Foram mais de 100 mulheres mortas pelos companheiros nos últimos seis anos, 30 delas em 2020. O mais recente projeto audiovisual da artista Carolina Deslandes é dedicado a estas e a todas as mulheres e dimensões que as constituem. Mais do que um EP e uma curta-metragem, Mulher é a expressão máxima de uma artista de causas que se transcende a cada nova era.

Foi a 25 de novembro, o Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra as Mulheres, que Carolina Deslandes lançou um novo projeto particularmente distinto dos anteriores. A artista é conhecida por retratar o amor de forma bastante autobiográfica, mas desta vez, Carolina propôs-se a “falar de todas as coisas que acontecem (…) fora da redoma realidade singular que nos dá esta falsa noção que o mundo é só aquilo que nos acontece”, como afirmou no Instagram. A artista veste a pele de muitas mulheres que sofrem várias formas de violência, na tentativa de chamar a atenção deste problema tão enraizado na sociedade portuguesa.

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O EP conta com a participação do músico Agir, que produziu os temas “Tempestade”, “Apetece” e “Não Me Importo”, e Diogo Clemente, com quem Carolina escreveu as canções “Vergonha Na Cara”, “Sinais de Fumo” e “Faz Morada em Mim”. Estas duas últimas não estão disponíveis nas plataformas de streaming; constam apenas na versão da curta-metragem disponível no YouTube, na qual podemos assistir à ficção escrita, narrada e protagonizada pela artista.

Mulher sucede o EP Mercúrio, lançado no verão em parceria com Jimmy P, e ao álbum Casa, editado em abril de 2018, que alcançou a marca de platina e colocou Carolina Deslandes entre os artistas de maior sucesso em Portugal. Casa inclui três singles que atingiram o topo de vendas: “A Vida Toda”, “Avião de Papel”, uma parceria com Rui Veloso, e “Adeus, Amor Adeus”.

O primeiro tema do EP possui o instrumental mais rico de todas as canções. Abre com um solo de uma flauta característica da música irlandesa, à qual se vai juntando uma linha de instrumentos de cordas – violinos, violas, violoncelos e contrabaixos. Este ambiente orquestral, impetuoso e impactante faz jus ao título do tema, “Tempestade”.

No que concerne à lírica, Deslandes fala sobre a dor de quem quer fugir à violência e sobre a opressão que a mulher que pede ajuda sofre por parte do agressor e, muitas vezes, por parte da sociedade. Destaco os primeiros versos do refrão, “dizes que eu faço uma tempestade num copo de água / enquanto eu nado na minha mágoa”.

Segue-se “Apetece”, um hino à liberdade sexual das mulheres. Rompe com a narrativa de uma mulher submissa que corresponde ou não aos desejos do homem. Deslandes assume o controlo, toma a iniciativa e não tem medo de o exprimir: “eu quero tudo e já me conheces / hoje eu não penso em mais nada / quero estar errada е fazer o que me apetece”. O pós-refrão que fecha a canção, caracterizado por uma mudança na melodia e uma performance vocal repleta de harmonias, é bastante elucidativo desta liberdade que a artista pretende transmitir. A nível instrumental, a percussão de André Silva é digna de destaque.

Na capa do EP podemos ver Carolina Deslandes combinar uma sweatshirt da Nike com elementos da cultura portuguesa, como o coração de Viana e o lenço à minhota. Esta conjugação pouco comum é espelho da abordagem sonora do projeto: a artista combinou características da música tradicional portuguesa com ritmos mais contemporâneos e urbanos, tal como podemos ouvir em “Vergonha Na Cara”. O terceiro tema abre com sucessivos estalar de dedos acompanhados por guitarra e baixo elétricos, bem ao jeito Pop/R&B.

Liricamente, Deslandes bate o pé e denuncia o movimento mediático que muitas vezes denigre a imagem feminina. A artista é um dos principais alvos de críticas duras e pouco fundamentadas por parte da imprensa cor-de-rosa, que se pronuncia sobre a vida pessoal, as opiniões e até o corpo de Carolina. Assim sendo, a artista deixa o aviso “cuidado com o que compras / guarda isso na gaveta / que a revista é cor-de-rosa / mas a alma deles é preta”.

O EP fecha com “Não Me Importo”, o retrato de uma mulher “renascida na despedida”, bem resolvida após o término da relação. Carolina canta em nome de todas as mulheres que, apesar de tudo aquilo que sofrem nas mãos dos companheiros, conseguem colocar-se em primeiro plano e afastar os sentimentos de culpa e raiva, agora experienciados pelos agressores. Neste último tema, a produção de Agir revela-se especialmente exímia, tendo conseguido captar a essência dos ritmos latinos e transportá-la para um cenário marcadamente Pop.

No fundo, é esta combinação sonora muito bem conseguida e a exploração de um tema importante, urgente, ao qual temos de continuar a dar atenção, que fazem deste projeto audiovisual o melhor que a artista portuguesa ofereceu. Mais que uma curta metragem ou uma compilação de canções, Mulher encerra em si uma questão que, em pleno século XXI, continua a ser de vida ou morte para avós, mães, filhas, irmãs, enfim: mulheres. A mensagem de Carolina é clara: a violência e o feminicídio não passarão!