A responsável sublinha que a Universidade do Minho tem acompanhado o projeto desde o início e que o apoio desta é fundamental.

Nadine Santos, investigadora do  Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS) na Escola de Medicina da UMinho (EMUM), desenvolveu o projeto GIRO. A iniciativa conta com uma plataforma gratuita disseminada através das redes sociais, que disponibiliza atividades diárias para a população sénior. O ComUM entrou em contacto com a responsável, que nos falou sobre o projeto.

ComUM- Qual é o objetivo principal do GIRO?

Nadine Santos – Com a larga suspensão de atividades sociais no presente contexto de pandemia Covid-19, nasceu a necessidade de providenciar à população mais sénior (embora que não apenas necessariamente a esta), ferramentas para lidar melhor com o isolamento social. Com base na nossa experiência no terreno, em estudos de envelhecimento ativo e saudável, surgiu o Projeto GIRO.

O Projeto GIRO é essencialmente uma plataforma criada sob a forma de redes sociais (Facebook, YouTube, Instagram, WhatsApp e página Web) com partilha diária de atividades de exercício físico, estimulação cognitiva e lúdico-recreativas, bem como a promoção de hábitos alimentares saudáveis. Este apoio à comunidade é essencial numa situação de maior isolamento e fragilidade que advém da perturbação da estrutura social. O Projeto foi, assim, estabelecido com o objetivo de promover a mobilidade, diminuir o aborrecimento, ansiedade e letargia, e incentivar a manutenção dos contactos sociais, através da tecnologia digital/redes sociais digitais de divulgação, não sendo possível a manutenção de um formato mais presencial.

ComUM- Como foi o processo de passagem de uma ideia pensada para um projeto realizado?

Nadine Santos – No presente caso foi extraordinariamente rápido, talvez dado o sentido de urgência que advém da pandemia. No entanto, é de referência o trabalho prévio da equipa que aqui se destaca em 2 frentes e foi fundamental para possibilitar a rápida implementação. Em primeiro lugar, o facto que nos últimos 10 anos temos sistematicamente e produtivamente desenvolvido estudos populacionais transversais e longitudinais na população sénior Portuguesa, particularmente no norte de Portugal e região do Minho, na área do envelhecimento, incluindo na área da telemedicina. Já totalizamos nesta área mais de 40 artigos científicos publicados em revistas internacionais. A este trabalho, acrescenta-se o segundo aspeto de há 1,5 anos a presente equipa de investigação, nomeadamente o Domínio da Saúde das Populações (do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e Saúde (ICVS) da Escola de Medicina da UM), ter unido esforços com a Câmara Municipal de Guimarães e a Associação Tempo Livre no âmbito do projeto Vida Feliz. O projeto Vida Feliz procura estimular a prática de exercício físico pela população sénior, atingindo cerca de 1000 participantes do norte de Portugal com mais de 60 anos de idade.

Devido à pandemia, muitas atividades em grupo foram canceladas, e a população ficou confinada, ou mais limitada, em termos de participações/socialização presencial, mas com acesso a plataformas digitais. Desta necessidade premente, do nosso know-how e valências, e com a noção que dificuldades similares também seriam de consideração em muitos outros além da população local, nasce o Projeto GIRO que rapidamente conseguimos transformar de ideia a posts em múltiplos canais. De salientar que esta iniciativa parte de uma equipa de investigadores voluntários, com background em todas as áreas do projeto, que sentiu que podia de alguma forma contribuir. O Projeto é, ainda, apoiado pela Associação Centro de Medicina P5 (P5) desde a sua génese, e recebeu apoio da FCT através de um grant RESEARCH4COVID 1ª edição.

ComUM- O “GIRO” iniciou-se no âmbito da pandemia, mas com toda a sua utilidade, tencionar continuar para outros contextos? Visto que a solidão e isolamento das pessoas mais velhas sempre foram temas em discussão.

Nadine Santos – É a nossa esperança que a sua utilidade fique e exatamente por isso – a necessidade do projeto, embora que talvez mais prioritário no presente contexto, não retira a necessidade daqueles que, por algum motivo, já se encontrassem em situações de isolamento físico e, potencialmente, social. Embora que mais dirigido a populações de língua portuguesa, todas as publicações do Projeto GIRO são estendidas livremente a toda a comunidade nacional e internacional. Acresce que não há qualquer ponderação pela equipa de vir futuramente a retirar ou eliminar, das presentes redes de divulgação, os conteúdos já publicados. Por último, a nossa meta é conseguirmos manter alguma periodicidade de novas publicações. Tal advirá, certamente, da necessidade que percecionemos da continuação dos posts, bem como da nossa capacidade de mantermos o nosso “ritmo GIRO” enquanto atividade voluntária pela equipa do projeto.

ComUM- Porquê desenvolver o projeto nas redes sociais e na internet, sabendo que maior parte desta população não consegue ter acesso às mesmas?

Nadine Santos – Porque foi a metodologia mais prática, rápida e segura de chegarmos à população durante a pandemia qualquer que fosse o plano de contingência, ou quaisquer que fossem as medidas publico-sanitárias e/ou de confinamento associadas à implementação e duração de estados nacionais de emergência, calamidade ou alerta. Conseguimos, através de uma metodologia digital, entrar nas casas, ou mesmo instituições, de todos aqueles que tenham um device tipo smartphonetablet, computador ou afim, e, necessariamente, acesso a internet, quando não o conseguiríamos (ou poderíamos) fazer, de todo, fisicamente. Ou seja, digitalmente chegamos mais longe, com muito maior periodicidade e a muito mais pessoas, do que alguma vez conseguiríamos presencialmente – caso no qual, o alcance do GIRO seria negligenciável. Estamos sempre apenas “à distância de um click”.

Porém, reconhecemos que estaremos a excluir aqueles sem acesso a redes digitais. É assim de nota que, paralelamente aos conteúdos digitais, foi elaborado um livro do Projeto GIRO. Produzido e editado pela equipa do projeto, e respondendo a necessidades da população sem acesso a conteúdos digitais, o “Livro GIRO” (volume 1) já foi entregue em 16 pontos em Guimarães, incluindo associações sociais, juntas de freguesia e centros comunitários, num total de mais de 600 livros a serem distribuídos pela equipa do projeto e pelos promotores do Projeto Vida Feliz. Esperamos conseguir vir a estender esta estratégia ou numa 2º edição ou noutras localidades. Ressalva-se que o livro está disponível para download através do repositório institucional da UM (RepositóriUM).

ComUM- Como surgiu a ideia no nome GIRO?

Nadine Santos – Os conteúdos do Projeto GIRO, em qualquer uma das redes de divulgação, organizam-se em 4 eixos principais: Gerais (conteúdos gerais sobre nutrição/dieta alimentar); Intensidade (conteúdos de atividade física), Raciocínio (conteúdos de estimulação cognitiva), e Observação (conteúdos lúdico-recreativo). Advém daí o nome do projeto, além de que sonoramente é apelativo e transmite um algo de muito positivo num presente contexto tão peculiar e, frequentemente, difícil para todos.

ComUM- Em que aspetos específicos pretendem trabalhar para que tenham a adesão do vosso público-alvo, neste caso, os idosos?

Nadine Santos – Da nossa experiência com este projeto, e aliás também no seguimento de atividades e do próprio enquadramento do P5 e do Domínio Saúde das Populações, estamos a colocar em curso um conjunto de ações que permitam contribuir para a literacia e inclusão digital dos mais séniores. Além disso, sendo possível medir o impacto de cada post, os próximos passos consistem na avaliação das métricas de forma a determinar os melhores tipos de conteúdos e, desta forma, direcionar os posts num formato que vá cada vez mais de encontro às necessidades e interesses da população. Antecipa-se, por último, e de forma similar ao que já fizemos nos conteúdos de atividade física, a realização de vídeos específicos (“shorts”) sobre o envelhecimento ativo e saudável nas restantes áreas do GIRO, a serem publicados nas várias redes do projeto.

ComUM- As dicas alimentares e os desafios cognitivos são sugeridos por especialistas?

Nadine Santos – Em todas as áreas do GIRO, o conteúdo é selecionado, elaborado, adaptado e/ou especificamente conceptualizado, desenvolvido e produzido, pela equipa do projeto. Por exemplo, os posts Gerais sobre nutrição são formulados por nutricionistas e/ou com base em recomendações da Direcção Geral de Saúde ou da Associação Portuguesa de Nutrição. Já os posts de Intensidade são selecionados e/ou elaborados por um membro da equipa com formação em fisioterapia. No que se refere a Raciocínio, os conteúdos de estimulação cognitiva são formulados por psicólogos e/ou por membros da equipa com especialização/formação em envelhecimento cognitivo. Por último, na vertente de Observação, os conteúdos lúdico-recreativos têm como base a referenciação de vídeos, imagens, curiosidades e/ou factos gerais desde a literatura, à história, música, artes, ciência e costumes ou tradições, que de modo geral já se encontram livremente disponibilizados na internet.

ComUM- Quão importante foi o envolvimento da Universidade do Minho neste projeto?

Nadine Santos – Ter o apoio institucional é fundamental à exequibilidade de qualquer projeto. Somos uma casa – e uma comunidade – numa situação excecional. O trabalhar enquanto equipa, na procura das melhores soluções para chegar a todos, numa mais valia para todos, no seu bem-estar e saúde física e mental, é essencial. Nisto a UM, e em particular, nesta, a sua Escola de Medicina e o P5, têm sido parceiros do Projeto GIRO desde o seu estado mais embrionário a todas as suas fases subsequentes de atuação. O projeto ainda tinha apenas 1 post e já profissionais/investigadores da Escola de Medicina e do P5 se haviam voluntariado para trabalhar connosco na criação dos “bonequinhos” GIRO, hoje já tão reconhecíveis, e no alojar do projeto num site. A equipa GIRO está assim profundamente agradecida a todos que connosco têm colaborado. Fiquem bem GIROs!