Mississipi em Chamas estreou a 2 de dezembro de 1988, nos Estados Unidos. Retratou, de forma clara, o lado oculto de uma sociedade violenta e segregacionista que usava o terror como a sua arma mais potente.

Se por mero acaso ou por pura necessidade, este arquivo celebra os 32 anos de existência de Mississipi em Chamas. Sob a direção de Alan Parker e com a participação dos atores Gene Hackman e William Defoe, este filme, baseado numa história verídica, conta uma história não tão distante dos dias de hoje. A longa-metragem introduz dois agentes do FBI que chegam ao Estado do Mississippi para investigar o desaparecimento de ativistas dos direitos civis. Sendo esta narrativa embrulhada no período crítico e violento dos anos 60 nos Estados Unidos, o título acaba por fazer mais sentido.

Ward (William Defoe) e Anderson (Gene Hackman) são dois agentes de idades e temperamentos distintos. A pronúncia sulista de Anderson e a sua idade denotam o seu conservadorismo. Já Ward é um agente novo que assume um papel mais progressista. Contudo, ambos os agentes estão na mesma página quanto ao crime hediondo que lhes cai em mãos.

A conjuntura social e política do país, nesta altura, justifica o fosso que existia entre brancos e negros. Quando um grupo terrorista como o Ku Klux Klan (KKK) espalhava o terror e assassinava membros da comunidade negra, os direitos humanos básicos surgiam em segundo plano. Membros deste grupo, enraizados nos órgãos de justiça e nas estações policiais em grande parte dos estados sulistas americanos, destruíam a democracia que há muito queria brotar no país.

E quando a dor e sofrimento da comunidade negra americana surge no grande plano, a música nunca vem sozinha. O gospel e soul nas vozes impactantes de afro-americanos ecoa pelas igrejas negras e transpiram esses sentimentos em forma de arte. As melodias surgiam, também, em imagens cujo objetivo era demonstrar a força e resistência negra em momentos como marchas e lutas físicas.

Talvez a frase do prefeito de Mississippi resume o caráter social e político de Mississipi em Chamas: “O resto da América não tem importância nenhuma. Vocês estão no Mississippi agora”. A longa-metragem pode ser considerada um retrato de uma América sulista atrasada e mergulhada num ódio profundo que nunca recuperou da Guerra Civil. E, certamente, este arquivo não surge como uma coincidência. Quase 70 anos se passaram desde um dos períodos mais negros da história da América. Estamos em 2020 e a sociedade americana mantém-se dividida como já antes visto. Mississipi em Chamas pode espelhar a década de 60, mas com certeza é o reflexo da atualidade.