Maury Island Reverie é a segunda parte de Prophetas, último projeto de Gonçalo F. Cardoso. É uma gargalhada cósmica, com vestígios de TV Cabo noturna e Ficheiros Secretos, que promete agarrar o ouvinte pelo pescoço logo no primeiro segundo.

É com um grito estridente que começa “Age of Confusion”, a primeira de duas partes desta horrenda e maravilhosa viagem de 55 minutos e 12 segundos pelas entranhas magnéticas do espaço e do tempo. Entre ecos, ruídos brancos e uma meia-voz metálica que se desprende lentamente de acordes de filme de terror, um diálogo peculiar ocorre continuamente numa linguagem de futurismo nostálgico. Depois vêm os uivos.

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Um sinal de antena dissonante perfura murmúrios discrepantes e granulados como uma taça tibetana amaldiçoada pela tecnologia. O torpor de uma distorção eletromagnética apodera-se de nós, e relatos de uma pequena luz vermelha chegam-nos aos ouvidos, filtrados por um sinal de walkie-talkie cada vez mais ténue. O ruído branco da interferência apodera-se da nossa mente, as sobreposições do sinal radiofónico tornam-se omnipresentes e um canto desconcertante e repetitivo ecoa cada vez mais distante, até deixar de se ouvir.

“É como se todos os atos horríveis de que os humanos são capazes dessem à luz, de alguma forma, uma espécie de monstro humano” é a citação que melhor descreve Maury Island Reverie. A amálgama esquizofrénica e altamente hipnótica de pequenos excertos auditivos  formam uma prece musical a uma estranha divindade. Divindade esta que, em vez de pairar acima de todos nós, reside nas entranhas da nossa própria tecnologia.

Estas preces não tardam em dissolver-se nos minutos finais de “Age of Confusion”. Acontece em genéricos distorcidos de TV Cabo noturna e interferência e fazendo uma transição suave para “Moon Child”, a segunda parte desta estranha trip proto-religiosa. Muita interferência, uma prece árabe e um “Ave Maria” de Bach e Gounod depois, estamos de volta a uma conversa previamente iniciada, pontuada com sobreposições de gargalhadas cósmicas, gemidos arrastados e uma cacofonia de cordas.

Entretanto, quase sem darmos por ela, já nos tentaram assaltar a consciência através de tecnologia militar de controlo mental via ondas cerebrais eletromagnéticas. Já novas vozes em coro se ergueram, declamando novos hinos à paranóia enquanto um vaivém cáustico de energia elétrica se faz ouvir intermitentemente. E, finalmente, surge um sussurro que prevê o inevitável fim da humanidade pelas mãos do “laser do Céu”. A carga é lenta, mas torna-se cada vez mais estridente e pesada. Marimbas sobrepostas martelam-nos o cérebro e uma rápida sucessão de tons eletrónicos primitivos dissipa-se pelos minutos finais fora, até dar lugar ao silêncio.

Terá sido tudo um sonho?