O novo EP de Jazmine Sullivan mergulha nas profundezas da relação entre amor e poder, marcando o fim de um hiato de cinco anos. Lançado a 8 de janeiro, Heaux Tales é o primeiro projeto desde Reality Show (2015). Chega com uma expectativa palpável, alimentada tanto pelos temas inigualáveis aos quais nos tem vindo a habituar, quanto pelo desaparecimento dos olhos do público.

Embora os últimos projetos não tenham feito tanto sucesso comercial quanto o álbum de estreia Fearless (2008), o merecido apoio dos colegas e dos críticos tem vindo a ser constante ao longo da carreira de Jazmine Sullivan. A verdade é que, apesar de ser considerado um EP (Extended Play), este novo projeto parece destacar-se entre a vasta discografia da artista estadunidense. Heaux Tales encerra em si, não só produções musicais melhores e mais interessantes, como toda uma abordagem conceptual excecional.

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Amor, sexo e empoderamento são temas recorrentes no R&B. Este género musical é, também, conhecido por servir de plataforma para as vozes femininas, em especial. Com os media em constante evolução, este tipo de mensagens é facilmente perseguido por estereótipos de género que, na sua generalidade, diminuem e denigrem a mulher. Em Heaux Tales, Jazmine recusa-os e transcende-os, aliando-se a amigas e outras artistas, que vão partilhando as suas histórias de amor, empoderamento sexual e, até, infidelidade. Estas partilhas podem ser classificadas como interlúdios que vão introduzindo as músicas principais.

É, por isto, de mulheres que Heaux Tales é feito, mas não só para elas é dirigido. Chama a atenção de todos os que se acham no direito de as objetificar, menosprezar e ofender. Jazmine Sullivan apodera-se do insulto “hoe”, comumente associado a mulheres promíscuas, atribui-lhe a elegância da escrita francesa (“heaux”) e transforma-o numa forma de empoderamento feminino, num símbolo para todas as que assumem a sua sexualidade sem tabus, quase como se de um título honorífico se tratasse.

Sullivan lançou, em novembro de 2020, duas versões do singlePick Up Your Feelings”: a faixa de estúdio e uma versão ao vivo. Trata-se uma carta de (des)amor implacável, de forma alguma a primeira da sua discografia. Destaco os versos “I deserve so much more than you gave to me/Now I’m saving me”.

Na versão ao vivo, na qual se faz acompanhar apenas por guitarra elétrica e coro, Jazmine revela virtuosidade e veemência na performance vocal, marcada por melismas exímios. Na faixa de estúdio, destaco a percussão e a linha de baixo elétrico simples, porém eficazes. A guitarra cria uma atmosfera retro que, associada aos acordes de piano invertidos, torna a faixa mais fria e enfatiza a fúria da intérprete.

A raiva e mágoa que uma traição pode provocar são emoções que a artista já está habituada a retratar. Outras canções aventuram-se em território mais “montanhoso” e ambivalente. No comovente single “Lost One”, Jazmine assume-se como infiel. Expressa grandes remorsos e arrependimento por destruir um relacionamento para o qual deseja, agora, poder voltar.

É uma confissão de puro desespero, expressa através de um registo grave extraordinariamente ágil. Contudo, a unidimensionalidade da guitarra elétrica que acompanha a artista acaba por desiludir. Apesar de toda a dor e emoção, a canção poderia fechar com um instrumental mais dinâmico e impactante.

A lírica de “Put It Down” revela, por outro lado, um estado de espírito quase ilógico. A artista vê os seus impulsos sexuais correspondidos em troco de dinheiro e bens materiais, o que causa algum desconforto ao ouvinte. Contudo, a faixa reflete a fragilidade e a impotência sentidas face à falta de amor e é impossível não desenvolver alguma empatia. Ao nível da produção musical, o beat de influência trap contrasta com o teclado mais requintado, o que enfatiza esta narrativa mais antagónica.

Jazmine fecha o EP com “Girl Like Me”, em colaboração com um dos mais recentes fenómenos do R&B, H.E.R. Para além de encerrar em si todas as temáticas anteriores, o tema vem justificar algumas das declarações da artista, agora bem mais frágil e desolada. O inesperado fim do relacionamento traz-lhe uma insegurança desmedida em termos físicos e psicológicos, “Knew it was real when you blocked me/ Now I sit at home judgin’ my body”. Entrega-se com honestidade e verdade a um amor que acaba por magoá-la e, por isso, resta-lhe apenas uma opção: “I ain’t wanna be / But you gon’ make a hoe out of me”.

Tanto Jazmine como H.E.R. possuem vozes fortes e ágeis, o que poderia tornar o tema sonoramente disruptivo. Todavia, as artistas provam, mais uma vez, o seu valor e oferecem um dueto harmonioso que nos deixa a todos boquiabertos. “Girl Like Me” é, no fundo, a fórmula ideal para fechar o EP, pois reflete muito bem a transformação pessoal e artística de Sullivan.

Apesar da criação de Heaux Tales corresponder a um tempo conturbado da vida de Jazmine, tal como refere em entrevista ao Genius, o EP marca um ponto de viragem na carreira da artista. A sonoridade soul, a agilidade do gospel e as influências urbanas continuam lá. É a sinceridade, a transparência e o conceito que se destacam e podem fazer deste um dos melhores projetos R&B do ano, conquistando-lhe depois de 12 nomeações e zero (injustas) vitórias, o primeiro Grammy.