Os The Body são uma das bandas mais pesadas, mais barulhentas e mais abrasivas no mundo do drone, noise e sludge. Com mais de 10 anos de história, construíram um catálogo impressionante com álbuns, EP’s e colaborações com outros monólitos da cena, como Thou e Full of Hell. Uma coletânea de projetos da dupla constituída por Lee Buford e Chip King, sem mercê pelos nossos preciosos ouvidos.

Há tanto para apreciar no som diabolicamente construído pelos The Body, desde os riffs esmagadores, baterias mortíferas ao uso criativo do noise e distorção e produção não ortodoxa. Em acrescento a estas delícias todas, a cereja no topo deste bolo são os vocais de Chip King. O que mais me marca em The Body são os guinchares ininteligíveis que ecoam pela carnificina sonora. Persistentes e perturbadores acrescentam um outro nível ao horror do som criado.

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Com este novo projeto, I’ve Seen All I Need to See, esses elementos clássicos estão presentes em abundância. Aqui, os gritos penetrantes parecem estar talvez mais “escondidos” na mistura, ou talvez a distorção e os riffs estejam mais altos que o costume. Em concordância, este álbum é bem capaz de ser o mais ruidoso, distorcido e comprimido que os The Body lançaram.

Este monstro é tão barulhento que as múltiplas camadas grossas de distorção, encapsuladas em todas as faixas, quase que tremem sob o próprio peso. Ao mesmo tempo espremem por completo qualquer outro som que tenha a audácia de se revelar. A faixa introdutória, “A Lament” é um dos exemplos – os cymbals cacofónicos estremeçam a tentar respirar no meio das camadas referidas. Em acrescento, as melodias ascendentes, com um toque de post-rock, para o fim da faixa são um belo toque e adicionam ainda mais textura a uma faixa já incrível. Um início impetuoso e uma premonição para o que ainda dali virá.

As coisas tornam-se ainda mais selvagens na faixa seguinte, “Tied Up and Locked In” (algo que nos podemos todos relacionar atualmente). Aqui são predominantes as mesmas features referidas anteriormente – as baterias, os vocais e os riffs obliterantes e distorcidos que se arrastam sem fim. O que torna estra track mais intensa é o facto de o ritmo ser mais acelerado e mais amigável para o “headbang”, por assim dizer. Já para não falar que, à medida que a faixa avança, torna-se cada vez mais horrenda e nojenta – o último minuto é apenas… Jesus Cristo. Quando termina é como se tudo tivesse sido destruído e transformado em pó.

“Eschatological Imperative” tem dos riffs mais gigantescos e panorâmicos do projeto em si. Em termos de composição, é bastante simples e direto, o que não é nada de novo para The Body, já que as suas músicas tendem a arrastar-se lentamente. Contudo, este som é simplesmente demasiado opressor e opressivo para se colocar em meras palavras… mas eu posso tentar.

Ao longo da faixa, temos drums que mais parecem pedaços de ferro quente a baterem nas nossas costas, enquanto a distorção e os vocais tornam os tímpanos em meros sacos de pancada. Lento e corrosivo, traz consigo os melhores elementos pela qual The Body é conhecido.

A seguir temos “A Pain of Knowing”, um tema que desce o nível de intensidade, focando-se meramente na distorção absurda e nos vocais que a acompanham. Não me despertou muito interesse, visto que se tornou na música mais cansativa de ouvir – ainda pior sendo esta uma das mais longas do álbum. Apesar da exímia produção e mistura, não me deixou um pressentimento de um ambiente realmente cacofónico. Não muito criativo e ousado no geral.

“The City is Shelled”  tem uma progressão semelhante à 2ª faixa do álbum: riff hipnotizante, uma groove constante e abrasiva. Em semelhança, a faixa vai despedaçando-se à chegada do fim dos quase 6 minutos de duração, com os cymbals tão “fritos” ao ponto de soarem como um sibilar de white noise. O som mais eletrónico que se introduz violentamente na segunda parte é mais um fator que contribui para toda esta excelente e apocalíptica textura.

Na penúltima faixa, “The Handle/The Blade”, temos uma conjugação do drone constante, bem como batidas fortes e tensas, com um ritmo rápido, para o que estamos acostumados. Apesar do excitante início, que me deixou ansioso pelo resto da faixa, acaba sem muita confusão e perturbação. Simplesmente desvanece aos poucos de uma forma anti climática.

“Path of Failure” é o ponto final deste projeto que consta com um início corrosivo, com riffs curtos, mas impactantes que acompanham o marchar das batidas de guerra lentas, vítimas da distorção. A meio ponto, parece que temos uma “rutura” no ritmo. A adição do que parecem ser improvisos de free jazz na bateria traz ainda mais textura ao drone e ao noise que continuam persistentes no meio disto tudo. Não foi das minhas favoritas, mas teve os seus pontos altos (e barulhentos).

E chegamos ao fim de I’ve Seen All I Need to See. Um projeto simples e sem “gordura extra”. The Body continuam a fazer aquilo que sabem fazer, sem grandes mudanças ou desavenças. Se não estiveres a sentir e a apreciar o som nos primeiros minutos deste álbum, provavelmente o resto não te vai interessar. A dupla consegue sempre dar uma boa ideia daquilo que vão fazer ao longo do projeto logo no seu início. O noise, a distorção e o engenho todo por detrás deste álbum catastrófico (no bom sentido) são todos fantásticos. Uma verdadeira caminhada de tortura impetuosa, sem qualquer esperança de escapar.

Contudo, e em comparação aos restantes projetos de The Body, este álbum é claramente muito mais unidirecional e não tão diverso instrumentalmente. Ao mesmo tempo, consegue ainda garantir uma boa quantidade de versatilidade no meio deste absurdismo sonoro.