Um mês depois do início do novo ano letivo, praxantes e caloiros partilham as suas experiências de praxe virtual.

Este ano letivo, face ao agravamento da pandemia de Covid-19, a praxe presencial na Universidade do Minho (UM) e noutras instituições do ensino superior em Portugal foi proibida. A decisão relativa à academia minhota foi tomada ainda antes do arranque das aulas, a 25 de setembro, pelo Cabido de Cardeais.

O comunicado divulgado pelo órgão regulador da praxe académica no Minho suspendia, então, “todas e quaisquer atividades praxísticas presenciais”. Na mesma nota, porém, apelava-se à continuação das tradições académicas, como a arte de bem trajar. “Trajem! Façam-no para recordar tudo o que devíamos estar a viver, façam-no para mostrar a nossa cultura, façam-no para orgulhar a nossa academia”, salientava o “Papa” da UM, Pedro Domingues.

Desta forma, o online acabou por tomar conta da tradição e tanto praxantes como caloiros tiveram de se adaptar às circunstâncias inéditas. Em entrevista ao ComUM, Rui Filipe, caloiro de Ciência Política, assinala a dificuldade de conciliar a praxe virtual com as aulas. “Seria melhor para todos se pudéssemos estar juntos a fazer a praxe. Assim, a organização em termos de horários torna-se mais complicada porque temos de ir para casa para ter a praxe, o que, para alguns membros, tira ainda bastante tempo e afeta a sua motivação”, reflete.

Neste sentido, Sofia Barros, praxante do mesmo curso, admite que contava com uma adesão menos significativa por parte dos caloiros. Contudo, sublinha a importância de a praxe continuar a existir: “mesmo nestes moldes, porque a tradição não pode morrer e os alunos do primeiro ano merecem viver a experiência académica”.

Já Sofia Silva, caloira de Ciências da Comunicação, revela que as suas expectativas em relação à praxe não se confirmaram. “A praxe na UM é conhecida por ser intensa, mas, ao contrário do que estava à espera, não está a ser muito difícil a nível físico”, considera, reconhecendo, no entanto, as diferenças entre os modos presencial e virtual.

Para além disso, a caloira aponta as desigualdades no acesso à tecnologia. Sofia refere que o sistema online traz “restrições a nível da internet e dos computadores”, mas que, apesar disso, a experiência geral do seu bloco está a ser positiva. “Acho que os doutores têm arranjado boas maneiras de termos uma praxe parecida, dentro do possível, com a presencial”, admite.

Na perspetiva de quem praxa, a tradição não podia ser mais diferente da que experienciaram enquanto caloiros. Joana Maia, do curso de Educação, recorda o momento em que tomou consciência de que seria impossível praxar presencialmente. “No final do passado ano letivo, a praxe já era diferente, mas tinha esperança que voltasse àquilo que estávamos habituados. Com o avançar da pandemia, eu e o meu bloco percebemos que a praxe não poderia ser presencial”, lembra.

Com um mês de experiência enquanto praxante, Joana sente que realizar a atividade “através de um computador é mais complicada”, mas salienta a importância de proteger a saúde pública. “Não é que não nos apeteça mostrar-lhes [aos caloiros] o que realmente vivenciámos, mas temos consciência de que o bem comum da sociedade prevalece em relação à praxe e àquilo que nos apetece fazer”, afirma.

Para Clarisse Monteiro, de Ciências da Comunicação, o novo sistema veio também limitar a união entre caloiros. “A praxe é uma tradição que requer muito contacto e estes novos moldes tiram isso aos caloiros”, explica, referindo que, “mesmo que dois ou três estejam juntos a ser praxados, não se sentem unidos ao resto do bloco”.

No entanto, a presidente de comissão de praxe garante que tenta compensar a situação com propostas diferentes. “Enquanto doutora, esforço-me para organizar atividades e desafios que podem ser feitos em pequenos grupos. Não sendo possível reunir o grupo todo, pelo menos reúnem-se pequenas partes dele”, acrescenta.

Com tudo isto, as duas praxantes temem que não seja possível transmitir o legado pretendido e aguardam mudanças no futuro. “Os mais positivos acreditam que vamos conseguir voltar à nossa praxe; os negativos dizem que os atuais caloiros não vão saber praxar presencialmente. Sobre o que vai acontecer, só tenho a certeza de que é uma incerteza”, conclui a praxante de Educação.