Julie Andrews completa esta quinta-feira, dia 1 de outubro, 85 anos. A atriz deliciou os serões das tropas britânicas, cantou e encantou todos os cantos e recantos do mundo do espetáculo e deu vida ao imaginário dos miúdos e graúdos. Por entre as suas palavras, escritas, faladas ou cantadas, criou um legado, um legado que deve ser, hoje mais do que nunca, celebrado.

Julia Elizabeth Wells nasceu na Inglaterra em 1935. Com apenas 10 anos de idade, começou a cantar. A sua mãe, Barbara Ward Wells (1910- 1984), iniciava o compasso. Por entre os sons do piano, Julie acompanhava a voz do seu padrasto, Edward Vernon Andrews (1906 – 1966). Apesar de seguir os seus primeiros estágios pelo mundo do espetáculo e de Julie ter adotado legalmente o apelido do seu padrasto, a verdade é que nem tudo foi um mar de rosas.

Primeiramente, Andrews descobriu, apenas com 15 anos de idade, que havia sido o resultado de um caso que a sua mãe teve com um amigo de família. Contudo, o pior ainda estava para vir. De acordo com a autobiografia da atriz, após a sua mãe se juntar a Edward Vernon Andrews, Julie descobriu que o seu padrasto era alcoólico e um homem violento, tentando, por duas vezes, entrar no quarto da atriz enquanto esta era criança. No entanto, quando a situação económica da família melhorou, tudo pareceu mudar.

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De volta à cidade natal, Hersham, Julie Andrews frequentou a escola de artes Cone-Ripman em Londres e, seguidamente, teve aulas com a Madame Lilian Stiles-Allen, instrutora de concerto, voz e soprano. Em My Star Pupil, Lilian Stiles-Allen afirmou que “o alcance, a precisão e o tom da voz de Julie” a surpreenderam, realçando ainda que “ela possuía o raro dom de um pitch perfeito”. No entanto, mais tarde, Julie Andrews fez questão de contestar a observação, “eu tinha uma voz muito pura, branca e fina, um alcance de quatro oitavas – os cães vinham de quilómetros de distância”. Após o seu percurso em Cone-Ripman, seguiu-se Woodbrook.

Depois de ter conquistado alguma da sua habilidade musical, Julie Andrews passou a integrar as peças da sua mãe e do seu padrasto. Desta forma, apenas com 10 anos de idade, percorreu Inglaterra e, com um ato musical, deliciou os serões das tropas britânicas.  A sua estreia mundial deu-se um ano mais tarde, juntamente com Ted Andrews, onde protagonizou um dueto na BBC. No ano seguinte, Julie Andrews fez parte do elenco de Starlight Roof. A sua performance de “Je suis Titania”, da ópera Mignon, não deixou ninguém indiferente, garantindo-lhe um ano de trabalho.

Juntamente com os seus pais, Julie Andrews percorreu o mundo da rádio e da televisão. Sendo assim, após a sua estreia radiofónica, protagonizou os interlúdios musicais de Up the Pole e, mais tarde, do programa de comédia Educating Archie, entre 1950 e 1952. Ao contrário do caminho percorrido até então, o seu percurso na televisão teve os seus percalços.

Na altura, o estúdio cinematográfico americano Metro-Goldwyn-Mayer havia aberto recentemente em Londres. A atriz realizou um casting. No entanto, foi descartada, sendo considerada “infotografável”. De qualquer das formas, pouco tardou para a sua estreia na televisão nacional. Sendo assim, em 1949, a atriz não perdeu a oportunidade de participar no programa da BBC RadiOlympia Showtime. Podemos concluir assim que, com apenas 14 anos, Julia Elizabeth Wells havia percorrido todos os cantos e recantos do universo do espetáculo.

Nunca se distanciando dos palcos, a atriz representou a Princesa de Badroulbadour em Aladdin, um clássico dos dias de hoje, e o ovo de Humpty Dumpty, através do teatro de West End. Para além disso, foi participando em algumas peças regionais, incluindo Jack and the Beanstalk, Little Red Riding Hood e Cinderella. Em 1952, a atriz aventurou-se ainda na dobragem. Deu assim voz à princesa Zeila no filme de animação italiano La Rosa di Bagdad (1949). Até ao momento, conseguimos perceber a sua inclinação para filmes infantis.

Mais tarde, surpreendido com a performance da artista em My Fair Lady, Richard Rodgers convidou Julie para o musical televisivo de Cinderella, um papel já conhecido pela atriz. O musical teve transmissão em direto no CBS em março de 1975, alcançando estimadamente 107 milhões de telespectadores. À atriz conquistou-lhe a nomeação na categoria de Melhor Performance a Solo dos Emmy Awards.

Entre 1956 e 1962, Andrews participou no The Ed Sullivan Show, no The Dinah Shore Chevy Show, em What’s My Line?, no The Jack Benny Program, em The Bell Telephone Hour e The Garry Moore Show. Em 1962, protagonizou também o especial Julie and Carol at Carnegie Hall. Como o nome aponta, o musical contou com a presença de Carol Burnett.

Ainda em 1960, Julie Andrew foi escolhida para personificar a Rainha Guinevere na peça Camelot. Foi durante o seu percurso no musical de Alan Jay Lerner e Frederick Loewe, que a atriz foi contactada pela Walt Disney. Deste contacto surgiu um dos seus grandes êxitos, o filme Mary Poppins.

Com o filme, a atriz conquistou, em 1965, um Academy Award de Melhor Atriz num Papel Principal, um Globo de Ouro de Melhor Atriz de Cinema, um British Academy Award de Nova Estrela Promissora em Papéis de Protagonistas, um Laurel Award de Melhor Performance Feminina e um Grammy Award para Melhor Álbum para Crianças.

Após tamanho sucesso, seguiu-se Música no Coração (1965), outro filme de culto. O clássico, inspirado na biografia da família Von Trapp, conta a história de um capitão da marinha que se encontra à procura de uma governanta para tomar conta das suas sete crianças – Liesl, Friedrich, Louisa, Kurt, Brigitta, Marta e Gretl. Durante a sua ausência, a noviça Maria (Julie Andrews) tem a responsabilidade de manter as regras da casa. Além de zelar pelo seu cumprimento, permite a criação de momentos de autêntica ternura com as diferentes crianças e, inclusive, o capitão.

A adaptação do musical da Broadway, garantiu a Julie Andrews, em 1996, um Globo de Ouro de Melhor Atriz de Cinema e um Laurel Award de Melhor Performance Feminina. Para além disso, a atriz foi nomeada a um Academy Award na categoria de Melhor Atriz num Papel Principal e a um British Academy Award de Melhor Atriz Britânica.

Em 1966, a atriz participou no filme Hawaii, o segundo filme com mais sucesso do ano. Afastando-se do feito até então, Hawaii corresponde a um drama, baseado no percurso um estudante da Universidade de Yale que, lado a lado da sua noiva, se torna um missionário calvinista nas ilhas havaianas. Uma viagem atribulada, o alcance do paraíso, o descobrir do desconhecido e a desconstrução de preconceitos. Ainda em 1966, a atriz fez parte do elenco de Cortina Rasgada, um thriller político dirigido por Alfred Hitchcock. A guerra fria, os seus típicos agentes duplos e os efeitos sonoros híper exagerados.

De seguida e como nem sempre tudo pode correr bem, a atriz passou por um mau bocado com aqueles que foram considerados dois dos flops mais caros de Hollywood, A Estrela! (1968) e Querida Lili (1970). Talvez por isso tenha decidido investir mais na carreira televisiva. Desta forma, participou numa catrefada de transmissões, entre elas a emissão especial da NBC-TV, An Evening with Julie Andrews and Harry Belafonte (1969), o Grand Opening Special of Walt Disney World (1971) e a emissão especial do CBS, Julie and Carol At Lincoln Center. No ano seguinte, foi lançado o seu primeiro programa televisivo na ABC, The Julie Andrews Hour.

Mas o seu percurso não ficou por aí, entre 1973 e 1975, Andrews fez parte de Julie on Sesame Street (1973), The Dick Cavett Show, Julie and Dick at Covent Garden,  Julie and Jackie: How Sweet It Is (1974) e Julie: My Favorite Things (1975). Participou ainda em Os Marretas, em 1977, e Julie Andrews: One Step Into Spring, em 1978. Contudo, os anos 70 não ficaram apenas pela sua prestação televisiva. No mundo cinematográfica, aventurou-se por A Semente do Tamarindo (1974), O Regresso da Pantera Cor-de-Rosa (1975), A Pantera Volta a Atacar (1976) e 10 – Uma Mulher de Sonho (1979).

Nos anos 80, a atriz fez parte de Jogar Para Ganhar (1980), Tudo Boa Gente (1981), Na Pista da Pantera, Victor/Victoria (1982), Os Meus Problemas com as Mulheres (1983), A Vida é Assim e Dueto Só Para Um (1986). Desta forma, durante apenas cinco anos, Julie Andrews pouco se afastou da comédia. Contudo, comprovou a sua capacidade de mutabilidade. A viúva de um criminoso, uma estrela de cinema casada com um produtor cinematográfico em dificuldades e até uma manager de um travesti.

No final de 1997, depois de lançar os 19º e 20º álbuns, a atriz teve de dar uma pausa na sua carreira musical, uma vez que descobriu nódulos na sua garganta. No entanto, a artista não ficou completamente parada. Em 1990, Andrews começou o trabalho filantrópico, através do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher, um projeto que procura assegurar o direito das mulheres.

Além de protagonizar a voz do papagaio de Dr. Dolittle, que tanta falta fez na versão de 2020, foi homenageada pelos seus serviços no mundo do espetáculo, sendo considerada Dama-Comendadora pela Ordem do Império Britânico. Um ano mais tarde, em 2001, recebeu ainda o Kennedy Center Honors.

Também em 2001, Julie Andrews protagonizou um novo filme com a Disney, O Diário da Princesa, completando a sua estadia com a sequela O Diário da Princesa 2: Noivado Real. No entanto, rumores revelam que, após 16 anos, poderá surgir o terceiro filme de O Diário da Princesa. De qualquer das formas, a aliança com a companhia não ficou por aí, seguiu-se o papel de baby-sitter em Eloise at the Plaza e Eloise at Christmastime.

Em 2004, Andrews iniciou uma nova jornada, lado a lado de um ogre, um monstro lendário, que de lendário pouco lhe resta. Sendo assim, passou por Shrek 2 (2004), Shrek, O Terceiro (2007) e Shrek Para Sempre (2010), onde deu voz à Rainha Lillian. Sem se conseguir manter afastada do mundo do fantástico, torna-se a narradora de Uma História de Encantar (2007), a chefe das fadas em A Fada dos Dentes (2010) e ainda participa em Gru – O Maldisposto (2010) e Gru – O Maldisposto 3 (2017). Marlena Gru irá ainda aparecer em 2021 com Minions: A Ascensão de Gru.

Apesar de um constante e normal desacelerar da sua carreira, Julie Andrews lançou, em 2017, o Julie’s Greenroom e, ainda em 2020, espera-se o lançamento do drama Bridgerton. Por enquanto, podemos revisitar a voz da artista no podcast, que criou juntamente com a sua filha, Julie’s Library. De acordo com a artista, a ideia surgiu durante e devido à pandemia e com ela espera que se “traga o conforto de contar histórias para as famílias nestes tempos sem precedentes”.