente  na vertente composicional e instrumental. As ideias apresentadas são, de certo modo, banais, usadas e (re)usadas múltiplas vezes por tantos outros. A junção de Rap, Rock e Pop, por exemplo, é reminiscente de Twenty One Pilots; a faixa inicial é um mero espelho musical de The Strokes e o Garage Rock apresentando na faixa “Again&Again” remete para uma cover fraca de Cage The Elephant.

Por fim, tenho de escrever sobre “Waste My Time” que, por acaso, fez jus ao nome. Foi mesmo um desperdício do meu tempo. Formulaica e irritante, Oliver Tree consegue capturar tudo o que eu desgosto no projeto e juntar numa única faixa. Oliver não é conhecido pela sua voz e nesta faixa está mesmo a tentar formatá-la da pior forma.

De um ponto de vista geral, Ugly Is Beautiful é uma estreia sólida apesar da execução não ser a melhor. Oliver Tree consegue encapsular os seus sentimentos e a vertente artística numa série de faixas de forma concisa e interessante.

O que se pergunta agora é: o que é que ele vai fazer a seguir? Com esta estreia é apenas palpável a capacidade e potencial que o artista tem para melhorar e continuar a fazer o que melhor sabe: expressividade e dedicação à arte.