Viana do Castelo prepara-se para fazer a festa, nos próximos dias, de um modo diferente. Pela primeira vez em 248 anos, a típica romaria da capital do Alto Minho não vai reunir pessoas nas ruas da cidade. Com uma programação online a evocar a memória da festa, as celebrações em honra de Nossa Senhora da Agonia acontecem, este ano, de 19 a 23 de agosto.
Em 2020, devido à pandemia de Covid-19, a comissão de festas convida “a sentir a Romaria d’Agonia num programa sobretudo online”, como refere o comunicado no site oficial do evento. Assim, o habitual Cortejo, o Desfile da Mordomia, a Procissão ao Mar e a Procissão Solene, entre outras atividades que costumam marcar as Festas d’Agonia, não vão ser vividas da mesma forma.
Hermenegildo Viana, da Comissão Executiva das Festas de Nossa Senhora da Agonia, refere que o principal obstáculo à organização da festa presencial foi a questão dos ajuntamentos. “É necessário prevenir focos de contágio e, assim, proteger tanto as gentes de Viana como também os milhares de pessoas que costumam passar pela romaria”, explica. “É importante que as pessoas estejam cientes da necessidade de ficar em casa, a relembrar a romaria, e que para o ano tenham vontade de voltar”, salienta também.
Desta forma, os cinco dias de festa em honra de Nossa Senhora da Agonia vão ser celebrados através das redes sociais, da rádio e da televisão. Entre as iniciativas propostas, destacam-se vários filmes a retratar os momentos mais emblemáticos da festa, bem como os espetáculos musicais protagonizados pelos conjuntos Augusto Canário e Amigos, Sons da Festa e Sons do Minho, nos dias 20, 21 e 22 de agosto, respetivamente.
Apenas o dia 20, dedicado à padroeira, será celebrado presencialmente, no Santuário de Nossa Senhora d’Agonia, com as limitações determinadas relativamente às celebrações litúrgicas. O evento vai ser transmitido em direto nas redes sociais.
Na esperança de viver os próximos dias com alegria, várias pessoas vão celebrar a tradição e tentar atribuir-lhe alguma normalidade, respeitando as normas propostas pela DGS. São vários os rostos que se juntam nesta celebração e o ComUM conversou com alguns.
“Este ano vamos sentir a romaria, talvez com mais fé”
Rosa Caetano é a figura responsável por muitos dos trajes que desfilam anualmente na Romaria d’Agonia, sobretudo no Cortejo, momento histórico-etnográfico que enche as ruas de Viana do Castelo. Com 76 anos de idade e retirada das lides da costura, todos os anos empresta ou aluga os seus trajes para as Festas d’Agonia e para outras romarias do concelho. Este ano não seria exceção, se não fosse a pandemia.
No entanto, e apesar das mudanças na tradicional festa, a antiga costureira recebeu, no dia 24 de junho, uma notícia que a encheu de orgulho. Foi escolhida para presidir à Comissão de Honra da Romaria, ocupando assim o cargo que, em edições anteriores, pertenceu a figuras nacionais como Amália Rodrigues ou Joana Vasconcelos. “É um orgulho muito grande. Ao longo destes anos tenho trabalhado em prol de nada, apenas pela paixão à minha cidade”, descreve. “São já 64 anos dedicados ao folclore, à etnografia”, acrescenta.
Essa dedicação de Rosa Caetano, figura reconhecida pelos pares e conterrâneos na arte de bem trajar e ourar, faz com que, mesmo num contexto diferente, não deixe de incentivar a festa com o sentimento de sempre. “Este ano vamos sentir a romaria, talvez com mais fé. Estou convencida que vou ver isso: uma festa organizada, mas uma festa sentida. Por isso, peço às meninas que se trajem, que venham para a cidade, para fazermos a festa como pudermos”, apela.
“Quando desfilo nas ruas da cidade, é um orgulho enorme”
Teresa Viana personifica as alterações que dão uma nova imagem à Romaria d’Agonia. Sendo a mordoma do cartaz deste ano, fala um pouco da “sensação estranha” que é representar a festa virtual e no sossego de cada casa. “Queríamos que houvesse festa. Como mordoma, quando desfilo nas ruas da cidade, é um orgulho enorme, mas temos de aceitar e acreditar que para o ano vai ser melhor”, afirma.
Para a vianense, a memória mais marcante da Romaria, e que “toda a gente devia ver, é quando a Santa [a Senhora da Agonia] faz a despedida na sua capela, fazendo uma vénia ao povo e aos pescadores”. Para a mordoma, este “é um momento mesmo muito arrepiante e, para quem sente a devoção, é difícil de explicar”.
Apesar de reconhecer que a festa não vai ser vivida da mesma maneira, a jovem de 27 anos revela as suas expectativas perante aquilo que a Comissão de Festas pede e que vai de encontro às recomendações da DGS. “Espero que as pessoas adiram àquilo que a Comissão de Festas está a pedir e que respeitem as normas da DGS, mas que, no fundo, sintam um bocadinho através das redes sociais, que se vistam nos dias da festa, que vão até à cidade com distanciamento social e, claro, que sintam a festa”, declara.
Quanto ao público, Teresa Viana acredita que é difícil conseguir-se atingir mais pessoas, comparando com a festa presencial, mas admite algumas vantagens no modelo online. “A festa já tem tanto público. Claro que vai ganhar mais porque as redes sociais chegam a um nível que, presencialmente, é capaz de não chegar. A questão de ser online até é boa para os emigrantes que não têm oportunidade de vir à festa e vão poder vê-la pela primeira vez, ao fim de muitos anos. Acredito que aí, sim, irá chegar a mais pessoas, mas esta é uma festa que já atrai um grande público”, revela.
“Vou trajar no dia da Senhora da Agonia, isso é certo”
Juliana Pires sente todos os anos a “chieira” [sic. termo minhoto que traduz orgulho] e a alegria de participar nas tradições da Romaria d’Agonia. Este ano, faz questão de voltar a vestir-se de varina para assinalar a festa. “Vou trajar no dia da Senhora da Agonia ao ir à missa, isso é certo”, sublinha, acrescentando: “E no dia 19 faço o tapete de sal no Largo Infante D. Henrique”.
Para a jovem de 25 anos, que habitualmente participa nas procissões, o seu traje de varina é sinal de herança familiar, visto que o avô era pescador. Por esse motivo, considera-o “especial” e aproveita para dar a conhecer o que costuma vestir na ocasião. “O traje de varina é específico, porque só é usado pelas mulheres da Ribeira. Usamos uma saia às riscas, um avental às riscas ou liso com um bordado, uma camisa floral, um lenço de cochiné às costas e chinelas pretas”, explica.
Para além de trajar de varina, Juliana Pires costuma ainda fazer parte do grupo que, todos os anos, se reúne para fazer os tapetes de sal na Ribeira de Viana do Castelo. Com profunda devoção à padroeira da cidade, trabalha durante toda a noite de 19 de agosto, até à manhã seguinte, para enfeitar as ruas com os tapetes, cheios de motivos alusivos à cidade e à pesca. “Tenho feito o desenho dos tapetes de sal todos os anos. Faço esse trabalho para agradecer à Senhora por todo o ano”, esclarece.
Apesar de os próximos dias serem o ponto alto das festividades, a Romaria já decorre desde o início do mês. No primeiro dia de agosto, foi inaugurada uma mostra dos cartazes concorrentes ao concurso “Cartaz Oficial da Romaria da Senhora d’Agonia 2020”, nos antigos Paços do Concelho, bem como a exposição “Sentir os Tapetes para a Senhora passar”, patente no Navio-Hospital Gil Eanes. As festividades religiosas começaram no passado dia 11 de agosto.
Fica assim percetível que apesar de ser em moldes diferentes, a “chieira” não se deixa abater pela pandemia.
Artigo por Adriana Brito e João Pedro Sousa






