O evento visou a discussão de várias questões relacionadas com a masculinidade tóxica.

O Heforshe Universidade do Minho, em parceria com o Núcleo de Estudantes do Curso de Sociologia da Universidade do Minho (NECSUM), organizou, esta segunda-feira, o evento “Falácia do Super Homem: antes do tóxico, o homem”. Realizado em formato online, teve como principal objetivo debater as várias questões relacionadas com a masculinidade hegemónica.

O debate contou com a participação de Ana Luísa Abreu, coordenadora e psicóloga no TikTaks, Tiago Rolino, investigador júnior do Centro de Estudos Sociais e Joana Andrade, psicóloga na Unidade de Consulta de Psicologia da Justiça e Comunitária na Associação de Psicologia da UMinho.

Ana Luísa Abreu começou por referir que “quando se fala da masculinidade tóxica, fala-se sobretudo de uma construção social”, existindo várias expectativas, por parte da sociedade, em relação ao que é ser masculino. Espera-se que um homem “seja destemido, não expresse emoções, seja o provedor, o chefe de família” como exemplificou a oradora. Abordou também a questão da naturalização da violência como a afirmação e “prova” da masculinidade.

Por sua vez, Joana Andrade partilhou da mesma opinião de Ana Abreu, acrescentando que “falar de masculinidade tóxica não é criticar necessariamente as questões do masculino.” A toxicidade do masculino está também associada à vulnerabilidade, visto que “não corresponder às expectativas da sociedade pode transformar o homem em vítima”, afirmou Joana. Acrescentou ainda que por esta razão “no sistema patriarcal, nem o homem nem a mulher saem a ganhar”.

Tiago Rolino sublinhou que “quando se fala de masculinidade, deve-se fazê-lo de uma perspetiva feminista – não pôr o foco no homem pelo homem, mas sim numa posição de igualdade.” Opôs-se à opinião de Joana, referindo que é difícil percecionar o homem como uma vítima, porque “se [os homens] sofrem consequências é sempre uma consequência da sua posição de poder.” Falou ainda da necessidade de desconstruir o masculino, expondo que existem várias vantagens em sair da “caixinha da masculinidade”, tais como usufruir da sua liberdade e autodeterminação num estado pleno.

Retomando a palavra, Joana Andrade referiu que no discurso social existem uma separação, logo na infância, entre o feminino e o masculino. “Os brinquedos dos meninos são muito mais associados ao poder e à força”, como exemplificou a psicóloga. Referiu ainda que existe uma diferenciação sobre a forma como se lida com as emoções – “é logo esperado que o rapaz (um potencial homem) é capaz de se defender de uma forma autónoma porque tem mais poder.”

Direcionando o debate da Heforshe e e do NECSUM para a masculinização ou feminização das diferentes profissões, Ana Luísa Abreu admitiu que esta questão advém sobretudo de uma necessidade de “encaixar o mundo numa lógica binária” e que se reflete não só na personalidade, mas também na forma como a sociedade se organiza.

Na segunda parte do evento, foi ainda abordada a questão da fluidez do género. Tiago Rolino conferenciou que se alguém se comportar “fora da caixinha da masculinidade” e se sentir como um homem, não vai passar a ser uma mulher por causa disso. “Porque é que me vão chamar menina ou mariquinhas se eu jogar mal futebol?”, enfatizou o orador ao abordar a necessidade da sociedade de colar a homossexualidade a comportamentos considerados fora da “caixinha”. “Eu posso colocar um gancho no cabelo e não me vou sentir mulher por causa disso – eu expresso a minha masculinidade da forma como eu quero”, acrescentou ainda.

Relativamente a esta questão, Joana Andrade salientou que “o problema está nos rótulos, que muitas vezes são sociais e são impostos”. Afirmou ainda que esta desconstrução da masculinidade é uma realidade ainda muito longe.