O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá foi lançado em 1986. Jorge Amado fala-nos do amor proibido numa ternurenta fábula. As coisas mais complexas da vida são explicadas com recurso a metáforas simples. Neste conto nem o mundo animal escapou às turbulências dos romances. O autor conta-nos uma peculiar história de amor, que se desenrola ao longo das quatro estações do ano. O livro é antigo, mas a sua pertinência é intemporal.

A narrativa inicia-se no inverno, uma estação conhecida pelo clima frio e a tristeza. Elementos naturais como o vento, o tempo e até o sol são a força motriz da história. O pano de fundo dos acontecimentos é um parque onde habitam diversos animais.  Destaca-se o Gato Malhado que é conhecido por ser mal-humorado, solitário e feio. O temperamento do gato funde-se com o temperamento que o inverno provoca na generalidade das pessoas. Porém, um dia cruza-se com a Andorinha Sinhá que lhe muda a postura perante a vida. Esta jovem Andorinha traz consigo a Primavera e uma nova luz à vida do Gato. O protagonista apaixona-se pela jovem andorinha, após convívios frequentes.

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Com o começo de um romance sério, o Gato torna-se num ser bem-humorado e realizado. Uma vez mais, o seu estado de espírito acompanha a mudança da estação. Contudo, este amor é proibido uma vez que o Gato e a Andorinha são de espécies diferentes. As regras do mundo animal jamais permitiriam tal união. Todos sabem que os gatos são os eternos inimigos das aves. Os animais do parque começam a criticar o interesse romântico dos protagonistas que passam a ser alvo de olhares reprovadores e más línguas. A Andorinha e o Gato Malhado ficam sujeitos a vários entraves à sua união. O romance acaba por ficar à mercê do destino.

O conto de Jorge Amado é uma ótima reflexão acerca dos amores impossíveis. Apesar de ser um livro infantil, os temas abordados são bastante pertinentes. Retrata de forma simples os preconceitos existentes na sociedade que impedem determinados romances. Parece um tema anacrónico, quase de telenovela, mas a verdade é que ainda existem muitos amores impossíveis. Se procurarmos com curiosidade, talvez encontremos alguns dentro dos nossos córculos.

Em simultâneo, o livro estabelece um paralelismo entre o amor espontâneo e o casamento arranjado. Outro detalhe interessante é a sátira realizada a alguns dos animais. Os que mais apontam o dedo a este romance inesperado, acabam por revelar-se como os detentores dos maiores telhados de vidro.

Enquanto conto infantil, Gato Malhado e a Andorinha Sinhá destaca-se pela sua simplicidade linguística, capaz de fazer o leitor refletir acerca das complexidades do amor. A escrita de Jorge Amado é extremamente poética e carregada de adjetivos, o que torna a experiência de leitura mais aprazível. Um detalhe interessante da edição que escolhi é que contém ilustrações em aguarela magnificas.

Nem todas as histórias de amor precisam de ser grandiosas para merecerem ser contadas e este livro prova-nos isso. Sem dúvida que é uma leitura aconchegante para quem gosto de uma boa fábula com uma dose de romance.