Nove anos depois de se lançar no YouTube cantando covers de músicas populares e ser notada por Justin Bieber, Madison Beer lançou, no passado dia 26 de fevereiro, o álbum Life Support. A produção elegante e as palavras poderosas e adultas amplificam a voz de Madison, que sempre foi subestimada pela indústria.
A persistência está no sangue da cantora de 22 anos e isso comprova-se pelo longo caminho que a jovem teve de percorrer até chegar a este grande momento que é o lançamento do seu primeiro álbum de estúdio.
Como tudo na vida, o álbum começa pelo início e o próprio título da faixa faz questão de colocar isso em evidência. “The Beginning” é uma faixa de 58 segundos em que ouvimos a harmonização feita pela artista, a par de um suave instrumental. Pode ser dito que Madison encarnou, perfeitamente, o papel de uma sereia que deixa as cordas vocais apoderarem-se de todos os cantos do oceano, neste caso, das mentes dos ouvintes.
“Good In Goodbye” retoma o ritmo da melodia anterior e desenvolve-se numa batida estrondosa, até mesmo incomum para o início de um álbum. A artista avisa que não está com papas na língua e deixará as palavras e pensamentos fluírem livremente ao longo desta obra, doa a quem doer. «You put the “over” in lover, put the “ex” in next/Ain’t no “I” in trouble, just the “U” since we met/’Cause you’re toxic, boy/I ain’t even gotta try to find the/G-O-O-D in goodbye» – segundo Madison, este poderoso hino sobre separação fala de “cortar laços com uma pessoa tóxica por mais difícil que seja, só assim será possível andar em frente”. Depois do fim da relação com Jack Gilinsky, suspeita-se que esta e grande parte das músicas do projeto são sobre o ex-namorado.
“Default” continua o registo por sofrimento amoroso, a nível de letra, e reintegra a suavidade e a harmonização vocal e instrumental presentes na primeira faixa. Por sua vez, “Follow the White Rabbit” começa com uma tonalidade misteriosa, progredindo para uma aura de realeza e fantasia concebida pela integração dos sinos orquestrais. A jovem demonstra-se determinada a conseguir conquistar este rapaz que menciona na letra, nem que pareça estar a assombrá-lo. O final da música termina numa espiral majestosa de loucura e adrenalina, como se estivéssemos a cair na toca do Coelho Branco. Madison sofre de transtorno de personalidade borderline, tornando-se esta música, possivelmente, uma referência a essa sua caraterística, já que a história de Alice no País das Maravilhas encontra-se associada às doenças mentais.
“Effortlessly” é uma extensão do dark pop sombrio e sofisticado, porém transmite energias mais sensuais. Todavia, liricamente, esta composição narra aspetos muito mais sérios como depressão, insegurança e suícidio, experiências que fizeram parte da vida da artista: «But I’m still fading/I can’t save me/Am I just gonna drown? So I hold my breath to breathe/Hurt me so/I feel I used to do these things so effortlessly, somehow».
Por sua vez, “Stay Numb and Carry On” caracteriza-se pela batida que entrega elementos de pop e psychedelic pop. Ao contrário da faixa que a antecede, existe uma mensagem mais esperançosa e de vontade de continuar a viver, ainda que as emoções da cantora se tenham dissipado.
Muitos são os jovens que experienciam violência no namoro e “Blue” toca nesse assunto de forma perfeita, incentivando-nos a sair de uma relação assim: «You could be sweet as honey/ But I knew your darkness in your mind/We were like a gorgeous bed of roses/Ready to die any time/Gettin’ rido f you might be the best thing I ever did», «But I know where to run, run, run». Podemos achar que é amor, mas são mais os momentos de tristeza do que felicidade nesses relacionamentos: «I was always blue behind the/Black mascara that I cry». Depois de um momento emocional, é curiosa a forma como Blue termina, inserindo elementos EDM.
“Interlude” concretiza a função que lhe cabe, entre um autotune interessante, mas desnecessário. Apesar disso, o desejo de independência, de se libertar de um relacionamento tóxico e ser “alguém” presentes no lirismo da composição, compensa o autotune intrigante. “Homesick”, a nona faixa do álbum, transmite, de facto, uma sensação calorosa de estarmos em casa com as pessoas que gostamos, conseguida pela integração da guitarra acústica.
“Selfish” é, para muitos, o ponto alto do projeto. O segundo single, lançado no Dia dos Namorados, em 2020, ganhou extrema popularidade graças às plataformas Tik Tok e Spotify. Esta balada lenta que nasce da conjugação entre o pop e o R&B, descrevem um parceiro egoísta que nunca soube amar Madison: «I always knew that you were too damn selfish/I bet you thought you gave me real love/But we spent it all in nightclubs/All you ever wanna do is lie». De acordo com rumores, a música seria sobre Zack Bia, com quem estabeleceu uma relação amorosa muito conturbada. “Sour Times” é inspirada na musicalidade dos Tame Impala, o que foi totalmente bem conseguido, já que os elementos de rock alternativo estão todos presentes.
Chega de sofrer e derramar lágrimas, “Boyshit” é toda a agressividade e empoderamento que esperávamos de Madison. Cansada da toxicidade, da incapacidade de comunicação e dos desacordos, Beer pôs um travão em tudo isso com este hino, que considero ser a melhor música do álbum, que explora o sassy pop, o dance-pop, o synth-pop e o rock.
“Baby” é, definitivamente, o sex moment que faltava neste trabalho. A cantora-compositora conseguiu compor uma música sensual e sedutora, sem se tornar demasiado banal. A par disto, a produção demonstra-se requintada, explorando um ambiente místico.
O single promocional “Stained Glass” é a música mais emocional e pessoal de todas, explorando as dificuldades que a jovem passou devido ao escrutínio do público na vida pessoal e, consequentemente, os problemas mentais («My skin is made of glass/But apparently it’s stained/’Cause you notice all the cracks/But can’t look inside my pain/And if you throw another stone/Then I’d stay far away, far away/I just might break»). Esta faixa demonstra o quão potente é a capacidade vocal de Madison e o talento ímpar da vocalista. Depois de toda a emoção, as canções “Emotional Bruises”, que é a letra favorita da cantora, e “Everything Happens For a Reason” provocam um sentimento de relaxamento e tranquilidade após a turbulência das músicas anteriores. A sentimentalidade autêntica presente tanto na letra, como nos vocais, arrepia cada milímetro da nossa pele.
Por fim, a última batida, “Channel Surfing/The End” incorpora um pouco de cada música do álbum num estilo retro e conclusivo, fechando este círculo de comoções e experiências.
Madison descreve Life Support como “honesto, corajoso e baddass” e não existem melhores palavras para descrever este epítome de quem é Madison Beer. É possível sentir em cada faixa a alma da cantora, aquilo que ela é e aquilo que ela deseja transmitir. Não é simplesmente a voz e as palavras de uma jovem, é alma e coração de uma adulta que aparenta ter uma vida perfeita na Internet, mas sofre com os medicamentos e a terapia para a ansiedade. É um diário de uma mulher normal que teve a coragem para ser vulnerável.
Álbum: Life Support
Artista: Madison Beer
Editora: Epic Records
Data de Lançamento: 26 de fevereiro de 2021



