«Não quero mais». Depois de duas cirurgias e mais de um ano parado, foi confrontado com mais uma dolorosa notícia: é preciso voltar a operar. E foi nessa altura que disse basta. Estava na hora de pendurar as sapatilhas. Ou então não. Esta é a história de Bruno Cintra, jogador de futsal do SC Braga/AAUM, que regressou às quadras há cerca de um ano, depois de quase ter deixado a modalidade.

Pequeno estalo, grande problema (x3)

30 de dezembro de 2017. Uma tarde em pleno inverno que Bruno Cintra nunca mais vai esquecer. O SC Braga/AAUM recebia o Belenenses na 16.ª jornada da Liga Sport Zone. Um jogo que era apenas mais um para o jovem brasileiro, até que deixou de o ser. «Foi um lance totalmente normal. O adversário estava virado para a esquerda e, de um momento para o outro, quis inverter o sentido e virar para a direita», descreve. E a meio do movimento, aconteceu. «No momento em que ele travou a bola e em que eu pisei o chão, senti um estalo». Um pequeno estalo que veio a dar origem a um grande problema.

«Saí a gritar e a chamar desesperadamente pelo Armando [fisioterapeuta do clube]. Já sabia que tinha sido uma coisa muito grave, pela forma que foi o lance e pela dor que estava a sentir», revela. Logo veio o diagnóstico: rotura total dos ligamentos do joelho direito. O mesmo é dizer que à espera de Bruno Cintra estava uma paragem nunca inferior a seis meses.

O tempo passou e Cintra recuperou. Recuperou para voltar a cair novamente. O joelho voltou a ceder sem que tenha voltado a jogar oficialmente. Pequeno estalo, grande problema: edição II. Hora de regressar à mesa de operações. Hora de enfrentar o segundo assalto.

Bruno Cintra SC Braga/AAUM

Diana Carvalho/ComUM

Ferido, mas a continuar a lutar. E o processo repete-se: cirurgia e recuperação, na esperança de que à segunda seja de vez. Mas todos sabemos que não é assim o ditado, e Cintra também veio a saber. O joelho continuava a dar problemas e a notícia chegou pela equipa médica bracarense de que era preciso uma nova intervenção. Pequeno estalo, grande problema: edição III. Mas desta vez a predisposição de Bruno Cintra não era a mesma.

«Sentei-me com o fisioterapeuta, que disse que ia ter de fazer a terceira cirurgia. Foi aí que disse que não queria, que não ia fazer isso de novo». Contudo, hoje está novamente a jogar futsal. O que aconteceu? «Ele [o fisioterapeuta] deu-me alguns exemplos de coisas do dia-a-dia, fora do futsal, que eu não ia conseguir fazer sem dores. E então sentei-me com a minha família e resolvi aceitar», explica.

Se vais à luta, então mais vale ganhar. Bruno Cintra foi à luta mesmo quando parecia pronto a deitar a toalha ao chão. E ganhou. «Fazendo a terceira cirurgia, tinha que voltar a jogar. Não ia fazer a cirurgia, recuperar e depois parar. Fazendo a cirurgia, encarando o terceiro desafio, tinha que ter algum retorno», conta. O retorno foi poder voltar a fazer o que mais gosta.

“Depois da tempestade, vem a bonança”

2 de novembro de 2019. Passaram exatos 672 dias desde o momento da lesão. A «fase negra» de Bruno Cintra terminou e o regresso vai, finalmente, acontecer. O brasileiro começa no banco de suplentes na visita dos minhotos ao Eléctrico.

Com o passar do relógio, o treinador Paulo Tavares dá a indicação pela qual Cintra esperou 22 meses. Vai entrar na quadra e tornar o regresso real. «Entrei com cuidado, mas confiante. Correu tudo bem. Ganhámos o jogo, joguei bem e consegui ajudar a equipa a conquistar pontos que eram importantes na altura», recorda. Para trás tinha ficado uma semana de muita ansiedade. «Na noite anterior não consegui dormir. Estava muito ansioso para voltar à quadra. Quando tentei voltar aconteceu sempre alguma coisa com o joelho e fiquei com um pouco de ansiedade e medo. Mas correu tudo bem».

Certo de que a dor mais difícil foi a de «ficar de fora» do que propriamente a física, o jogador natural de Fortaleza não esquece o que o clube fez por ele. «Não é fácil passar dois anos parado e o clube acreditou muito em mim. Deu-me todo o apoio possível, nunca me deixou faltar nada e foi fundamental para conseguir reerguer-me». Por tudo isso, Cintra sente que tem uma dívida para com o clube, no caso de alguém lhe bater à porta com uma proposta para o tirar do Minho. Primeiro, porém, é preciso regressar ao melhor nível. «O primeiro objetivo é voltar ao nível em que estava. Depois, acredito que tenho de dar um voto de confiança ao Braga. Passei dois anos parado, eles confiaram em mim, no meu trabalho e acreditaram que ia dar a volta. Tenho de retribuir».

A 2 de novembro celebrou-se um ano desde o regresso. Um ano livre de problemas físicos. Um ano onde a preocupação foi pura e simplesmente jogar futsal. Muitos poderiam não esperar vê-lo de volta aos grandes palcos, mas o atleta de 27 anos trabalhou sempre nesse sentido. «Foi para isso [o regresso] que trabalhei durante a recuperação. Foi para isso que fiz todos os tratamentos, que segui tudo à risca, que abdiquei de algumas coisas. Tudo para conseguir jogar ao mais alto nível».

Armando Fernandes, o parceiro na «montanha russa»

Para além da saúde física, também a saúde mental pode ser um problema, sobretudo em histórias como a de Bruno Cintra. Quando os dias do jogador brasileiro se pintavam em tons de cinzento, com as nuvens a não o deixarem ver o sol, eram as pessoas mais próximas aquelas em quem se apoiava. «[Lida-se com isto] Agarrando-se a quem realmente gosta de você, a família e os amigos. E isso foi fundamental para eu conseguir estar bem psicologicamente, juntamente com a estrutura do Braga, que sempre me apoiou. Funcionaram como um psicólogo para mim», conta Cintra.

De entre todas as pessoas que lidaram com o atleta durante os piores momentos, há uma que sobressai: Armando Fernandes, fisioterapeuta do clube e parceiro de todas as horas na viagem que descreve como «uma montanha russa». «Estávamos bem [depois da primeira recuperação] e voltámos ao ponto mais baixo. E aí tem de se começar do zero», explica.

Armando reconhece que se chegou a colocar a hipótese de ter um psicólogo a acompanhar o jogador durante a recuperação. Não foi preciso. Bastou «a força mental» de Cintra na hora da recuperação. Aliás, o fisioterapeuta afirma que só jogadores com essa força podem superar tamanho desafio. Um desafio que deixa marcas ainda hoje: «Para além dos treinos, o Bruno tem de ir ao ginásio mais uma ou duas vezes por semana para fazer o reforço do membro afetado».

Bruno Cintra SC Braga/AAUM

Três operações deixam marcas e o joelho de Bruno Cintra está repleto delas Diana Carvalho/ComUM

Depois de tudo o que passou, o brasileiro tem «as mesmas expectativas» de antes e, com um brilho nos olhos de quem é novamente feliz, termina com um desejo: «Conquistar um título pelo Braga».